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ARTIGO | Um sábado de aprendizagem

* Por Elizabeth Gondim


 

un25223Eu assisti a uma aula intitulada A Educação e a Emergência de Múltiplos Paradigmas: Novos Tempos e Novas Atitudes. Aula esta proferida pelo paranaense Mario Sérgio Cortella, que no seu histórico consta a convivência por 17 anos e um trabalho de doutoramento sob a supervisão de Paulo Freire (pasmem, ele também tem formação em Direito). Com um caderno na mão e uma caneta, eu rabisquei o máximo que pude da aula visando ao meu amadurecimento como ser humano, e aproveito a oportunidade para partilhar com os que se interessam pelo EDUCAR.

 

Durante a aula foi resgatado um pouco do ato milenar de educar, perpassando pela Academia Platônica e Liceu Aristotélico. Logo apareceu o paradoxo socrático “só sei que nada sei”, que sob a ótica do professor é visível na virtude da humildade tão decisiva no trabalho pedagógico. Um ser humilde é aquele ser que sabe que a educação lida com uma vida, que a vida é um processo e que o processo é uma mudança.

 

“Se eu sou bom, eu posso ser melhor”. Ouvi subitamente esta frase. Ser melhor, nesse contexto quer dizer ser melhor em atitude, nomeadamente no ato de educar. Assim nós devemos pensar e proceder: se eu ensino, eu tenho que fazer mais e melhor.

 

Como seu discípulo, o professor Mário Sérgio apresentou o currículo “mixuruca” de Paulo Freire: até 1997, ano em que faleceu, recebeu o título de Professor Doutor Honoris Causa em 36 universidades, dentre elas Harvard, Cambridge, Oxford, e outros 5 post-mortem, o que o faz figurar no topo da lista de brasileiros com maior número de títulos deste gênero. Em seguida estão o mineiro Darcy Ribeiro (fundador da Universidade de Brasília, do Parque do Xingú e da escola em tempo integral) e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

 

“Eu fracassei em tudo que tentei, mas os meus fracassos são as minhas vitórias. Eu não posso esconder que eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”. É um ensinamento de Darcy Ribeiro. Olha a virtude da humildade mais uma vez. Nesse momento, o professor Cortella nos atenta para esse detalhe.

 

Pois bem, Paulo Freire era humilde, jamais subserviente. Em sua bagagem de vida estão os 15 anos em que esteve no exílio, não podendo sair sequer para o sepultamento de sua mãe. Ele preferia ser chamado de Paulo a professor Paulo Freire, pois Paulo significa pequeno. Ele dizia ser um homem grande ao reconhecer que era pequeno, pequeno para crescer. “Como professores, nós temos que enxergar que a educação escolar é lugar de gente grande e que quer crescer”, disparou o palestrante.

 

Em meio a uma geração que olha para o relógio para ver quanto tempo resta e não que horas são, nós professores temos que atentar para a emergência de paradigmas que são diferentes como o escrever, mas de modo errado. O que antes era vossa mercê, há pouco tempo era você e hoje é “vc”. Humildade para entender, nesse caso, que não é somente o professor quem está correto e domina.

 

Atenção, atenção! Antigo é diferente de velho. Uma aula expositiva, a aula aristotélica, o pensamento de Comenius, a obra de Paulo Freire são sinais de que não é a tecnologia que moderniza uma mentalidade pedagógica. Está claro que as novas plataformas são distrativas, mas mais claro ainda está que a mais avançada tecnologia existente é o CÉREBRO HUMANO. Atenção, atenção! Antigo é diferente de velho.

 

Nós, enquanto docentes, temos que ter raízes. A raiz te alimenta, a âncora te imobiliza. Sejamos, pois, seres reconhecedores das nossas raízes e que as valorizam. Assim, nos aproximaremos mais da excelência. Excelência é quando eu faço, mas faço mais do que eu sou obrigado. A obrigação, portanto, deve ser o ponto de partida e não o de chegada. E para partirmos e chegarmos com excelência nós recusamos a mediocridade, que é a falta de capricho. O capricho é, nada mais nada menos que o ato de fazer o meu melhor na condição que eu tenho. Capricho é atitude, falta de capricho é hábito. “Reparem o quarar de uma roupa, daquela roupa que é velha, mas limpinha”, exemplifica o palestrante.

 

Quem não tem dúvida está mal informado e o jovem acredita em exemplos, pensemos nisso. Pensemos, também, que a paciência é algo decisivo na nossa vida e que ser paciente não é ser lerdo.

 

Eu senti um arrepio ao ouvir as seguintes palavras: diversidade de gerações é um patrimônio. Arrepiada eu fiquei pelo fato de reconhecer o valor disso faz muito tempo e valorizar o relacionamento intergeração. Eu, ainda com sede de aprender, não me contive e questionei o palestrante:

 

- Em sua intervenção foram apresentadas duas virtudes basilares necessárias para o professor desempenhar suas atividades docentes:

 

a) Humildade (para ouvir, pensar e refletir)

b) Audácia (para não ficar ultrapassado).

 

- Diante de múltiplos paradigmas eu exponho o meu questionamento: sob sua ótica, quais seriam as

outras virtudes mais que necessárias para o possível e o melhor exercício da docência?

 

O Prof. Cortella sabiamente responde:

- Nós, professores, devemos considerar o ensinamento de São Beda (O Venerável): não ensinar o que se sabe, não praticar o que se ensina e não perguntar o que se ignora são os três passos para o fracasso.

 

Em outras palavras o palestrante facilita:

 

- Ensinar o que se sabe (generosidade mental), praticar o que se ensina (coerência ética) e perguntar o que se ignora (humildade intelectual) são os três passos para o sucesso.

 

A aula finalizou com as seguintes palavras:

 

- Nós somos professores por uma razão: NÓS NÃO CABEMOS EM NÓS (e temos que transbordar).

- Nós não somos imortais, mas podemos ser eternos.

- Sejamos esperançosos, mas esperançosos do verbo esperançar.

 

Ainda reflexiva e ávida por leitura, Elizabeth Gondim (uma professora feliz).

 

* Elizabeth Gondim é doutora em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e docente do curso de Educação Física da Unifor.

 
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