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Colecionadora de Cotidianos

Com Beatriz Milhazes

 

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Consagrada como artista plástica, a carioca Beatriz Milhazes é conhecida por suas cores vibrantes, colagens caleidoscópicas, gravuras, pinturas e instalações. Com composições bem estruturadas e pontuadas por um conjunto repetitivo de motivos, ela traz para as artes plásticas um rico e complexo panorama de seu cotidiano, incluindo referências de formas naturais, da arte popular, do carnaval e de elementos decorativos do barroco brasileiro. Filha de um advogado e de uma professora de História da Arte, sempre esteve envolvida no universo artístico. Antes de decidir que seria, ela mesma, uma artista, graduou-se em jornalismo. Ao mesmo tempo, é formada em Artes Plásticas pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Sua primeira exposição individual aconteceu alguns anos após a graduação, na Galeria César Aché, no Rio, abrindo as portas para que seu nome chamasse a atenção de colecionadores, curadores e críticos brasileiros. O interesse internacional por sua obra aumentou progressivamente desde meados dos anos 90, ganhando destaque em mostras importantes mundo afora. Hoje, suas obras integram acervos de museus como o Museum of Modern Art (MoMa) e o Metropolitan Museum of Art (Met), em Nova York. Em cartaz até 28 de junho com a mostra Coleção de Motivos, no Espaço Cultural Unifor, Beatriz fala ao Unifor Notícias sobre o início da carreira e sua trajetória até alcançar, em 2012, o posto de artista brasileira viva com a obra mais cara vendida em um leilão. Naquele ano, a obra Meu Limão foi arrematada por US$ 2,1 milhões na Sotheby’s.

 

 

Unifor Notícias: Você é formada em Jornalismo, mas nunca exerceu a profissão. Como você se descobriu uma artista plástica e não uma comunicadora social?

Beatriz Milhazes: Eu nunca pensei em ser artista quando era jovem. Minha mãe era professora de História da Arte e meu pai era advogado. Cresci em um ambiente de cultura, de visitas a museus, cinemas, espetáculos e exposições de arte, além de ter acesso a muitos livros de História da Arte. Fora isso, nunca tive nada diferente. Quando fiz vestibular, entrei para o Jornalismo. No segundo ano da faculdade, percebi que não era o que queria. Eu tinha uma dificuldade de me ater a realidade. Eles me davam um fato para eu escrever uma matéria e o texto que eu criava não tinha nada ver com os fatos porque eu “viajava”. Isso começou a me frustrar e minha mãe sugeriu que eu fosse para a escola de artes do Parque Lage. Em 1980, fiz um curso de verão. Foi como se eu tivesse descoberto o meu mundo, o que eu queria fazer e eu não tive mais dúvida. Vi que, a partir daquele momento, tinha algo que realmente me interessou, me motivou e tudo foi organizado a partir disso. Nesse momento eu resolvi investigar, não achava que seria uma artista. O momento político e histórico dessa época é muito particular porque minha geração cresceu dentro da ditadura militar. Um estudante de arte nessa época não tinha nenhum vislumbre de pensar isso como uma profissão. Os professores viviam de forma muito precária, com dificuldade para pagar as contas. Não queríamos isso para nosso futuro e a ideia de ser profissional era um grande ponto de interrogação. Mas não tive dúvidas de que eu tentaria de alguma maneira fazer isso acontecer.

 

Unifor Notícias: Você fez parte da histórica exposição Como Vai Você, Geração 80?. O que esses jovens artistas tinham em comum?

Beatriz Milhazes: A geração anterior a nossa foi pega pelas questões políticas da ditadura e, basicamente, os artistas atuantes nessa época tiveram que ser políticos, que fazer uma arte conceitual política. Nesse período os artistas eram praticamente obrigados a fazer um tipo específico de arte. O grupo de professores que dava aula no Parque Lage no início dos anos 80 estava um pouco liberto dessa questão da obrigatoriedade do conceitual político e então simplesmente ensinavam as técnicas com discussão sobre arte, cultura. Finalmente um grupo de críticos descobriu que havia uma turma de jovens pintando e querendo fazer arte. Na verdade era quase um grito, um pedido de liberdade. As vezes acho que houve uma má compreensão com relação a essa questão política porque, na verdade, ser livre para fazermos o que realmente queríamos foi a grande questão.

 

Unifor Notícias: Por que essa exposição foi tão importante para as artes plásticas brasileiras?

Beatriz Milhazes: Os críticos descobriram que tinha um monte de jovens no Brasil inteiro querendo se expressar através da arte, mas sem a obrigatoriedade de fazer determinado tipo de arte. Então eles colocaram todo mundo junto nessa mostra, que ocorreu na época das Direta Já. Ela não tinha nenhuma possibilidade de ter uma linha de pensamento. Foi uma grande explosão mesmo, muito maior do que a expectativa dos envolvidos, principalmente nós. Eram multidões indo ao Parque Lage ver a mostra. Isso fez com que a nossa geração fosse empurrada para um tipo de visibilidade antes da hora, pois todos eram iniciantes. Ninguém estava com o discurso em arte desenvolvido, pensando no que seria o mercado. Era tudo muito novo. Depois avaliamos que os artistas que puderam usufruir dessa vantagem tiveram pontos positivos. Agora, que está sendo pensado os 30 anos da Geração 80, eu diria que é uma das gerações que mais deixou artistas para a história da arte brasileira.

 

Unifor Notícias: O seu estilo é muito peculiar. Você usa uma técnica, a monotipia. Quando começou a descobrir essa técnica e como surgiu o interesse por ela?

Beatriz Milhazes: Eu sempre tive interesse de mexer com coisas que vinham do meu ambiente no Rio de Janeiro. De observação, não é nem de participação. Por exemplo, eu sou uma carnavalesca conceitual, nunca fui carnavalesca de pular carnaval. Assim como a própria natureza, o verde, a exuberância, a arte decorativa, a arte primitiva, os artistas folclóricos e, junto a isso, a própria história da pintura, especialmente o movimento modernista, tanto brasileiro como o europeu. Esses elementos sempre me entusiasmavam, me estimulavam, me davam vontade de ser artista. Quando fui desenvolver a minha própria linguagem, queria usar esses elementos. A colagem sempre foi uma companheira para o meu desenvolvimento pictórico. Resolvi experimentar técnicas e descobri na monotipia. Nela, seja com plástico, seja com vidro, qualquer material que você usar como base, ela trabalha com tinta molhada, e tem que imprimir imediatamente. No meu caso, descobri que, depois de seca, ela poderia ser transferida para outra superfície e essa foi realmente a grande chave para que eu pudesse começar a fazer meus próprios desenhos, o que era fundamental naquele momento pra mim. Os meus próprios elementos, a minha própria cor, usar tinta, porque eu usava antes, mas vinha junto com a possibilidade da colagem e cortava a liberdade da própria pintura. Essa descoberta foi fundamental.

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Unifor Notícias: E o que é mais interessante nessa técnica?

Beatriz Milhazes: Com ela eu posso fazer os meus próprios desenhos, fazer imagens e pintar. Elas não têm traço, gesto do artista. Isso era o que me impedia de trabalhar direto na tela. A pincelada que se vê às vezes em minhas telas são filtradas pela própria textura da folha plástica, então tudo fica meio liso. A cor, como está sobre a folha plástica, o plástico não absorve tinta, ela guarda intensidade da cor. Todos esses detalhes metálicos, essa cor bem vibrante que você vê, ela é decorrência também dessa técnica, porque ela transforma. Não sendo absorvida ela fica integra. Se for uma cor do tubo, ela vai ser a cor do tubo, ou seja, tenho como isolar e ela não sofre alteração. Eu mantive a ideia, o conceito, o próprio processo de trabalhar com colagem, mas usando só tinta.

 

Unifor Notícias: E o processo da repetição? O colorido das telas teve alguma influência do pop?

Beatriz Milhazes: Meu trabalho se altera ao longo do tempo e meu processo no ateliê eu relaciono com o processo de um cientista. Nessa questão dos motivos, eu vou dar o exemplo do caju, que é um motivo recorrente. O caju foi um desenho que fiz que normalmente é vermelho dentro de um círculo verde. Todavez que eu adiciono um novo motivo ele cria um tipo de reação em cadeia e vai fazendo com que apareçam novas perspectivas, que vão fazendo com que alguns elementos comecem a desaparecer e outros chegar. Na questão das frutas, na própria evolução dos florais, eles vêm desde o crochê, dos buquês e vão chegar numa flor abstrata, e daqui seguir para outros elementos.

 

Unifor Notícias: Como suas obras saíram do Brasil e começaram a ganhar um impacto internacional?

Beatriz Milhazes: No início da década de 90 comecei a mostrar meu trabalho na América Latina e Marcantônio Vilaça abriu uma galeria em São Paulo e o objetivo dele, que era empresário e posteriormente colecionador de arte, era levar para o mundo a arte brasileira. E os artistas representados por ele entraram nessa aventura, que seria começar a participar das feiras internacionais. Eu fui um que, desde o início, suscitou interesse das galerias internacionais, e eu achei interessante. Iniciei pelos Estados Unidos. Nova York foi uma cidade que me recebeu imediatamente muito bem, tive críticas positivas e isso abriu as portas. Ao mesmo tempo que, até me considerar uma artista internacional, teve uma longa trajetória, porque o fato de você mostrar fora do seu país não quer dizer que você seja internacional. Eu diria que de 10 anos para cá é que me considero uma artista internacional, porque acho que já cumpri uma série de itens. De 20 anos mostrando minha arte pra fora, apenas em 10 pude realmente dizer que sou uma artista internacional. Na pintura eu devo ter trazido elementos que são novos, que introduzi dentro do pensamento da pintura abstrata, que chamaram a atenção. A partir daí eu pude crescer, receber apoios que foram fundamentais para continuar para continuar deslanchando e, finalmente, virar internacional.

 

Unifor Notícias: Viver de artes plásticas hoje ainda é soho para novos artistas?

Beatriz Milhazes: Melhorou, mas acho que tem dois lados. Você tem que arranjar uma maneira de sobreviver sem que você dependa da venda da obra. Porque a venda da obra, a entrada no mercado muito jovem não é muito aconselhável a não ser que você tenha uma visão muito boa e saiba exatamente o que está fazendo. É sempre importante que você ache dentro desse ambiente cultural algo que te dê condições além da venda da obra. O mercado de trabalho está melhorando e acredito que não vá andar para trás. A tendência é só crescer e está mais ampla, ou seja, não está mais concentrada no eixo Rio-São Paulo.

 

Unifor Notícias: O Espaço Cultural Unifor é o primeiro local a receber a mostra Coleção de Motivos. Como foi a concepção da exposição?

Beatriz Milhazes: A mostra foi desenvolvida a partir da questão dos motivos, porque nós tínhamos obras possíveis e tínhamos as obras que já estavam aqui em Fortaleza. Elas eram de épocas distintas. Essa mostra tem uma singularidade porque a curadora, Luiza Interlenghi, percebeu os motivos, viu que através desse fio condutor dos motivos, poderia unir e mostrar as colagens, serigrafias, gravuras e pinturas de épocas distintas. Algumas nunca foram mostradas no Brasil, outras foram, mas há muito tempo.

 

Unifor Notícias: O Espaço Cultural está localizado em uma Universidade e, além de disponibilizar o acesso aos nossos alunos, toda a população local também tem a chance de, gratuitamente, conhecer a obra de grandes artistas. Qual a relevância desse tipo de ação?

Beatriz Milhazes: Eu acho bastante especial isso que vocês têm aqui. É um estilo que você encontra facilmente nos países de primeiro mundo, uma universidade que tem uma instituição acoplada, onde você tem condições de possuir uma coleção de verdade e fazer um programa para mostras importantes. Eu já participei de mostras em universidades nos Estados Unidos, mas aqui no Brasil é a primeira vez que faço. É extremamente importante o trabalho que é feito aqui e é um exemplo, você não encontra por aí com facilidade.

 

SERVIÇO

Beatriz Milhazes – Coleção de Motivos
De 27 de fevereiro a 28 de junho, no Espaço Cultural Unifor.

 
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