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Artigo | Igualdade, diferenças e esperança

* Por Ricardo Sabóia

 

“Sei que não podemos viver apenas de esperança, mas sem ela, a vida não vale a pena”. O trecho compõe um discurso de 1977 proferido por Harvey Milk, personagem emblemático da sociedade norte-americana do final dos anos 1970. Eleito supervisor (cargo similar ao de vereador) na cidade de São Francisco (EUA), Milk foi um dos primeiros nomes abertamente gays a reivindicar o “assumir-se” como estratégia de reconhecimento pessoal e político.

 

A trajetória deste personagem foi retratada décadas depois no longa-metragem Harvey Milk – A voz da igualdade (2008), dirigido pelo cineasta Gus Van Sant e interpretado pelo ator Sean Penn. A atuação ao mesmo tempo sensível e firme de Penn foi premiada com o Oscar de Melhor Ator daquele ano. Na película, recriam-se as circunstâncias do assassinato de Milk por outro político, num cenário de forte oposição conservadora à ascensão dos homossexuais na vida pública.

 

O desfecho da vida de Harvey Milk, transcorridos quase 40 anos, serve de alerta para a atual realidade brasileira, num momento em que testemunhamos discursos crescentes de ódio e intolerância em reação às duras conquistas dos sujeitos LGBTs. Alerta também para a violência física e simbólica que gays, lésbicas, travestis e transexuais, sobretudo os mais pobres, enfrentam cotidianamente.

 

Mas se a força do discurso de Milk sobrevive aos anos que passam, acredito que é justamente por ser uma mensagem de esperança. Relembro sua história para destacar a importância do I Simpósio LGBT Unifor, realizado nos dias 15 e 16 de abril, promovido pelo DCE com apoio da Universidade e da UNE, que pude acompanhar informalmente como “ouvinte”.

 

Cidadania sexual, a questão de gênero nos espaços de educação, novas configurações parentais, uma política nacional de saúde voltada para as necessidades da população LGBT, o combate à trans, lesbo e homofobia foram algumas das temáticas debatidas nos auditórios da Biblioteca e teatro Celina Queiroz. Artistas locais lembraram que a arte é campo de lutas, dificuldades, transformações pessoais e coletivas. Não menos importante, o Seminário também foi marcado pela construção de um Movimento pela identidade, liberdade e cultura LGBT na Universidade (MILK), que vai buscar justamente no ativista norte-americano inspiração para se inventar.

 

Sabemos que as questões LGBT atravessam o  dia a dia de nossas salas, corredores e locais de convivência. Primeiro, por constituírem uma  agenda fundamental da sociedade brasileira, servindo inclusive de tema  para nossas discussões acadêmicas acerca da compreensão social do jogo  permanentemente disputado das identidades e das diferenças. Mas, igualmente, atravessam esses espaços por fazerem parte de nossas vivências,  afetos e relações de sociabilidade, em suas dimensões mais cotidianas.

 

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos nos lembra que “temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades”. É com esse espírito que aplaudo os esforços de alunos, professores, ativistas, sujeitos LGBTs ou não que, ao longo dos anos, contribuíram de algum modo com ações que culimaram na realização do I Simpósio LGBT da Unifor.

 

O fato de o Seminário ter ocorrido em nossos palcos de maior visibilidade sinaliza que a Unifor pode encarar diante de si os desafios que caracterizam todo ambiente universitário digno do nome: local de aprendizagem e de saberes, de respeito às múltiplas possibilidades de existir e de fazer “a vida valer a pena”. Para alguns, pode não parecer muito (“questão de minorias”, desdenhariam), mas é quando a Universidade tem a chance de reafirmar seus princípios fundamentais.

 

* Ricardo Sabóia é professor doutor dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Unifor.

 
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