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CRÔNICA | Insônia

*Por Diego Moreno

 

Não sei tocar harpa, mas estou aqui tocando. Não me pergunte o porquê de tanto caos em mim, mas dentro de minha alma há algo insondável. Eu mesmo me perco em meu próprio labirinto. Meu poético sentido rosna, rasga, devora flores guardadas nos jardins de meu coração. Instintos horríveis de ódio, orgulho, vingança, desejo e paixão dançam num ritmo frenético nos confins do meu EU. Tudo em mim é intenso demais para ser um simples lado. É mais que isso: é um infinígono. Um polígono infinito, eterno. Arestas moldadas, curvadas, deitadas, sofisticadas e maliciosas. Temo ser o mártir do século ou o destruidor do mundo. Há muito de mim em cada.

 

Sou construído de pilares tortos e fracos. Pilares que tremem, que temem cair e pôr abaixo o pouco que resta de mim. Sinto-me sozinho e perdido, caindo da cama acolchoada de sonhos, apoiando-me em um lençol de ilusões. Meu rosto é chama apagada, cinza esquecida na noite, que todos olham e passam por cima. Afinal, quem poderia fazer essa cinza voltar a ser árvore? E, se o fizessem, logo viraria papel para cumprir seu papel de árvore neste mundo artificial.

 

O reflexo da rua invade o resto de compreensão em mim. Pela janela, contemplo as palavras de meus pensamentos escoando pelas bicas das casas acompanhadas de minha esquecida alegria. Saio. Corro devagar, quase andando, para alcançar a sombra que dobra na esquina. Talvez ela beije meu espírito e leve uma nesga de mim. Talvez nem isso. Talvez ela fuja na velocidade-luz de uma sombra e deixe para trás um grande abraço e lembranças.

 

O invólucro violado de meus lábios ruge seus portões para chamar por alguém. Surdos, mudos, cegos devem ser os seres da noite. Ou surdo, mudo, cego sou eu por não perceber que estou só. Existem uns trocados no bolso. Se houvesse uma fonte mágica, lançaria as moedas fervorosamente e desejaria um sorriso flutuante ao lado de meu ombro. Mas os vinténs são para meus remédios: um para as dores incuráveis do peito e outro contra a insônia.

 

* Diego Moreno é escritor, publicitário e fotógrafo. Redator e revisor da Diretoria de Comunicação e Marketing da Universidade de Fortaleza.

 

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 243

 
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