Banner

Responsabilidade social: alunos da Unifor auxiliam na educação de pacientes renais

Através do projeto Educação e Saúde na Descoberta do Aprender, voluntários ajudam a suprir deficiências escolares causadas por horas de tratamento, levando cidadania a centenas de pessoas

UN241_projetorenal

“Em 2005 surgiram dores nela, e depois de algum tempo de investigação descobrimos um tumor na medula. Na primeira cirurgia para retirada ela ficou bem, na segunda, ficou paralítica. Seis meses após a paralisia, os rins pararam. Vai fazer quatro anos que a Lívia está em tratamento de hemodiálise e até hoje não frequenta a escola. O Educação e Saúde é um projeto que incentiva o paciente e eu sempre incentivo muito a participação dela. Ela gosta muito das meninas. As voluntárias tratam os pacientes muito bem. É um incentivo que ela leva para dentro de casa também”.
Fátima Maria Severiano, 59 anos, veio do Acre para realizar o tratamento da filha, Lívia Renata.

“O Projeto é legal. Aqui eu estudo todas as matérias, pinto, escrevo, desenho, jogo com as meninas (voluntárias). Gosto muito porque as meninas vêm brincar com a gente e nós nem sentimos o tempo passar. Ficamos esperando elas chegarem. Chego aqui bem cedinho, passo três horas por dia, três dias da semana. Meu irmão e minha mãe me acompanham nas sessões”.
Lívia Renata Lopes de Vasconcelos, 12 anos, teve um tumor na medula e foi diagnosticada com bexiga neurogênica. Faz hemodiálise três vezes por semana no Instituto do Rim.

Aos seis anos, Lívia Renata Lopes de Vasconcelos, 12, foi diagnosticada com um tumor na medula. Após duas cirurgias, ela desenvolveu uma insuficiência renal que a obrigou a fazer diálise três vezes por semana. Por conta do tratamento, a menina não frequenta a escola. Assim como Lívia, estima-se que 130 mil brasileiros estejam em tratamento de diálise. Muitos deixam de estudar ou trabalhar em virtude da gravidade de sua condição ou até mesmo por conta do tempo necessário para se dedicarem ao tratamento.

Dados obtidos junto à Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) apontam que, em todo o mundo, existem aproximadamente 500 milhões de pessoas diagnosticadas com problemas renais. Uma em cada dez pessoas sofre com doença renal crônica, que leva à perda progressiva e irreversível da função dos rins. Os dados apontam ainda que 1,5 milhões de pessoas estão em tratamento de diálise no mundo.

Criado em 2000, a partir de uma parceria entre a Fundação Edson Queiroz, o Instituto do Rim, o Instituto de Doenças Renais e o Centro Integrado de Diálise, o Projeto Educação e Saúde na Descoberta do Aprender tem como objetivo principal contribuir para a o resgate da cidadania de crianças, adolescentes e adultos em tratamento renal contínuo, levando educação para as próprias clínicas onde são tratados.

O projeto, realizado através da Divisão de Responsabilidade Social da Unifor, célula da vice-reitoria de Extensão e Comunidade Universitária, envolve 22 pessoas. Os voluntários, alunos da Unifor, dão aulas para os pacientes renais com o objetivo de suprir deficiências escolares causadas pelas horas em que os pacientes precisam estar em tratamento. Português, Matemática, Ciências, História e Geografia estão entre as matérias ensinadas. Alguns pacientes são até mesmo alfabetizados por meio do projeto. Mais de 400 pessoas já foram beneficiadas com o Educação e Saúde na Descoberta do Aprender.

Entre eles está Gladstone dos Santos Souza, 44, há cinco anos diagnosticado com insuficiência/ falência renal. Ele frequenta o Instituto do Rim quatro vezes por semana, há quase quatro anos e há um participa do Educação e Saúde. “Antes de aderir ao projeto, passava o maior tempo do tratamento dormindo. Agora já sei o horário que as voluntárias vêm e já fico esperando para realizar as atividades. Faz muito tempo que parei de estudar e agora relembro e aprendo coisas novas. Antes do projeto era mais difícil, o sofrimento se prolongava. Agora a hora passa mais rápido, pois temos tarefas para fazer”, diz.

Hemodiálise
A hemodiálise é um tratamento pelo qual os pacientes renais crônicos necessitam passar. O processo consiste na filtragem mecânica do sangue, retirando excesso de fluidos e toxinas. Quando os rins não conseguem fazer isso de maneira satisfatória, a máquina funciona como um rim artificial, retirando substâncias indesejáveis do sangue. O processo de filtragem é realizado de 3 a 4 vezes por semana em sessões que duram em média 4 horas.

“Os pacientes que vêm aqui não têm previsão de sair, somente com a possibilidade do transplante. Normalmente eles passam bem, contudo, o processo desgasta o organismo e eles perdem peso e líquidos. São causas e diagnósticos diferentes que levam à insuficiência renal. Geralmente, na criança é associada a algum problema congênito. Quando entrei aqui já havia o Projeto, os pacientes mais antigos contam que foi uma mudança fantástica na vida deles, pelo contato com as matérias, pela parte lúdica e pela socialização com os voluntários. Essas pessoas muitas vezes são simples e não tiveram nenhum tipo de oportunidade de estudo”, explica Renata Pereira, enfermeira-chefe do Instituto do Rim.

“O Projeto não se resume à alfabetização, mas à questão da humanização, do resgate da cidadania das pessoas que precisam estar aqui, do contato com o outro, que é tão importante para elas. Nós fazemos parte da família dos pacientes, que estão aqui muitas vezes na semana, por tantos anos. Criamos um vínculo muito grande e tentamos fazer com que eles sejam muito bem recebidos e que o tratamento seja o menos doloroso possível”, conta Sâmia Mitre, assistente social da Fundação do Rim. Ela acompanha o projeto desde que ele foi implantado na instituição. “O Educação e Saúde traz um momento de descontração e faz com que o tempo da diálise passe mais rápido e com mais qualidade. Os pacientes aguardam a chegada dos voluntários para ter essa troca de informação. Mesmo os pacientes que são formados querem participar do momento, pois as quatro horas que permanecem aqui são muito ociosas. Os voluntários trazem, além das atividades, a amizade, o carinho e o cuidado, e tudo isso é muito importante para os pacientes”.

Atualmente, 22 alunos da Unifor atuam como voluntários no projeto. Para a profa. Hermínia Lima, coordenadora do Educação e Saúde, o projeto constitui um excelente campo de prática e mais, leva a um enriquecimento pessoal advindo do contato constante com pacientes. “O Educação e Saúde é importante em vários aspectos. Ele é um campo de prática para os alunos da Universidade, e por ser uma atividade de extensão, ou seja, fora da sala de aula, enriquece profundamente os alunos. A maioria dos voluntários é do curso de Psicologia, e mesmo eles não realizando atendimentos psicológicos, têm uma maior preparação profissional através do contato com os pacientes. O trabalho social que a Universidade vem desenvolvendo através de seus projetos, não somente o Educação e Saúde. como todos os outros, mostra que a Unifor não está presa ao ambiente da Universidade. Ela busca o contato com a comunidade”.

Barbara Sales, aluna do 8º semestre de Psicologia e supervisora do projeto concorda. “Amadureci tanto pessoalmente quanto como aluna, pois cada paciente traz uma história de muitas dificuldades, sofrimento, tristezas, mas também de superação. É preciso estar preparado para acolhê-los, o que requer mudanças internas, como disposição para ouvir, aceitação do outro, empatia e atitude. Com o tempo, você vai conhecendo mais a si mesmo e isso, consequentemente, te faz crescer”.

Helena Jucá é gerente administrativa do Instituto do Rim e trabalha no local há 28 anos. Durante esse tempo, pôde observar uma considerável melhora na qualidade de vida dos pacientes com o advento do projeto. “Eles estão mais assíduos no tratamento. Mesmo os que moram no interior, dificilmente faltam. Também ocorrem menos intercorrências, tudo pela mudança de foco que o projeto proporciona. Eles não vêm apenas para cuidar da saúde, mas também para uma terapia ampla e de grupo. A frequência da clinica era feita através da digital e hoje todos os pacientes assinam seu nome. Aqui conseguimos dar mais sentido para a vida deles, pois o paciente vem cuidar da saúde e também vem estudar”.

“Percebemos mudanças consideráveis na postura dos pacientes. Autoestima, autonomia e confiança. Houve pessoas que aprenderam a ler e a escrever com a participação no projeto. Comemoramos cada conquista, como assinar o nome ou conseguir utilizar o computador ou celular sem a ajuda de outras pessoas. Vários se motivam a buscar mais conhecimento fora do projeto”, relata Barbara Sales.

Responsabilidade Social
Ciente de sua importância, a Universidade de Fortaleza busca, de forma ampla, desenvolver projetos de responsabilidade social que criem e fortaleçam as condições necessárias para manter aberto o diálogo da Universidade com o mundo, focando especialmente na superação das disparidades sociais e na expansão da cidadania. O Educação e Saúde na Descoberta do Aprender é mais um projeto que busca levar dignidade e empoderamento às pessoas que, por motivo de saúde, tiveram que abandonar escola, emprego e até mesmo suas casas.

“O Projeto Educação e Saúde na Descoberta do Aprender é um dos nossos projetos mais significativos. Grande parte das pessoas que precisam passar pela hemodiálise não tem condições de dar continuidade aos estudos devido ao desgaste causado pelo processo e pelo tempo que ele toma. São horas árduas e o projeto ajuda a amenizar a dor do paciente e ainda atiça a busca por mais conhecimento”, acredita o chefe da Divisão de Responsabilidade Social da Unifor, prof. Carlos Eufrásio.

“A Universidade tem, a cada ano, se estabelecido como uma instituição socialmente responsável através dos vários projetos que realiza. O papel da Divisão de Responsabilidade é incentivar que a Universidade, através de cada Centro, desenvolva mais projetos como esse”, finaliza Carlos Eufrásio.

Doença Renal Crônica
A doença renal crônica causa acúmulo de líquidos e resíduos no organismo, afetando assim, a maioria dos sistemas e funções do corpo. As causas mais comuns da insuficiência renal, apontados como maiores responsáveis pelos casos diagnosticados, são o diabetes e a hipertensão. Porém, outras doenças também podem prejudicar o funcionamento total ou parcial dos rins, dentre elas: problemas das artérias que chegam aos rins ou dentro deles; defeitos congênitos dos rins; alguns analgésicos e outros medicamentos; substâncias químicas tóxicas; doenças autoimunes; lesão ou trauma; cálculos renais e infecção; nefropatia de refluxo (fluxo retrógrado de urina para os rins). De acordo com informações da Fundação do Rim, instituição que presta assistência a pacientes renais no Brasil, e que tem ramificação no Estado do Ceará, local onde mais de 500 pessoas sofrem com algum tipo de doença renal, os principais sintomas da doença são fadiga, fraqueza, inchaço no rosto, nas pernas e abdome, urina com sangue, espuma ou escura, sede intensa, dificuldade para urinar e aumento no volume da urina, principalmente à noite. A Fundação promove ações para esclarecer a população sobre a doença, além de procurar garantir direitos sociais aos portadores.

DEPOIMENTOS

UN241_projetorenal2 UN241_projetorenal1

“O Educação e Saúde é um projeto de inclusão. Partindo da abordagem principal, que é alfabetizar, nós tentamos fazer com que as pessoas, os idosos, os adultos, os jovens e, principalmente as crianças, se socializem para que o momento passe mais rápido e eles não sintam tanta dor e, consequentemente, tenham uma melhora maior com o tratamento”.
Lívia Goes, aluna do 9º semestre de Psicologia da Unifor, trabalha há quase 2 anos como voluntária no Instituto do Rim.

“O projeto é muito legal. Nós nos lembramos de matérias que já vimos há muito tempo, resgatamos estudos que há muito tempo não líamos. As meninas são ótimas, ficamos ansiosos, esperando elas chegarem. A minha família toda sabe do projeto e todos admiram a iniciativa, pois a partir dele posso ocupar a minha mente durante o processo de hemodiálise”.
Francisco Chagas Barros, 60 anos, foi diagnosticado com um mieloma múltiplo há quase 8 anos, faz hemodiálise há 4.

 

 

SERVIÇO
Fundação do Rim
www.fundacaodorimce.org.br
Sociedade Brasileira de Nefrologia
www.sbn.org.br

 

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 241

 
Banner
Banner

Unifor Notícias | Portal Unifor | Fundação Edson Queiroz
Estude na Unifor | Central de Atendimento | Twitter
Fundação Edson Queiroz todos os direitos reservados