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A Era do Selfie

por W. Gabriel de Oliveira*

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Você já se perguntou por que os celulares trouxeram suas câmeras para frente? É fácil ouvir atualmente que celular bom é aquele que possui também uma câmera frontal. Essa seria apenas mais uma inovação tecnológica ou fruto do zeitgeist atual que paira no mundo? Estamos em um cenário tão peculiar da comunicação pessoal que talvez até o próprio mercado em geral, com sua comunicação corporativa, não esteja alinhado.

Este novo cenário traz as câmeras de frente para nossas diversas personalidades. Muitas vezes, tornamo-nos quase crianças que descobrem um novo mundo ao se olharem no espelho pela primeira vez. É raso nos limitarmos à discussão apenas sobre responsabilidade da autoimagem ou riscos da autoexibição. O que proponho é irmos mais fundo e refletirmos sobre o que motivou esse momento que chamo de Era do Selfie, para além da tecnologia e da fotografia.

Vimos um atual contexto em que o Eu parece voltar para o centro, com uma câmera frontal nas próprias mãos aprontada para si. Isso gera uma profusão de debates sobre riscos e vantagens, novos comportamentos e desconstruções e recuperações de antigos conceitos e adaptação de outros. Mas não é apenas o autorretrato que faz a Era do Selfie ser tão intrigante. Construir significantes de si mesmo não é novidade há milênios. A diferença é que, aliado à velocidade das novas tecnologias, à pulverização da comunicação contemporânea e ao cenário socioeconômico e político atual, a autoimagem pode trazer elementos “demasiado humanos”, mas invisíveis à pressa míope de se compreender o zeitgeist.

A visão clássica de que a internet inverte o processo de emissor e receptor de comunicação - tão bem falada por Levy, Castells e tantos outros pensadores - é cada vez mais percebida na prática, até através dos chamados prosumers. Porém vejo que o selfie não é só isso. É muito mais que inverter a ordem tradicional e linear do processo de comunicação. Vejo o selfie como uma prática de apoderamento do indivíduo sobre a comunicação de tal forma que torna o processo comunicacional transversal e pulverizado.

É curioso também perceber que esse indivíduo não necessariamente quer se tornar mass media mundial, ser capa do Youtube nacional ou sugestão de amigo no Facebook. Ao invés disso, muitas vezes quer algo mais simples, local, familiar, caseiro ou até mesmo para aquele grupo de somente 5 amigos em seu Whatsapp. Em ambientes mais restritos, quer se tornar um acontecimento pontual, mesmo que várias vezes por dia, dando espaço também para os demais de seus grupos. Assim, ele fecha mais um dia de vida online construída de inúmeros acontecimentos pontuais de todos para todos.

Enquanto as grandes empresas de tecnologia percebem a Era do Selfie como oportunidade e viram suas câmeras de frente, algumas outras do mercado em geral patinam nessa atualidade, atrasadas no “espelho, espelho meu”. Na Era do Selfie, a fala deve ser humanamente de quem faz, do consumidor cocriativo, do produtor que põe a mão na massa, do emissor no meio da torcida e até novamente do consumidor dizendo se gostou ou não - tudo não necessariamente nesta ordem.

Esse comportamento não significa, porém, que o cliente sempre tem razão. Ele tem sim, antes de tudo, voz. E essa voz não precisa somente ser ouvida, mas principalmente entendida. Tal compreensão também não pode existir somente porque o cliente possui um celular com câmera, alguns perfis em redes sociais e centenas de amigos online; mas sim pela razão de ele ser parte viva da própria empresa, seja como consumidor, cocriador, propagandista e até fiscal.

É também importante observar que esse Eu não deixa de consumir o mass media. Ele não substitui completamente o olimpiano; no máximo, ele muda de meio para continuar a admiração de seus ídolos. A diferença é que, mais do que nunca, o Eu agora escolhe quando ele vai cultuar seu olimpiano de estimação e quando ele vai querer, como diz Cris Dias do Brainstorm9, posicionar a câmera de seu celular novamente para o “Eu, eu, eu e meus ‘parça’ junto” pra colocar no Instagram.

* W. Gabriel de Oliveira é professor de Marketing da Unifor, orientador do CNPq e pesquisador na área de Marketing Digital. Mantém o blog wgabriel.net

 

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 241

 
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