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Torcida em Campo: Andar de Novo

por Sandra Helena de Souza*

Na noite dedicada ao Centro de Ciências da Saúde (CCS) na última edição do Mundo Unifor, em outubro de 2013, a Universidade de Fortaleza viveu um de seus momentos festivo-acadêmicos mais memoráveis: a praça da Biblioteca Central, defronte ao Centro de Convivência, totalmente ocupada por alunos de casa e de fora, professores e visitantes. Todos atentos, durante cerca de 1 hora e, ao final, levados, muitos, às lágrimas com a emoção explícita, em tom nacionalista, da palestra-show do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, sobre a pesquisa-experimento Walk Again (Projeto Andar de Novo).

Financiada pelo Governo Federal, em colaboração com pesquisadores de institutos americanos e europeus, cercado de polêmicas, em muito devido às convicções políticas do pesquisador brasileiro, o ousado empreendimento técnico-científico pretende devolver os movimentos a pessoas acometidas de paraplegia, através de comandos cerebrais diretamente enviados a um complexo mecanismo locomotor acoplado ao corpo lesionado, o ‘exoesqueleto’.

Indiscutivelmente e sem trocadilhos, levado a cabo e com êxito, o projeto representa um ‘salto’ gigantesco, divisor de águas para a medicina de reabilitação. Nicolelis prometia um quase milagre: depois de levantar de sua cadeira de rodas, um paraplégico caminharia vinte metros e daria o pontapé inicial no jogo de abertura da Copa do Mundo FIFA 2014. Impossível se manter impassível.

Não foi isso que se viu na tarde do já histórico 12 de junho de 2014 na Arena Corinthians. Num canto escondido do estádio, apoiado por dois assistentes e com um pesado equipamento, o paciente deu um pequeno chute na ‘Brazuca’ que foi levada ao campo, ainda durante a tímida cerimônia de abertura. O pouco tempo que a transmissão oficial dispensou ao evento, e o enorme bate-boca que a isso se seguiu entre governistas e oposição nas redes sociais e nos jornais, acabou por sufocar as perguntas realmente necessárias, do ponto de vista acadêmico-científico, quanto à validade, sucesso e prospecções do experimento.

A racionalidade da pesquisa científica conta com regras de jogo e arbitragem bem peculiares: firulas e barulho não adiantam nada. É preciso vir a público uma explicação cabal do que ocorreu ou deixou de ocorrer. Afinal, é preciso que Nicolelis diga em que pé está o ‘Andar de Novo’. Os estudantes que ele ‘seduziu’ merecem. A comunidade científica aguarda, espero, na torcida positiva.

* Sandra Helena de Souza é professora de Filosofia e Ética da Unifor



Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 239

 
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