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Alunos de Jornalismo debatem o machismo na música popular

A sétima edição do Observatório E Eu Com Isso? teve como tema “Questão de gosto se discute, sim!”. O evento foi realizado por alunos matriculados na disciplina de Ética, Cidadania e Jornalismo.

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Apesar do avanço em estudos sobre as relações de gênero, alguns setores da sociedade ainda se baseiam em argumentos de uma filosofia machista. Sabe-se que há muito tempo o meio da indústria cultural tem sido um privilégio dos homens e podemos observar uma musicologia calcada em metáforas de gênero que favoreceram a elaboração de valores que refletem predominantemente o ponto de vista masculino. A mulher, tema recorrente da música popular brasileira, ao longo do tempo vem tomando um papel diferente nas letras de quem a canta. Se antes tínhamos como referência “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim, hoje, as protagonistas aparecem dançando “na boquinha da garrafa”, sorrindo ao som de músicas como “Taca Cachaça que Ela Libera”.

Estudos recentes sobre estupro mostraram uma pesquisa que gerou polêmica. O Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, afirmou que 26% dos homens acreditam que as mulheres são responsáveis pelo abuso que sofrem. Outro item da pesquisa que também provocou reação do público foi que 58% dos entrevistados concordam com a frase “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. Logo que a pesquisa foi divulgada, a jornalista Nana Queiroz publicou uma foto com a frase “Não mereço ser estuprada”, que ganhou amplo apoio nas redes sociais. As conclusões gerais da pesquisa e sua repercussão na mídia geraram intensas discussões em torno do machismo e como ele afeta comportamentos.

Sendo a Universidade um espaço de discussão de temas relevantes para a sociedade, a professora da disciplina Ética, Cidadania e Jornalismo, Sandra Helena de Souza, propôs como tema para a edição do Observatório E Eu Com Isso?, atividade regular da disciplina, as recentes pesquisas divulgadas sobre a tolerância social à violência contra as mulheres junto à cultura do machismo retratada nas letras de músicas. Promovido pelos alunos de Jornalismo da Universidade de Fortaleza, o evento teve como tema “Questão de gosto se discute, sim!” e aconteceu no Teatro Celina Queiroz. Na mesa debatedora estiveram a professora do curso de Jornalismo da Unifor, Kalu Chaves, a blogueira e ativista feminista Jarid Arraes, a cantora Taty Girl e o empresário, vocalista do grupo Forró Sacode e compositor, Tony Guerra.

O Debate
Os alunos da Unifor participaram em peso. Num teatro lotado, a discussão foi intensa. De acordo com a doutora em Comunicação e Semiótica Kalu Chaves, em muitas músicas do forró contemporâneo há trechos que denigrem a imagem da mulher. “A música é um conjunto de signos, ela tem o poder de expressar algo que muitas vezes não condiz com a verdade. Como partilhamos um ritmo sem o viés crítico? Porque estamos em escola e universidades? As músicas difundidas pelo forró eletrônico ludibriam e postergam e nos tornam vítimas da nossa torpeza humana”, apontou a professora.

A ativista feminista Jarid Arrais levantou a necessidade de rever as letras que agridem a integridade feminina. “Essa música, ‘Taca Cachaça que Ela Libera’, é uma apologia ao estupro. Um crime hediondo”, exclamou. “Acho horroroso o pensamento de que a mulher tem que se valorizar porque se parte do pressuposto que a mulher não tem valor. A mulher tem valor e ela faz e usa o que bem quiser. A responsabilidade é de todos”. Quanto à questão da necessidade mercadológica das composições, ela concluiu afirmando que “o dinheiro não deve estar acima da dignidade da mulher, que é a dignidade humana”, acredita Jarid.

Segundo a cantora Taty Girl, o forró atualmente fala sobre dinheiro, bebida, mulher e carrões graças a uma imposição midiática. “A mídia impõe isso para a sociedade e os compositores criam músicas relacionadas para ‘estourar’. Eu prefiro cantar letras que falam de amor, como é o caso dos sucessos ‘Rubi’ e ‘Mel’. Se um empresário disser que você tem que cantar, você canta. Ele paga você para isso. E se você não quiser ouvir, ‘taca’ o dedo no ouvido e pronto”, enfatizou.

O cantor e compositor Tony Guerra teve um papel fundamental no seminário. Durante a discussão, ele apontou que também canta músicas que falam de amor. “Eu compus músicas que fizeram muito sucesso e que não ofenderam as mulheres, como ‘Obsessão’ e ‘Não Desliga o Telefone’, mas o povo escolhe a música que quer ouvir. É o público que, muitas vezes, prefere os hits de ostentação e submissão feminina. Eu não concordo com a difamação das mulheres, mas músicas de duplo sentido existem há muitos anos. O forró vem evoluindo pela proporção do público. A história da apelação é nacional”, afirmou.

Repercussão
Após ser questionado sobre se o forró poderia voltar a ser romântico como antigamente, com letras que não agredissem a imagem da mulher, Tony prometeu ao público repensar as suas composições. “O Observatório me fez perceber o quanto a música pode ser prejudicial às mulheres. A partir de hoje, vou tirar a música ‘Taca Cachaça que Ela Libera’ dos meus shows e procurar ter mais atenção com o repertório”, prometeu.

Para Alysson Braga, aluno do sétimo semestre do curso de Jornalismo, foi um prazer participar do evento. “Sempre ouvi comentários, na verdade críticas, a músicas de forró. As letras cantam uma mulher sempre bêbada, com atitudes vazias e vulgares. Nunca gostei de letras assim. Porém, nunca discuti esse tema levando em conta quem vive e faz do forró o seu ganha pão. Com o evento, fui presenteado com uma visão mais humana desse meio, que apesar de não mudar minha forma de pensar sobre o assunto, me levou à reflexão do meu conteúdo crítico, e a saber que esse tema quando discutido com qualidade pode gerar excelentes mudanças, em nós e no meio. Foi um prazer e uma alegria enorme fazer parte da equipe de produção do debate”.

De acordo com a professora Sandra Helena de Souza, essa edição do evento teve um caráter diferenciado, pois cumpriu o papel de fazer refletir e alcançar mudanças com a reflexão. “Depois de sete edições, o evento começa a cumprir o seu papel de transformar. O debate aconteceu de modo aberto e fez com que todos pensassem sobre a nova estética da música que segmenta de maneira negativa a mulher. O lado feminista da mesa se mostrou aberto para ouvir e entender o outro. Pudemos testemunhar uma tomada de consciência publicamente por meio das declarações do cantor Tony Guerra. A afirmação dele foi comovente, pois tivemos a certeza de que o debate foi produtivo academicamente e modificou a compreensão de uma pessoa à frente do mainstream. A nossa raiz não deixa de estar presente no forró, logo, seria bom sabê-lo sendo produzido em grande escala com uma relação mais crítica e contaminando menos o espírito da juventude. O evento cumpriu o que o título prometeu: questão de gosto se discute, sim!”.

Sobre o Observatório E Eu com Isso?
De acordo com a profa. Sandra Helena, o Observatório é uma atividade pedagógica da disciplina Ética, Cidadania e Jornalismo e consiste na elaboração de pesquisa sobre um tema polêmico do debate público nacional. “Os temas que costumamos não debater muito na academia, mas que ocupam a esfera pública, que gere polêmica e que divida posições. A atividade tem várias dinâmicas, como elaboração da pesquisa, vídeorreportagem, divulgação e logística de produção e envolve todos os alunos da disciplina”.


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 239

 
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