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Pesquisadores da Unifor produzem primeiro clone caprino transgênico da América Latina

un237_18O projeto, iniciado em 2011, foi realizado por pesquisadores da Universidade de Fortaleza e tem como objetivo produzir no leite do caprino uma proteína capaz de tratar a doença de Gaucher.

O Laboratório de Biologia Molecular e do Desenvolvimento da Universidade de Fortaleza desenvolveu o primeiro clone transgênico de cabras da América Latina e dos trópicos. Com esse passo, o Brasil junta-se a um seleto grupo de 4 países que já criaram clones transgênicos de caprinos. São eles: Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia e China. A Unifor celebrou o nascimento do clone caprino no dia 27 de março. Ele deverá produzir leite que contém a proteína glucocerebrosidase humana, capaz de tratar a doença de Gaucher.

O nascimento de Gluca, como foi chamada a cabrinha, coroa a pesquisa intitulada “Biofármacos transgênicos: produção de Glucocerebrosidase (GBA) em leite de caprinos no Nordeste Brasileiro (colaboração Nordeste-Sul)”. Iniciado em 2011 e realizado por pesquisadores da Universidade de Fortaleza, o estudo tem a colaboração da empresa Quatro G Ltda., instalada no Parque Tecnológico (TECNOPUC-RS) da PUC-RS. O projeto conta com recursos de Subvenção Econômica da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do Ministério da Ciência e Tecnologia (Finep/MCT) e foi contratado em maio de 2010, juntamente com a Quatro G Pesquisa e Desenvolvimento Ltda., e a Esperança Agropecuária Ltda., do Grupo Edson Queiroz. Conta ainda com a participação de alunos de pós-graduação do programa de doutorado da Rede Nordeste de Biotecnologia (Renorbio), e de alunos de iniciação científica dos cursos de Farmácia, Fisioterapia e Medicina da Unifor.

De acordo com Marcelo Bertolini, professor da Renorbio e um dos coordenadores do projeto, o caprino tem o propósito de produzir um biofármaco, ou seja, um medicamento obtido a partir de uma fonte ou processo biológico. “Nós usamos a glândula mamária como meio para a produção da proteína glucocerebrosidase humana. Essa proteína, uma vez na glândula mamária, será purificada do leite do animal, chamado de biorreator. Ele será um modelo para ter a expressão da proteína, que pode ser produzida em qualquer secreção, mas nesse caso, utilizamos a glândula mamária como alvo”, explica.

De acordo com a diretora de desenvolvimento da Quatro G Ltda. e uma das coordenadoras do projeto, Profa. Jocelei Maria Chies, o estudo possui quatro fases, nomeadas pelos pesquisadores de fases A, B, C e D. “A primeira fase é a construção do gene humano para a expressão na glândula mamária. Essa fase foi realizada na Quatro G Ltda. A fase B foi a de inserção do gene humano em células de caprino, de produção de embriões clones caprinos com o gene humano e a transferência dos embriões, que foi produzida na Unifor, em colaboração com a Esperança Agropecuária Ltda. A fase C foi a de monitoramento das prenhezes e do parto, e compreenderá ainda a indução da lactação para a produção de leite com a proteína humana, também realizada na Unifor. A fase final D, será de purificação da proteína humana do leite caprino e testes biológicos, que ocorrerá na Quatro G”, explica a professora.

Para o professor Marcelo, o pioneirismo e os benefícios do estudo para sociedade são amplos. “Esse é o primeiro clone de caprino transgênico da América Latina e dos trópicos. Isso é um marco para Unifor e para o Brasil. Já havíamos produzido um clone caprino em 2012 (não transgênico), primeiro do Brasil, mas este animal agora tem como propósito extrair a proteína glucocerebrosidase humana, uma enzima que processa um lipídio no organismo e que pode ser utilizada no tratamento de pessoas que apresentam uma doença genética chamada doença de Gaucher. Para essa proteína, nós utilizaremos a glândula mamária do caprino como meio de produção pelo leite. Uma vez identificada a proteína no leite, esta será retirada e passará por um processo de purificação para a remoção da glucocerebrosidase”, explica Marcelo.

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Segundo Bertolini, a produção do biofarmaco é de grande importância para o Brasil, já que o país é dependente de proteínas recombinantes no tratamento de qualquer doença, sendo a glucocerebrosidase humana uma das mais caras. ”O fato é que nós somos dependentes de proteínas como essa, chamadas de proteínas recombinantes, no tratamento de qualquer doença. Em 2012 o Brasil gastou R$180 milhões para tratar pouco mais de 600 pessoas, usando proteínas importadas como medicamento. O que acontece é que a pessoa que tem essa doença deve, a cada duas semanas, receber uma injeção dessa enzima como terapia de reposição enzimática, é um tratamento para a vida. O Ministério da Saúde tem como obrigação, por lei, tratar doenças caras e raras. E esta é uma das doenças de tratamento mais caro do país, que custa mais de R$ 200 mil reais por ano, por paciente e nós ainda somos completamente dependentes de companhias estrangeiras”, comenta.

Para o aluno do doutorado em Biotecnologia do programa Renorbio na Unifor, Leonardo Tondello Martins, o nascimento da cabra Gluca representa o final de uma etapa e o início de outra. “Nosso objetivo agora é induzir a lactação precocemente na Gluca para estudarmos o leite e saber se ela vai expressar a glocucerebrosidase humana e em que concentração”, enfatiza. Após o nascimento do animal é necessário esperar de 3 a 4 meses de idade para que se possa induzir hormonalmente a lactação. A partir daí, o leite será testado para a presença da proteína. Uma vez sendo positiva, a proteína poderá ser testada in vitro.

Segundo a Profa. Luciana Bertolini, também da Renorbio e que também coordena o projeto, é possível ter uma ideia de quando o medicamento pode chegar ao mercado. “A gente pode se basear em experiências anteriores. Para uma droga nova chegar ao mercado o tempo médio é de 10 anos. Isso inclui a fase de purificação, testes pré-clínicos e testes clínicos. Nós demos o primeiro passo, mas ainda temos um longo caminho pela frente”, comenta.

“O desenvolvimento de leite caprino contendo uma proteína útil ao tratamento da doença de Gaucher, uma doença rara e de difícil tratamento, demonstra que a Universidade de Fortaleza está desenvolvendo pesquisas de ponta que podem impactar positivamente a sociedade”, acredita a vice-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da Unifor, profa. Lilia Sales.

Para a reitora da Unifor, profa. Fátima Veras, “o nascimento do primeiro clone caprino transgênico da América Latina constitui mais um marco para a Universidade de Fortaleza que pensa à frente do seu tempo, ao buscar inovações e investir em projetos que contribuem com melhorias científicas e sociais. Este caprino materializa o esforço de uma equipe de cientistas e coroa mais um empreendimento bem sucedido, ao trazer para a ciência um resultado diferenciado e para a sociedade novas possibilidades para o enfrentamento da doença Gaucher.”


DEPOIMENTOS

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“É um marco porque trata-se do primeiro clone transgênico da América Latina e de toda a região intertropical do mundo. Outro detalhe importante é que essa proteína é bastante cara e estamos criando a possibilidade de produzir a glucocerebrosidade humana através de uma tecnologia desenvolvida nacionalmente. Recebemos todo apoio da Unifor tanto para a construção do Laboratório de Biologia Molecular e do Desenvolvimento (LBMD) quanto para a criação da unidade animal. Parte disso veio de financiamentos de projetos como Finep, Funcap e CNPq, mas boa parte veio através da Fundação Edson Queiroz, com o apoio do chanceler Airton Queiroz”.

Leonardo Tondello Martins, aluno do doutorado em Biotecnologia do programa Renorbio na Unifor.

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“O nascimento desse clone transgênico de caprino é um marco para a biotecnologia inclusive porque ele abre precedentes para que outros genes de interesse sejam clonados e expressos em leite de cabra por esta tecnologia no país”.

Jocelei Maria Chies, diretora de desenvolvimento da empresa Quatro G Ltda. (PUC-RS) e uma das coordenadoras do projeto.



SAIBA MAIS | Entenda a doença de Gaucher
Doença genética relacionada com o metabolismo dos lipídios, a doença de Gaucher é uma doença genética causada pela deficiência de uma enzima que tem a função de fazer a digestão do lipídio dentro da célula.

Descrita em 1882 por Philippe Ernest Gaucher, os sintomas da doença são diversos e variam de acordo com cada paciente. A principal característica da doença é o aumento dos órgãos como fígado e baço, ocasionando um grande inchaço na região. Também pode ocorrer a diminuição de plaquetas e doenças ósseas. O erro do matabolismo é considerado uma doença hereditária, ou seja, só pode ser transmitida de pai para filho.

De acordo com o professor Marcelo Bertolini, “estima-se que existam até 2 mil indivíduos no Brasil com essa doença, mas a maioria não diagnosticada. O propósito é que o biofármaco que criaremos com o projeto possa ser utilizado como tratamento de pessoas que apresentam a doença genética na qual essa enzima é defeituosa. Inclusive, na cidade de Tabuleiro do Norte, interior do Ceará, existe uma alta incidência dessa doença”, enfatiza o professor.

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 237

 
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