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Unifor é destaque no Brasil em pesquisa sobre melioidose

un237_22A Universidade de Fortaleza realiza em conjunto com a Secretaria de Saúde do Estado (Sesa) uma das únicas pesquisas do Brasil sobre a doença, que é emergente no país. Um laboratório com alto nível de biossegurança está sendo estruturando na Universidade para intensificar os estudos.

Em fevereiro de 2003, quatro crianças da zona rural do município de Tejuçuoca, no interior do Ceará, apresentaram sintomas de uma infecção aguda grave. Três delas evoluíram rapidamente para óbito, enquanto a quarta continuava a ser medicada. Enquanto isso, extensas investigações clínica, epidemiológica e laboratorial buscavam compreender o que de fato havia acometido os irmãos. Cerca de uma semana após as notificações, os cientistas chegaram, finalmente, ao diagnóstico da misteriosa doença: tratava-se da melioidose.

O diagnóstico causou espanto na comunidade científica. Causada pela bactéria Burkholderia pseudomallei, a doença é comum em locais de clima tropical e subtropical, como Tailândia e parte norte da Austrália, mas nunca havia sido registrada no Brasil até os casos de Tejuçuoca. Já sabendo, enfim, o que atingiu os irmãos, a quarta criança pôde receber o tratamento específico para a doença e foi salva. Desde então, novos casos de melioidose vêm sendo identificados em diferentes regiões do país. Somente no Ceará, ao longo de 11 anos, foram apontados 21 em 14 municípios de diferentes regiões. Publicações recentes mostram que o Brasil já é considerado área definitiva de ocorrência da patologia.

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Logo após as primeiras notificações da doença, pesquisadores de Fortaleza iniciaram estudos voltados para melhor compreendê-la, desenvolvendo um protocolo de vigilância epidemiológica. Com o aumento de casos, houve também a necessidade de buscar meios de levar a melioidose ao conhecimento da sociedade médica, pois só diagnóstico e tratamento precoces podem salvar indivíduos acometidos.

Iniciados por Dionne Rolim (foto), médica infectologista, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas e do Curso de Medicina da Universidade de Fortaleza, cujas pesquisas de mestrado e doutorado tiveram como tema a melioidose, os estudos sobre a doença ganham corpo no estado e estão entre os únicos do Brasil. Desde o ano de 2003, ela, juntamente com a Dra. Dina Cortez, da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará (Sesa) e o Dr.Anastácio Queiroz, médico infectologista e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), buscam entender o comportamento da doença no Ceará com o objetivo de reduzir sua letalidade.

Segundo a profa. Dionne, a pesquisa compreende aspectos epidemiológicos, clínicos, laboratoriais e ambientais. “A primeira etapa foi a investigação do surto, suas características epidemiológicas e o quadro clínico. A partir daí, começamos a nos aprofundar sobre a doença e a questionar se a bactéria estava presente aqui. O trabalho foi feito em Tejuçuoca inicialmente, depois ampliamos para Banabuiú e consistiu em pesquisa ambiental e sorológica. Nesta etapa, durante meu doutorado, contamos também com o apoio dos professores Júlio Sidrim e Jorge Luis Nobre, da UFC”, explana.

“Um ponto importante a ser destacado foi que, em 2005, devido ao estudo realizado em 2003, conseguimos, junto à Secretaria de Saúde do Estado, uma portaria que tornou a doença de notificação compulsória. Isso é necessário porque o Ministério da Saúde determina que algumas doenças sejam notificadas rapidamente para que as medidas de alerta e prevenção sejam tomadas oportunamente”, afirma a professora.

Entre os principais objetivos dos pesquisadores estão conhecer aspectos clínicos e epidemiológicos da doença, identificar condições e ambientes de risco e conhecer características específicas do agente etiológico da doença. Todas essas informações sãoimportantes para as ações de vigilância epidemiológica que têm como finalidade detectar os casos e surtos e iniciar a assistência adequada para reduzir a morbidade e letalidade da doença. Propor e implantar medidas de prevenção e controle também estão na pauta.

Para a profa. Dionne, a pesquisa é importante desde o momento em que se percebe que a doença existe. “Os médicos devem estar atentos para a possibilidade de ocorrência da melioidose. Não se detecta a doença se não se pensar nela. Em infecções comunitárias, sobretudo as graves e com história de exposição ambiental, a melioidose deve fazer parte do diagnóstico diferencial no Ceará, no Nordeste e em outras regiões do país. Temos uma letalidade extremamente elevada, com muitos casos sendo diagnosticados somente após o óbito. É extremamente importante reduzir a letalidade e morbidade da doença, pois ela tem cura desde que o reconhecimento e tratamento sejam precoces e adequados. Por esse motivo é tão importante divulgá-la, pois ainda é desconhecida ou pouco conhecida em nosso estado e país. Mesmo com o trabalho de implantação da vigilância epidemiológica da melioidose, a detecção está sendo feita somente pelos profissionais que já a conhecem. Precisamos aumentar a sensibilização dos profissionais de saúde”, enfatiza a doutora.

Dados da Sesa apontam que os municípios cearenses que apresentaram a doença foram: Tejuçuoca, em 2003 (4 casos); Banabuiú, em 2004 (1 caso); Aracoiaba, em 2005 (1 caso); Ipu e Granja, em 2008 (1 caso em cada cidade); Itapajé, em 2009 (1 caso); Pacoti, Ocara e Ipu, em 2010 (1 caso em cada cidade); Caridade, São João do Jaguaribe, Tabuleiro do Norte, Ipu e Santana do Acaraú, em 2011 (1 caso em cadacidade); Tauá e São Gonçalo do Amarante, em 2012 (1 caso em cada cidade); Fortaleza, em 2013 (1 caso); e Fortaleza, em 2014 (1 caso), totalizando 21 casos no período de 11 anos.

Segundo a profa. Dionne Rolim, “diagnosticar a melioidose não é simples, pois ela não tem nenhum sintoma ou sinal patognomônico, ou seja, um quadro característico da doença que facilite a suspeita clínica. Ela se apresenta das mais diversas formas, podendo se caracterizar, por exemplo, por um quadro agudo de pneumonia e sepse, que pode evoluir rapidamente para o óbito, pneumonia que não responde aos antibióticos convencionais ou quadro de infecção pulmonar crônica, mais arrastada que simula tuberculose. Infecção em órgãos internos como o fígado, baço, sistema nervoso central, entre outros, geralmente com formação de abscessos ou ainda infecção óssea, cutânea e de tecidos moles”.


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INCENTIVO
Para impulsionar a pesquisa, a Unifor vem desenvolvendo projetos desde 2009 em parceria com a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) e a Sesa, através do Programa de Pesquisa para SUS (PPSUS). Além do desenvolvimento dos estudos, a Universidade, hoje destaque no Brasil em pesquisa sobre a melioidose, está estruturando um novo laboratório com nível
de biossegurança 3, adequado para os estudos com a bactéria Burkholderia pseudomallei que causa a melioidose e que exige elevado grau de contenção. “Esse tipo de laboratório poderá no futuro envolver pesquisas relacionadas a outros microrganismos de importância médica e que precisam deste tipo de estrutura para se trabalhar, uma vez que no Brasil são poucos os laboratórios de biossegurança 3 existentes”, afirma Ana Karoline Costa, professora do curso de Medicina da Unifor e colaboradora do Grupo de Pesquisa em Melioidose da Unifor, o GEM.

Para compor o quadro de cientistas, a Unifor também incentiva a participação de alunos para acompanhar as descobertas e contribuir com pesquisa. “Reabrimos o GEM, que já existia aqui no curso de Medicina. A primeira turma que se graduou já contava com participantes do grupo. Realizamos uma seleção no início do semestre 2014.1 e dez alunos, entre os semestres 3 e 7, passaram a compor o grupo. Para os estudantes é uma grande oportunidade estarem inseridos num grupo de pesquisa. Cada vez mais a Unifor incentiva os trabalhos científicos, o que estimula os alunos a ter senso crítico e buscar metodologias que auxiliem as práticas médicas. Como consequência, tornam-se sujeitos ativos do próprio desenvolvimento e enriquecem o currículo, explica a Profa. Ana Karoline.

Um novo curso de Pós-Graduação será iniciado no segundo semestre deste ano na Unifor, o mestrado em Ciências Médicas, e a doença fará parte de uma das linhas de pesquisas. De acordo com a profa. Dionne Rolim, “a Unifor tem exercido papel importante. Já tivemos dois projetos aprovados. Um para o período de 2009 a 2011. Outro, recentemente aprovado, de 2014 a 2016. Ambos são do Programa de Pesquisa para SUS (PPSUS), da Funcap, em colaboração com a Sesa e CNPQ. O primeiro projeto teve enfoque na implantação da vigilância epidemiológica no Ceará, na pesquisa ambiental e iniciou estruturação de laboratório de biologia molecular na Unifor. O segundo dá continuidade à pesquisa ambiental da bactéria da melioidose nas diversas regiões do Ceará, estudos laboratoriais e apoio para instalação do NBIII (laboratório de biossegurança 3) na Unifor. Queremos que a doença se torne conhecida e a pesquisa possa contribuir para reduzir a letalidade da doença no Ceará e no Brasil”.

“A Unifor está estruturando laboratório de nível de biossegurança 3, que atenderá às normas nacionais e internacionais de segurança no manejo de patógenos infecciosos com elevado risco infeccioso, como é o caso da Burkholderia pseudomallei, a bactéria que é o agente etiológico da melioidose. A construção desse laboratório irá aumentar a capacidade de pesquisa sobre melioidose e outras doenças infeciosas no Ceará e ampliará a participação de alunos da graduação em atividade de pesquisa, que é fundamental em sua formação, uma vez que a pesquisa constitui importante ferramenta de apoio técnico e metodológico ao desenvolvimento de sua mentalidade científica e crítica. Ressalto também a importância do desenvolvimento de pesquisa aplicada que favorece o entendimento da responsabilidade social do aluno”, expõe a coordenadora do curso de Medicina da Unifor, profa.Verônica Freire.

“A importância do laboratório NBIII na Unifor se dá pela capacidade de desenvolvimento de pesquisas que contribuirão para seu conhecimento da melioidose no Brasil e consequentemente favorecerá sua detecção, controle e prevenção. Ressalte-se também a participação de alunos de graduação e pós-graduação em atividades de pesquisa que é uma atividade básica na formação profissional”, comentou o diretor do Centro de Ciências da Saúde (CCS), da Unifor, prof. Flávio Ibiapina.


DEPOIMENTOS
un237_25“A expectativa em estar no Grupo de Pesquisa em Melioidose (GEM) da Unifor é fazer parte de um estudo raro no Brasil e no Ceará. Penso que podemos trazer melhorias, que ainda são poucas, já que a melioidose é pouco estudada. Estou confiante de que iremos descobrir soluções interessantes. O curso de Medicina da Unifor vai me ajudar bastante no processo, pois será mais fácil diagnosticar e conduzir, graças à base que o curso proporciona aos alunos ao longo dos semestres. Acredito que o grupo será benéfico, porque teremos conhecimento profundo em mais uma área da medicina”.
Fernando Matos, aluno do 7º semestre do curso de Medicina da Unifor e bolsista do Grupo de Pesquisa em Melioidose (GEM)


un237_26“Fui bolsista do GEM por mais de dois anos, período de aprendizado importante, que serviu para enriquecer o meu currículo, visto que fizemos e apresentamos trabalhos em congressos, tivemos bolsas de iniciação científica voluntária e remunerada, além de aprendemos bastante sobre essa doença emergente. O que eu mais gostava era da busca de casos suspeitos nos hospitais: revisão de prontuários, entrevistas com pacientes e familiares, discussão dos casos com os médicos assistentes. São atividades que ajudam a construir uma formação sólida. Atualmente, estou cursando residência médica em Infectologia no Hospital São José de Doenças Infecciosas e a experiência no grupo me ajudou a decidir por esse caminho, já que eu, na época, acompanhava os casos suspeitos desse hospital. Foi muito importante vivenciar essa experiência ainda na graduação. Agradeço à Profa. Dionne pelas orientações, pelo aprendizado e por ter me inspirado a seguir o caminho das doenças infecciosas e à Unifor pela estrutura e por ter possibilitado a realização de nossas atividades”.
Matheus Mota, ex-aluno do curso de Medicina da Unifor e médico residente do Hospital São José.


Entenda a melioidose
A melioidose é uma doença infecciosa causada pela bactéria Burkholderia pseudomallei, que pode ser encontrada no solo ou na água, onde homens e animais são infectados através do contato com o ambiente. Pessoas que possuem imunidade baixa, alcoolistas ou doenças crônicas como diabetes estão mais dispostas a desenvolvê-la. Um estudo australiano mostrou que o período de incubação varia de 2 a 21 dias, com média de 9 dias. A doença tem um espectro de apresentação clínica muito amplo e se assemelha a outras doenças infecciosas.

Segundo a Profa. Dionne Rolim, “a letalidade da doença é muito elevada nas formas graves e pode variar entre 20 até mais de 80% dependendo de diversos fatores, sobretudo da estrutura de saúde de cada região ou país onde ocorre a melioidose. Por apresentar amplo quadro clínico, pode simular qualquer infecção, o que dificulta a detecção”.

Pacientes com história epidemiológica de exposição a solo e água, que apresentem infecções comunitárias graves como pneumonia ou sepse, infecções crônicas pulmonares semelhantes a tuberculose, abscessos em órgãos internos ou infecções cutâneas de evolução prolongada e que não apresentam resposta ao tratamento convencional podem ser suspeitos. “Quando se trata de quadro agudo, geralmente a exposição foi recente. A pessoa também pode ter se infectado no passado, apresentar infecção assintomática que pode permanecer latente por muitos anos e somente manifestar quando apresenta queda da imunidade. O diagnóstico se dá principalmente por cultura microbiológica, de sangue ou de qualquer outro espécime clínico e só pode ser confirmado se a bactéria for identificada”, salienta a médica.

Vale lembrar que a doença tem cura. O tratamento é feito com antibióticos específicos por tempo prolongado. Em casos mais graves, a recomendação é internamento em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para suporte adequado. A doença apresenta risco de recidiva de 23% em pacientes com doença preexistente, mesmo após tratamento adequado. Tratamento prolongado por vários meses com antibiótico oral pode ser necessário em casos graves para reduzir riscos de recidiva.

Para evitar o contato com a bactéria, algumas medidas de proteção e controle são recomendadas pelos pesquisadores, como tratamento de água para consumo humano, medidas de proteção para trabalhadores expostos ao solo e água (botas e luvas), evitar exposição nas primeiras semanas após as chuvas, evitar exposição de ferimentos ao solo e águas de enchentes.


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 237

 
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