Banner

Ex-aluno da Unifor: um comediante pai d’égua!

un236-49com Edmilson Filho


Edmilson Filho é multifacetado. Ator “porreta”, comediante de cinema e teatro “de primeira” e, para completar a lista da “autoridade”, foi atleta profissional, tricampeão brasileiro de Taekwondo. Já conquistou muitos prêmios na modalidade, então “ai” daquele que “botar boneco” com ele. Reside há mais de 13 anos nos Estados Unidos, onde foi ensinar a arte marcial. Casou-se com uma “gringa” que conheceu na academia e é pai de duas meninas. Mesmo não sendo mais atleta e com o talento de ator e comediante reconhecido em todo o país, o “cabra” continua praticando Taekwondo quando está nos palcos, utilizando alguns dos movimentos em suas expressões corporais. Em fevereiro, conquistou o Prêmio Quem na categoria Melhor Ator de Cinema graças à aplaudida interpretação do personagem Francisgleydison, da produção cearense Cine Holliúdy. Dirigido por Halder Gomes, o filme, todo falado em “cearencês”, fez história ao bater recordes de bilheteria. Comparado com o mestre Charles Chaplin pelo diretor de Cidade de Deus, Fernando Meireles, Edmilson colhe os frutos de muito trabalho e determinação e se encarrega de espalhar o humor típico cearense por todo Brasil. Ex-aluno da Unifor, esteve na Universidade para dar as boas-vindas aos calouros. Pouco antes de subir ao palco, concedeu ao Unifor Notícias uma entrevista exclusiva.

Unifor Notícias: Como foi o início da sua trajetória como ator? O que te despertou para o teatro e em especial a comédia?
Edmilson Filho: Comecei fazendo humor na escola. Houve uma gincana e a minha equipe tinha que trazer um humorista cearense, mas nós procuramos e não encontramos nenhum disponível. Então, revendo as regras da gincana atentamos para o fato de que bastava ser um humorista cearense, não importando ser conhecido ou desconhecido. Foi aí que pensei: “rapaz, então eu vou!”. Eu e um amigo fizemos um número de comédia e foi a primeira vez que apareci em público querendo ser reconhecido como comediante. Depois entramos em um festival de humor no Teatro Bar Chico Anísio. Fomos reprovados, mas não desistimos. Nos inscrevemos no festival de humor do Shopping Aldeota, meio sem saber o que estávamos fazendo, mas ganhamos o festival, e foi onde tudo começou.

Unifor Notícias: Você foi atleta profissional de Taekwondo, ganhou diversos prêmios e até integrou a seleção brasileira. Como foi conciliar duas coisas aparentemente tão distantes?
Edmilson Filho: Sempre tive bom humor, mas a partir do momento que decidi me dedicar à vida de atleta me desliguei totalmente da vida artística. Parei de fazer comédia e me dediquei cem por cento a ser atleta e participar de olimpíadas. Mas a vida de atleta tem um período, porque depois dos 30 anos o corpo já não vai ser mais como quando você era jovem. Eu sabia que quando chegasse o momento de finalizar a carreira de atleta voltaria a atuar, porque na comédia e no teatro posso ter 60, 70 anos. Foi uma escolha, eu sabia que isso ia retornar. A carreira de atleta foi um momento que vivi, foi importante, mas agora estou na segunda fase da minha vida.

Unifor Notícias: Foi durante sua época de atleta que resolveu ir para os Estados Unidos?
Edmilson Filho: Eu fui por conta das artes marciais, por conta do Taekwondo. Depois das olimpíadas de Sidney, recebi um convite para passar um ano lá e participar de várias competições. Foi então que eu me casei e estou lá até hoje.

Unifor Notícias: Você alcançou sucesso com o Cine Holliúdy. Como foi o início da parceria com o diretor, Halder Gomes?
Edmilson Filho: Nos conhecemos na academia, o Halder foi meu professor quando eu comecei a treinar Taekwondo. Nós dividimos muita coisa além das artes marciais e o cinema é uma delas. Quando ele “enveredou” para esse negócio de dirigir filmes, eu já tinha veia cômica. Ele sabia da minha participação em festivais de humor e me convidou para fazer a comédia. Quando escreveu o personagem Francisgleydisson, ele o fez para mim. Por isso a cena de luta que tem no filme, porque ele já escreveu pensando nas minha qualidades físicas e de expressão corporal para fazer aquilo. Temos uma amizade de muito tempo.

Unifor Notícias: O filme conta a história da luta de Francisgleydisson para manter viva a paixão das pessoas pela sétima arte, em meio à década de 70, quando a televisão começava a se tornar popular. O filme foi também uma espécie de manifesto pelo acesso ao cinema, especialmente nas pequenas cidades?
Edmilson Filho: A gente poderia também ter cinema nos interiores, mas na verdade a gente não tem. Só temos no Ceará todo cinco cidades que exibem filmes, porque todos as salas de cinema estão concentradas dentro dos grandes shoppings. Não se vê mais cinema de rua, pouquíssimos ainda existem. Hoje, a rede de shoppings tomou esse espaço, até pela questão da criminalidade. As pessoas não querem estacionar seus carros na rua, preferem ir ao shopping porque é mais seguro, lá já come, faz compras e vai assistir a um filme. A tendência é estar dentro dos shoppings, diferente da Europa, que tem, em cada cidade, um cine clube, como se fosse uma livraria, uma biblioteca, com as sessões de cinema. Aqui no Brasil, se o governo quisesse, esse quadro seria reversível, mas acho que vai ser uma luta grande para conseguir.

Unifor Notícias: Cine Holliúdy foi feito com um orçamento baixo para os padrões cinematográficos e, no entanto, foi um estrondoso sucesso de bilheteria. O que tornou o filme tão grandioso?
Edmilson Filho: O principal para que um filme de baixo orçamento tenha sucesso é apresentar ao público um bom roteiro. Quando se tem um bom roteiro e a história é bem contada, o povo gosta. Essa é a questão número um. A questão número dois foi o povo do Ceará se ver na tela. A partir do momento que ele se vê na tela, ele sai falando. Então o boca a boca foi o que gerou mais público. Porque se no primeiro final de semana o público não tivesse gostado, sairia falando mal e no final de semana seguinte ninguém iria. No terceiro final de semana, ele já sairia de cartaz. Porque o cinema é assim. Se nos primeiros finais de semana não tiver público, o exibidor tira o teu filme e coloca outro. É fato. Então o sucesso veio por conta de o filme ser bom. O povo o abraçou porque se viu na tela, pela verdade que conta e daí gerou o boca a boca.

Unifor Notícias: Você fazia ideia que o filme fosse se tornar sucesso em todas as partes do Brasil, mesmo falando de um público específico e numa linguagem tão peculiar? Como foi a recepção fora do Estado?
Edmilson Filho: Nos outros Estados, principalmente no Rio e São Paulo, o filme conquistou um público “cult”. Pessoas de classe A e B se interessaram mais, porque lá não tínhamos a força que tivemos aqui de jogar uma mídia tão grande, por causa do custo. Mas para o público A e B foi muito bem recebido. Na verdade sabíamos que tínhamos uma coisa muito boa na mão, estávamos só esperando a hora certa de lançar. Sabíamos que uma coisa boa viria disso, mas não sabíamos a “granditude” dela. Sabíamos que seria um negócio que ia fazer muito sucesso. E o prêmio de ontem (Quem) foi um reconhecimento a mais. Não deles, mas do povo, porque foi o povo que votou e colocou a gente lá.

Unifor Notícias: Qual foi a intenção de vocês na construção dos personagens, tão “cearenses”? Até que ponto o Ceará moleque é um estereótipo? Ele é importante para o humor produzido aqui?
Edmilson Filho: Um estereótipo é um tipo escrachado, algo que toma formas exageradas, então o Ceará moleque não é um estereótipo, porque os personagens são tipos que existem. Esse Ceará moleque é a gente, encontramos o bebinho lá do interior, que é naturalmente exagerado, encontramos um cara que se mete na conversa, em qualquer banco que você senta, eles se metem. Então não são estereótipos, são tipos, tipos que existem dentro do Ceará e do Nordeste. As pessoas aprovaram o filme ou porque se identificaram com os tipos ou porque conheciam alguém que é daquele jeito ou porque o avó contou uma história parecida. Por isso
o filme conquista todos os públicos. Tem menino de cinco anos de idade que chega para mim e fala: “vou dar uma voadora na pleura”, como também tem senhor de 80 anos, que há 30 não ia ao cinema e que a neta levou e ele também adorou. Ou seja, o filme consegue se comunicar com todas as gerações. Porque os tipos que estão lá existem, estão por aí.

Unifor Notícias: Você considera que os nordestinos ainda sofrem preconceito nos grandes centros? Como o filme dialoga com isso?
Edmilson Filho: Pessoalmente nunca senti o preconceito, porque eu chego do jeito que eu sou. Como é que o cara vai tirar onda comigo, se eu já sou desse jeito? Eu falo assim porque eu quero. Se eu me colocar atrás da cortina, talvez sinta esse preconceito. Eu sei que ele existe, mas eu nunca senti. O que eu sinto pelo filme é um reconhecimento maior, o reconhecimento de que a gente não é pior nem é melhor do que o pessoal do sul, do Rio, de São Paulo, do Rio Grande do Sul. A gente é diferente.Temos uma coisa única que queremos e podemos mostrar através do cinema.

Unifor Notícias: De onde surgiu a ideia para o espetáculo Made in Ceará?
Edmilson Filho: O espetáculo era uma coisa que eu já tinha há muito tempo, mas estava esperando esse momento do filme, do sucesso do filme, para poder lançar para um público que já iria querer me ver por conta do sucesso do filme. Eu poderia ter lançado o Made in Ceará há dois anos, mas quem era Edmilson Filho? Esperei o sucesso do filme para poder entrar com a peça. O espetáculo foi construído a partir de observações minhas do cearense, do brasileiro e do modo de vida do americano, que é completamente diferente em tudo. Aí eu trago isso de uma forma bem cômica, bem divertida, do dia-a-dia não só meu, mas de outras pessoas. Uso muita expressão corporal, muita dança, inclusive as artes marciais. Isso foi importante porque consigo me comunicar por meio das expressões corporais com público do mundo todo, sem ter que verbalizar na língua deles. Consigo mostrar visualmente e fazer a graça visualmente sem usar a fala, como fez o Charles Chaplin e outros grandes atores.

Unifor Notícias: Considera que a história do longa possa servir de inspiração para pequenos produtores de cinema? Como umas formação universitária pode contribuir para aumentar a produção audiovisual no Estado?
Edmilson Filho: Para quem viu o filme e pretende seguir a carreira de cinema, ele serve de motivação. Você ter um projeto, um roteiro bom, ter o pé no chão, saber o que você tem e aonde você quer ir. Não adianta só querer “meter as caras” e no meio do filme se deparar com a frustração de não poder terminá-lo. Espero que o filme motive as pessoas a fazer histórias porque o humor nosso do Ceará está solto por aí. Ninguém pegou antes porque não quis. O que a gente trouxe agora, com essa forma verbalizada de humor, sem ser humor muito escrachado, foi colocá-lo em uma forma cinematográfica, colocá-lo no cinema. O principal é ter uma ideia boa e contar com profissionais que saibam o que estão fazendo. O Cine Holliúdy não deixa nada a desejar, em se tratando de acabamento. É maravilhoso também ter uma universidade que vai dar esse apoio, com bons professores, equipamentos para instigar e ajudar os alunos a trazer essas histórias.

 

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 236

 

 

 
Banner
Banner

Unifor Notícias | Portal Unifor | Fundação Edson Queiroz
Estude na Unifor | Central de Atendimento | Twitter
Fundação Edson Queiroz todos os direitos reservados