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“Temos a oportunidade de fazer um mundo melhor para viver, trabalhar, criar nossas famílias”

235_un17com Antonio Carlos Dias

Brasileiro, filho de portugueses, o diretor de Smarter Cities da IBM Brasil, Antonio Carlos Dias é o responsável por oferecer propostas e soluções tecnológicas para ajudar a solucionar problemas críticos das cidades, como trânsito, segurança, educação, com o objetivo de construir cidades mais inteligentes. Graduado em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pós-graduado em Gestão Empresarial pela Escola de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), está na IBM desde 1987. Em 2011 e 2012, tirou um período sabático da empresa para se aprofundar em estudos de interesse pessoal. Trabalhou na Prefeitura do Rio de Janeiro na área de desenvolvimento econômico e atração de investimentos. A experiência permitiu que o executivo enxergasse os desafios de uma cidade em transformação e passou a pensar o desenvolvimento aliado à sustentabilidade. Em 2013, retornou para a IBM, onde vem transformando o aprendizado em algo real. Convidado do Centro de Ciências Tecnológicas, Dias recebeu a equipe do Unifor Notícias pouco antes de subir ao palco do Mundo Unifor. Em entrevista, falou sobre os desafios da construção de uma cidade inteligente traduzida em qualidade de vida para seus moradores.

Como a IBM começou a pensar em tecnologias focadas especificamente nas cidades?
Alguns anos atrás, a IBM começou um programa chamado Planeta Mais Inteligente. A primeira coisa que a gente notou é que havia a oportunidade específica com a cidade. Apesar de pensar o planeta, a nação, com o passar do tempo percebemos que o tijolo de formação e sustentação da sociedade é a cidade. O ambiente urbano onde você interage, onde meus filhos vão à escola, onde pago impostos e quero que os serviços sejam prestados para minha qualidade de vida. Por outro lado, a experiência foi de que existe muita oportunidade de melhoria. A partir daí a IBM começou a trabalhar tecnologias aplicadas a essas cidades para transformar o modo como operam. Desde a área de transporte, que é quase uma unanimidade em qualquer lugar do planeta, passando por saúde, engenharia de trafego, educação.

Como funciona o Centro de Operações de Cidades Inteligentes da IBM? Como surgiu a ideia de implementá-lo?
O Centro de Operações surgiu da necessidade das cidades de coordenar seus diversos órgãos de gestão. Um caso conhecido é o Centro de Operações do Rio de Janeiro. Existem outros no mundo. No caso do Rio, a iniciativa partiu da prefeitura. A partir de um requerimento, de um problema concreto, nós da IBM chegamos à conclusão de que a forma mais inteligente e eficiente para tratar do problema era a criação de um centro de operações. Para exemplificar, vamos pensar em um problema do cidadão: um buraco na rua. Dependendo de onde ele está, se no meio de uma faixa viária de alta velocidade, é preciso acionar, antes do pessoal do asfalto, o pessoal da engenharia de tráfego para desviar o tráfego. Muitas vezes, desviar no local gera engarrafamento, então é preciso desviar de quatro a seis quadras antes para garantir que haja uma saída. Só depois disso é que o pessoal do asfaltamento pode vir. Se o buraco é causado pelo estouro de uma tubulação, é preciso envolver um terceiro órgão, seja a companhia de água, de gás, enfim. Esse processo horizontal, entre agências, é que não tinha na cidade. Então houve uma necessidade de coordenação entre todas as agências. Esse tipo de coordenação acabou gerando o centro integrado de controle urbano da cidade. No caso do Rio, a concepção partiu da necessidade de uma reação rápida a eventos climáticos de grande porte. Uma chuva torrencial que causa um deslizamento é uma coisa que precisa de uma resposta coordenada de várias agências, e isso um centro faz de uma maneira muito melhor do que depender de cada agência para conduzir. O centro é um orquestrador.

Qual o conceito de cidade inteligente ou cidade cognitiva? Como ela vai funcionar? Existe algum exemplo real?
O conceito de cidade inteligente é aquela cidade que consegue, com a quantidade limitada de recursos que tem, aplicar de forma melhor esses recursos, de maneira inteligente, racionalizar esses recursos, fazer diferente para conseguir um melhor resultado para o cidadão. Pode ser um resultado econômico, de qualidade de lazer. Não há resposta certa ou errada, cada cidade é diferente da outra. A cidade cognitiva é um conceito seguinte a esse, que é o de que a cidade aprende com suas ações, se mede, se entende e se adapta. Ela lembra do seu passado, das ações que foram tomadas e sabe, a partir delas, qual a melhor decisão para o futuro. A IBM tem investido muito em tecnologias preditivas. Muitas vezes você informar para o usuário, o cidadão, que ele está no meio do engarrafamento não adianta nada. Então você começa a gerar modelos preditivos, baseados em estatística e no seu passado, e projeta como você vai se comportar no próximo minuto, na próxima hora, no próximo dia. É para isso que a tecnologia está aí, para que você possa dizer que tem 90% de chance de que a cidade se comporte assim nas próximas três horas. A partir daí, você toma uma decisão para evitar ou acelerar se for alguma coisa boa. Este é o desafio: aplicar de forma diferente a tecnologia.

As tecnologias necessárias para a efetiva transformação das cidades em cidades inteligentes já existem?
Existem muitas tecnologias prontas, disponíveis, em uso no mercado, que precisam ser aplicadas em projetos de qualidade. É óbvio que sempre vão se criar novas tecnologias e novas ideias, mas as necessárias já existem sim. Estou convencido de que já há tecnologia suficiente para grandes projetos. O que falta são bons projetos e saber como aplicar a tecnologia. Acredito que temos a oportunidade de fazer um mundo melhor, a nível local, para viver, trabalhar, criar nossas famílias.

O Global Liveability Ranking, da publicação britânica The Economist, elegeu, este ano, as cidades de Melbourne (Austrália), Viena (Áustria) e Vancouver (Canadá) como as melhores cidades para se viver no mundo. O que estas cidades têm que outras não têm?
Acho que devemos tratar cada uma das dimensões utilizadas para medir a “habitabilidade” e entender por que outras cidades não conseguiram chegar ao patamar do ranking. Deve ser difícil fazer uma comparação, mas eu acho importante levar em conta a dimensão local. O que é bom para Viena não necessariamente é o melhor para Fortaleza, por exemplo. O que se chama de qualidade de vida pode ter um significado novo para cada cidade, para cada população. Na minha função, já me deparei com cidades em que um dos direcionadores era não passar de um milhão de habitantes, pois os gestores entendiam que era um vetor que garantia a qualidade de vida. Se a gente pensar dessa forma, tem tantas coisas que precisam ser feitas que o maior desafio do gestor é, com a quantidade de recursos que ele tem, que não são os mesmos que Viena ou Melbourne têm, saber onde dar prioridade e como fazer com que aquele investimento traga maior qualidade de vida para seu cidadão. Como fazer uma mudança de paradigma. Esse é o grande desafio.

Mesmo estas cidades conhecidas pelo alto padrão e qualidade de vida, que conseguem gerar um sentimento de satisfação em seus moradores, ainda precisam evoluir?
Com certeza! O alvo é móvel, você tem sempre alguma coisa a mais a fazer. A população destas cidades, mesmo Melbourne ou Viena, que devem ter perfis populacionais distintos, possui anseios certamente diferentes. Com certeza, sim, mesmo estas cidades precisam evoluir.

Os gestores das cidades brasileiras estão atentos para a importância da aplicação de novas tecnologias para o benefício dos cidadãos?
O Brasil está produzindo uma nova onda de gestores mais focados nesse papel. Não só o Brasil, mas o mundo. A tecnologia está evoluindo igual. Claro, haverá gestores que vão se adaptar mais e outros nem tanto, mas sou um otimista. Muitas vezes o gestor não tem uma visão do potencial do que a tecnologia pode lhe dar, mas quando ele vê aquilo, até porque a maioria já passou por problemas que não sabia como resolver, compra a ideia e executa.

Como podemos equilibrar a evolução das cidades com a preservação do meio ambiente? A cidade do futuro prevê essa integração?
Eu não consigo desassociar uma cidade inteligente de uma ligação inteligente com o meio ambiente. Até porque a cidade mais inteligente é a cidade que melhor aplica o recurso em prol do cidadão, e o meio ambiente está dentro disso. Cidades mais inteligentes serão aquelas que consomem menos energia para cada elemento tarefa. Tanto do ponto de vista do uso de tecnologias mais eficientes quanto da capacidade de se comunicar e ter mais dados, principalmente a partir da sensorização da internet. E existe a capacidade de aplicar na cidade, no perímetro urbano, nos prédios, fornecendo informação para as concessionarias de distribuição, tendo um balanceamento maior da infraestrutura. Conservação é parte desse esforço de cidade mais inteligente. A cidade que não perceber isso está perdendo uma grande oportunidade.

Como o Sr. vê a iniciativa da Unifor de trazer profissionais renomados, em diversas áreas do conhecimento, para essa troca com os alunos?
Vejo o Mundo Unifor como uma excelente forma de diálogo, de transferência de conhecimento. Assim como eu vim falar, ouvi muitas ideias que vou levar comigo. Acima de tudo, é uma forma muito interessante de oxigenar e abrir a mente sobre o que está acontecendo no mundo e quais tendências estão sendo discutidas em outros lugares.


235_un16DEPOIMENTO
“O Antonio Carlos Dias veio pelo conhecimento que tem sobre soluções para cidades, como viabilizar cidades mais inteligentes e trabalhar a complexidade de serviços e funções que uma cidade tem na atualidade. Sem dúvida a palestra foi bastante proveitosa para os alunos, pois o conteúdo trabalhado é transversal e o tema muito atual. Nós estamos em uma cidade que está passando por uma série de problemas devido ao crescimento acelerado que sobrecarrega os serviços, e a única maneira de gerenciá-la melhor é apostar em smart cities, que nos inspiram a fazer uma gestão na medida em que as coisas vão acontecendo. Para isso é preciso um suporte tecnológico muito avançado que possibilite à cidade uma atitude mais ativa aos eventos que ocorrem. Por ser necessário esse arcabouço tecnológico, a palestra foi de interesse especial para os cursos do CCT, pois envolve mecanismos de sensores, da área de controle e automação, passa pela informática, pela engenharia da computação, pela arquitetura na parte de planejamento urbano, engenharia civil de maneira geral, pelos edifícios novos e pela dinâmica da cidade. Enfim, engloba toda a tecnologia que permite uma vivência melhor nas cidades.” - Prof. Jackson Sávio, diretor do CCT

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 235

 
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