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“Você não pode fazer um futuro melhor até que você possa imaginá-lo melhor”

235_un19com Mark Stevenson

Autor, empresário, músico, comediante, futurologista. O britânico Mark Stevenson é um só e, ao mesmo tempo, mil. Um desses raros visionários que fascinam o público quando começam a falar. Constantemente convidado para ministrar palestras devido a sua capacidade de tornar simples e compreensíveis conceitos complexos e abstratos, viaja o mundo divulgando as ideais de seu livro mais famoso, An Optimist’s Tour of the Future*, que prevê que invenções, inovações e um pensamento racional ajudarão a humanidade a superar antigos problemas na construção de um futuro ideal para todos. Para ele, um futuro de plenitude está a nossa espera, mas depende, única e exclusivamente, das escolhas que fazemos hoje. Em entrevista exclusiva ao Unifor Notícias, realizada no dia de sua palestra no Mundo Unifor, o convidado do Centro de Ciências da Comunicação e Gestão falou sobre otimismo, novas tecnologias e os desafios da humanidade na construção de um mundo melhor.

O que inspirou você a escrever seu livro mais famoso, An Optimist’s Tour of the Future*?
Escrevi porque existem muitos livros sobre ciência e tecnologia escritos por geeks e para geeks. Pensei que toda a tecnologia disponível hoje e o que está acontecendo com o clima, a genética, a robótica são coisas importantes para todos. Então, quis escrever um livro sobre ciência e tecnologia que fosse lido pela minha mãe, por exemplo, mas ainda assim não trivial. A ideia era levar esses conceitos para uma audiência maior.

Que razões concretas você tem para crer que o futuro será melhor que hoje?
Eu não acredito que será. Eu acredito que pode ser. Eu não sou realmente um otimista. Eu me considero um “possibilista”.

Então o título do livro está errado?
Está levemente errado (risos). Na verdade, meu agente me disse que seria uma coisa legal de se colocar no título (risos). Mas o que esse título faz é sugerir que podem existir melhores desdobramentos para o futuro. O problema da história de futuro que nós normalmente repetimos é que ele vai ser uma droga. Sempre. Para a imprensa, a política, o futuro será terrível. E isso é realmente possível. Existem muitas razões para crer que o futuro será ruim. Mas também existem muitas coisas boas acontecendo e, se você não reparar nessas coisas, você sempre terminará pensando o pior. É como ir para uma entrevista de emprego já achando que você não vai ser contratado. Acaba que não será mesmo. Então, se nós formos em direção ao futuro pensando que ele vai ser ruim, estamos mais propensos a ter mesmo um futuro ruim. Muito do meu trabalho é colocar as opções positivas de volta à mesa de possibilidades. Não estou dizendo que vamos ter somente coisas boas, mas, se você não levar tudo de positivo que está acontecendo em consideração, certamente não vamos ter um futuro positivo.

E o que chamou sua atenção para esse tema em específico?
Eu sempre fui um grande fã de ciência e tecnologia. Como humanos, somos todos loucos, insanos. Então, por exemplo, muitas pessoas pedem para que eu condene a religião, por causa da minha ligação com a ciência, e eu digo: “Olha, todos nós acreditamos em alguma coisa, qualquer coisa, que não pode ser provada. Se você quer achar alguém louco, olhe no espelho”. É por isso que acho que o método científico e o pensamento crítico são tão importantes, porque assim posso garantir que, à parte da loucura inerente a todos, inclusive a mim, o que sai da minha cabeça e respinga para as páginas do meu livro pode ser, de alguma maneira, próximo da verdade. Eu queria colocar ciência, pensamento racional e otimismo de volta ao centro da cultura, pois acho que, se tivermos uma cultura mais otimista, que se utiliza do pensamento crítico, aceitando, claro, todas as nossas loucuras, nós teremos um futuro melhor.

Por que, apesar de toda a tecnologia disponível para nós hoje, você acha que ainda precisamos lidar com problemas como fome, pobreza? O que nós efetivamente podemos fazer para fazer do mundo um lugar melhor para todos?
Essa pergunta é brilhante! E é de fato a pergunta que eu pretendo responder no meu próximo livro. Você está certíssima. Nós temos hoje disponíveis todas as tecnologias e a inteligência que precisamos para resolver todos esses problemas, mas por algum motivo nós não resolvemos. Por quê? Eu acho que a razão é porque muitas das nossas instituições, governos, escolas, todos nós ainda pensamos como na era meramente industrial. E a era meramente industrial não foi feita para resolver esses problemas. Hoje vivemos em cadeia, numa era conectada, e nós precisamos de instituições, maneiras de pensar e governos muito mais conectados. É nosso grande desafio, aliar o técnico ao social. Temos as técnicas, mas ainda não conseguimos aliar ao social. Mas aos poucos estamos fazendo, as novas gerações estão fazendo.

No seu blog você falou sobre a questão da fome, do desperdício. Hoje temos comida para alimentar a todos, mas isso não acontece, por quê?
A imprensa sempre está alardeando que em breve teremos 9 bilhões de pessoas no mundo e não haverá espaço ou comida para todos. Mas o que não dizem é que o crescimento populacional vai provavelmente estancar perto dos 9 bilhões ou 9,5 bilhões de pessoas. É preciso parar para pensar sobre a quantidade de comida que produzimos hoje, e mesmo assim uma em cada oito pessoas passa fome no mundo. Nós desperdiçamos metade da comida produzida. Se não desperdiçássemos tanto, teríamos o suficiente para acabar com a fome e ainda sobrar.

E por que esse desperdício todo ainda acontece?
Existem dois motivos: a perda de alimentos e o desperdício de alimentos. O desperdício é quando compramos algo no supermercado, deixamos na geladeira, esquecemos e depois jogamos fora. Ou até mesmo deixamos algo no prato. Isso é responsável por cerca de metade da perda de comida do mundo. Uma saída para isso é tomar mais cuidado, não comprar tanta comida. Já a perda acontece quando a comida não consegue sair do campo e chegar aos mercados. Ela apodrece por falta de refrigeração, acomodação, os métodos de distribuição não são bons. Isso acontece muito mais em países de economia em desenvolvimento, como os da África, do que em países de economia mais desenvolvida, como o Reino Unido. Mas é importante falar que engenheiros estão trabalhando na África com o objetivo de transferir tecnologia e técnicas de distribuição para evitar essa perda. É um grande desafio ainda, mas estamos trabalhando nisso sim.

Você pode falar um pouco sobre a Liga dos Otimistas Pragmáticos?
(Risos) Bem, a Liga é um clube de pessoas que querem transformar o mundo em um lugar melhor. Não sei se já existe algum representante no Brasil (risos). Mas a ideia por trás disso é que existem muitas pessoas que leram meu livro e pensaram: ‘Uau, isso é interessante, eu não percebia que o futuro pode realmente ser melhor. O que posso fazer para ajudar?’ O que alguns queriam é que eu dissesse o que deveriam fazer, mas eu não acho que tenha nem quero ter esse poder. Então, montei um “local” onde cada um, em conjunto com outros, pudesse descobrir. Funciona assim: se você tem uma ideia para tornar o mundo um lugar melhor, venha e nos diga, e a partir daí as pessoas vão ajudar você. Mesmo se não tiver uma ideia, mas quiser ajudar, você vai ouvir e contribuir com as pessoas que têm os projetos. A Liga é galgada ao redor de oito princípios baseados em otimismo, pragmatismo, diversidade.

Um desses princípios é não ter medo de errar. Por quê?
Porque é a coisa mais criativa que você pode fazer, certo? É errando que você aprende. Mesmo. Com minha mulher, por exemplo. Quando eu a deixo chateada é que aprendo mais sobre quem ela é, do que ela precisa e como amá-la melhor. Quando está tudo bem, é fácil, podemos tomar um vinho, é ótimo. Mas quando ela está chateada comigo é que eu preciso pensar com mais cuidado sobre nosso relacionamento, sobre quem eu sou, quem ela é e o que fazer para deixar esse relacionamento melhor. Somos levados a pensar que errar é ruim. Penso que o mesmo erro duas vezes é uma escolha, mas o primeiro erro é uma experiência de aprendizagem e precisamos absorver isso. Toda coisa boa que eu já fiz na vida foi resultado dos meus erros. Para muitos dos meus clientes, criei um sistema de recompensas para o “melhor erro”. Em vez de pensar que fracassou, você é premiado porque fez algo que lhe trouxe conhecimento. Keith Richards, dos Rolling Stones, foi perguntado como conseguia criar tantas músicas e riffs incríveis. Ele respondeu: ‘Eu simplesmente começo a tocar até cometer o erro certo’. É uma coisa muito profunda. Ele está certo de que errar pode criar algo fantástico. Devemos absorver isso não só para nós, mas também permitir que aqueles ao nosso redor possam cometer erros também.

Um filme está sendo feito baseado no seu livro e contará com a colaboração de futuristas visuais lendários, como Syd Mead (Blade Runner) e Ian McCaig (Star Wars, Harry Potter, Terminator). O que você pode nos dizer sobre o filme?
Bem, espero que o filme saia mesmo, é um processo demorado. A ideia é que essa visão do futuro não seja utópica, mas boa, não aquela temida por todos. Minha visão é que você não pode fazer um futuro melhor até que você possa imaginá-lo melhor. O filme será fruto da imaginação, mas baseado em ciência, tecnologia e inovações que já existem. Ele servirá para dizer: isso é o que pode concretamente vir a ser. Será feito por pessoas que fizeram todos os nossos filmes de ficção favoritos. Eles vão comigo imaginar esse futuro possível.

Como você espera que as pessoas saiam da sala de cinema depois de assistir ao filme?
Quero que elas pensem que um futuro melhor é possível, mas que precisam agir para que isso se concretize. É preciso se envolver. Se pensarmos que o futuro será terrível, então sempre teremos esse sentimento de derrota. De que adianta se esforçar então? Já que vai ser horrível, vou sentar aqui, beber minha cerveja, juntar dinheiro e cuidar da minha própria vida. Ao passo que, se você achar que pode ser melhor, poderemos construí-lo juntos, num esforço coletivo. Devemos pegar algo maior que nós mesmos para se dedicar e tentar transformar o mundo em um local melhor para todos. Definitivamente, é algo que vale a pena fazer.

Você já realizou uma turnê atuando como ator de comédia stand up. Como foi a experiência? Como o bom humor pode ajudar a resolver problemas?
(Risos) Eu era um comediante, mas não faço mais isso! (Risos). Eu queria aprender as habilidades de um comediante. Uma das coisas que sei sobre qualquer obra de arte grandiosa é que ela é sempre melhor quando é verdadeira. As piadas mais engraçadas são sempre as menores e as mais verdadeiras. Algo que você está tentando dizer para sua mulher há 10 anos e nunca consegue e vem um comediante e fala em duas frases e você ri e ela ri e você pensa: ‘Como ele faz isso?’ Quis aprender. As habilidades de como dizer a verdade de um jeito rápido e que fosse compreensível a todos. Como um comediante consegue me fazer sentir bem me dizendo a verdade, mesmo que seja dura. Sabendo usar essas técnicas, pude me conectar com mais pessoas.

Aqui no Brasil, temos ainda muitos problemas sociais, desigualdade, violência. Ainda assim, somos considerados um povo otimista, criativo, feliz. Como isso é possível?
Acredito que em toda cultura isso é possível. Eu gosto de pensar os humanos como uma rede de conspiração. Quanto mais ficamos juntos, mais descobrimos nossas semelhanças. Eu viajo o mundo trabalhando com diversas pessoas, de bilionários a pessoas de favelas, e eu garanto que somos todos iguais e queremos as mesmas coisas. A grande coisa a respeito da rede em que vivemos hoje é que estamos aprendendo a colaborar, sem precisar do governo, por exemplo. Quanto mais fazemos isso, mais descobrimos nossa conexão como humanos. Estamos todos no mesmo barco, na mesma nave chamada Terra. É a rede que torna possível que sejamos otimistas, mesmo sabendo que há muito a fazer. Vamos pegar o exemplo da violência. O mundo está cada vez menos violento do que já foi. Se você comparar com outros períodos da história, o mundo está menos violento. As chances de ser morto por outro ser humano hoje são infinitamente menores se compararmos com outros tempos da história. Claro, existem ainda locais extremamente violentos. Mas o que é interessante é que, à medida que nos tornamos mais pacíficos, a violência se torna menos tolerável e mais preocupante. De onde venho, por exemplo, violência não era notícia há 500 anos. Era o usual. Mas hoje, se alguém é morto numa cidade da Escócia, as pessoas vão pensar: ‘Nossa, isso é inaceitável’. Há alguns anos, 30 pessoas poderiam morrer na mesma cidade e ninguém ligaria muito. Então, nós ouvimos falar mais da violência agora porque ela não é mais tolerada e as pessoas sentem que precisam fazer algo sobre isso. E, quanto mais conectados estivermos, acredito que o mundo ficará cada vez menos violento.

Você acredita que ciência e tecnologia são as chaves para um futuro de mudança real ou educação e cultura são também fundamentais nesse processo de transformação?
Tudo isso é importante. O que temos é um problema educacional em muitos países. Tenho certeza de que você percebe o quanto existe um descompasso entre a vida real e o que muitas das atuais instituições pregam. Isso significa que nos próximos 30 anos haverá uma certa bagunça enquanto essas velhas instituições morrem e novas ideias e modelos são criados. Novos modelos de educação, participação. A resposta é sim, ciência e tecnologia são essenciais, mas sim, educação também e cultura também. Tudo isso é essencial e impossível de separar.

Você sinceramente crê que as futuras gerações viverão melhor que nós? Nossos filhos e seus filhos serão mais felizes?
Não acho que eles vão ser. Acho mesmo que eles podem ser. Essa é a questão fundamental. Nós podemos, facilmente, destruir o planeta e estamos fazendo um excelente trabalho nisso, basta ver os absurdos que ainda acontecem. Por outro lado, veja o Brasil, uma terra de muito sol. Sabemos que o valor da energia solar, dos painéis está caindo. O Brasil pode facilmente virar uma potência nesse tipo de energia. Então, não é que nós vamos ou eles vão ter um melhor futuro definitivamente, mas poderão, a partir das escolhas que fizermos, dos valores que queremos construir e pelos quais lutamos. Eu passei a vida lutando por energias limpas, justiça social. Outras pessoas vão lutar pelas velhas instituições. Essa é a batalha. Se você acredita que o mundo vai ser uma droga, vai permitir que essas pessoas continuem dominando. Mas, se você acredita que o mundo pode ser melhor, então pode e deve lutar pelo outro lado. Um futuro melhor é trabalho de todos.

Você está na Unifor, uma das maiores universidades do Brasil, um local cheio de mentes jovens, pensamentos distintos. Qual a importância de afirmar para os jovens que é possível construir um futuro melhor?
Bem, é o futuro deles em jogo, certo? Uma das coisas que eu acho incrível sobre a geração que veio depois da minha é que um melhor futuro está disponível a todos de um jeito que não esteve para a minha geração ou a dos meus pais. Meus pais não tiveram mídias sociais, internet, celulares, não viajaram, não viram o mundo. Estamos nessa transição, questionando governos, o sistema como um todo. Os próximos 30 anos serão meio bagunçados, mas muito emocionantes. Se você vive em um tempo em que um futuro melhor está disponível, é hora então de agarrá-lo. Quem mais poderá fazê-lo? Minha geração? Que bagunça! Minha geração deixou o mundo cair numa crise ambiental, criou um sistema financeiro totalmente disfuncional, o governo não mudou sua maneira de operar em 300 anos, no caso do meu país. Nós não abraçamos os desafios. A geração que veio depois de mim é que está sentindo a pressão e dizendo: ‘Estou de saco cheio, podemos mudar?’ E eu digo: ‘Sim!’ E devemos. Por que senão vamos mesmo acabar num futuro horrível, como os pessimistas insistem em repetir.

Que conselhos você daria para os jovens se libertarem um pouco das ideias tradicionais e cotidianas e começarem a se arriscar para mudar o futuro da humanidade?
Existe uma frase que diz: ‘Se você comprar segurança, em vez de aventura, é isso que você vai ter e a esse custo’. Você deve ser julgado não pelo que tem, mas pelo que cria. Ninguém vai se lembrar de você pelo número de carros ou quão grande era sua TV. Vão se lembrar de você por criar um sistema de educação novo, que envolve cultura, tecnologia, ou construir um sistema de saúde para todos ou tornar o mundo mais justo. Se você não está preparado para fazer isso, então para que está aqui realmente?


DEPOIMENTO
235_un18“A palestra magna do Centro de Ciências da Comunicação e Gestão foi muito interessante. Houve uma repercussão bastante positiva. Aqueles que não tinham domínio da língua inglesa tiveram acesso à tradução simultânea. O tema ‘Uma visão otimista do futuro’ foi abordado de maneira científica, foi surpreendente. Além disso, no dia da palestra magna, nós tivemos um momento único entre o palestrante Mark Stevenson e aproximadamente 100 alunos do CCG, previamente selecionados, que tiveram a oportunidade de conversar e fazer perguntas ao convidado. Um momento de enriquecimento para todos" - Profa. Candice Nóbrega, diretora em exercício do CCG durante o Mundo Unifor




*Em livre tradução, “Uma viagem otimista ao futuro”.

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 235

 
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