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“Para decidir que tipo de mundo queremos, precisamos de algum conhecimento sobre ciência”

235_un21com Miguel Nicolelis

Ele é considerado um dos 20 maiores cientistas do mundo pela Scientific American e foi o primeiro brasileiro a publicar um artigo na capa da renomada revista Science. Miguel  ngelo Laporta Nicolelis formou-se em Medicina e fez doutorado em Fisiologia na Universidade Federal de São Paulo (USP). É codiretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University, em Durham, nos Estados Unidos. Lá, lidera um grupo de pesquisadores da área de Neurociência que estuda interfaces cérebro-máquina. Referência mundial em pesquisas com próteses neurais, seu trabalho está na lista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) sobre as tecnologias que vão mudar o mundo. Visionário, o palmeirense fanático sonha alto e não tem medo dos riscos. Depois de conseguir com que macacos movimentassem um braço virtual com a força do cérebro, pretende revolucionar a ciência, fazendo um paraplégico dar o chute inicial da Copa de 2014 utilizando uma estrutura robótica. Convidado do Centro de Ciências da Saúde (CCS), recebeu a equipe de Unifor Notícias pouco antes de abrir as palestras magnas do Mundo Unifor, onde foi aplaudido de pé. Na entrevista, falou sobre os desafios e impactos de suas pesquisas, apontando ciência e educação como fundamentais para o desenvolvimento humano.

Como o Sr. iniciou sua carreira no mundo científico? Já pensava em ser cientista quando criança?
Na realidade, eu gostava muito de ciências quando era criança, mas não achava que seria cientista. Eu acho que só virei cientista depois que entrei na Faculdade de Medicina. Foi aí que descobri que era isso que eu queria fazer.

Diante de tantas possibilidades de pesquisa, o que chamou sua atenção para os estudos sobre interação homem-máquina?
Eu comecei estudando o cérebro, em neurofisiologia. Comecei a trabalhar com computadores na faculdade e cheguei à conclusão de que o computador mais sofisticado que eu poderia estudar seria o cérebro. Foi por isso que eu mudei de área de atuação.

O Sr. pretende revolucionar a ciência através do projeto Walk Again, que objetiva fazer um paraplégico dar o chute inicial da Copa de 2014 utilizando uma estrutura robótica, o exoesqueleto. Qual será a real contribuição do projeto para a humanidade?
É difícil dizer porque estou envolvido desde o início, mas, se você imaginar que no mundo existem mais ou menos 25 milhões de pessoas paralisadas por alguma lesão neurológica, muscular, se essa tecnologia permitir que essas pessoas tenham um ganho e uma melhora significativa da qualidade de vida, acho que vai ter um impacto muito grande. A repercussão do projeto mundo afora é, para nós, surpreendente e recompensadora. Há algumas semanas eu estava na feira do livro de Frankfurt, um lugar onde você não imagina que vai encontrar um neurocientista. Fui como parte da delegação brasileira, dei uma palestra sobre neurociência e o interesse foi enorme. Nos Estados Unidos se fala muito do projeto, pelo mundo afora a gente recebe e-mails ou correspondências de pessoas interessadas em conhecer mais. Se a gente conseguir, e tudo indica que há possibilidade real de a gente chegar no dia e estar tudo certo, não só o impacto científico, o impacto tecnológico, mas o impacto para a ciência brasileira vai ser muito grande, porque vai mostrar que também somos capazes de realizar grandes projetos científicos e cumprir prazos. Eu sempre falo, é um projeto extremamente difícil e complexo. Mesmo se a gente não conseguir na data, conseguir um pouco depois, vale a pena, porque o impacto é muito grande. Eu acabei de ver o exoesqueleto em Paris sendo montado e é muito emocionante ver que ideias que a gente teve 20 anos atrás estão começando a se materializar, literalmente, na sua frente.

O Walk Again concentra cientistas do mundo inteiro sob sua coordenação. Como é a experiência de liderar pessoas de tantos lugares em torno de um mesmo projeto?
É divertido e fascinante. Eu nunca imaginei que faria isso, e neste momento da minha carreira é uma recompensa muito grande. Depois de todos estes anos, ter meus amigos, grandes amigos, espalhados pelo mundo inteiro, Europa, Estados Unidos, Brasil, trabalhando por um objetivo comum, e todos eles tendo aberto mão de recompensas financeiras para demonstrar ao mundo que a ciência é muito mais próxima da nossa vida do que imaginamos. Existem cientistas em seis, sete países, nas mais diferentes áreas de atuação, cientistas americanos, suíços, alemães, franceses, chineses, afegãos, todos trabalhando. Todos os chefes de laboratório abriram mão das suas patentes, trabalhando pro bono em um projeto que vai ser executado no Brasil. Isso dá a dimensão do que a ciência é capaz de fazer no mundo hoje, onde tudo é monetizado, onde tudo tem um custo, um preço, e você ainda consegue reunir quase cem cientistas trabalhando por um objetivo humanitário.

As pesquisas científicas costumam ser caras. Como lidar com a pressão para que elas tragam retorno imediato?*
Em casa, nós só usamos teflon nas panelas porque o homem foi para a lua. Se a Nasa não tivesse precisado de um sistema isolante para trazer os astronautas de volta, nos não teríamos teflon hoje, por exemplo. Então ciência é assim, você tem que investir a fundo perdido e confiar no taco do seu cientista. Se você escolheu bem, se formou bem os seus cientistas e se eles são imbuídos de uma formação humanista, o trabalho terá impacto, retorno. Mesmo a ciência abstrata eventualmente encontra alguém que a transforme em ciência aplicada, mas você não tem ciência aplicada se não tiver ciência abstrata de alta qualidade. A prova clara é que você precisa investir pesado em projetos que tenham chance de fazer diferença. E esperar o retorno. O retorno pode demorar. No caso específico dessa área, quando a gente anunciou que faria o exoesqueleto para demonstração na Copa do Mundo, outros grupos disseram que fariam a mesma coisa. Na China, Suíça, França, Estados Unidos, Israel. Então, a simples ideia, a menção da ideia, teve um efeito multiplicador tremendo no mundo e hoje existem vários projetos em paralelo. Acredito que o fato dessa inovação estar ocorrendo em várias partes do mundo vai permitir que a longo prazo o custo dessa tecnologia caia, como caiu o marcapasso cardíaco, o implante de cóclea, cujo custo no começo era muito alto.

O Sr. saiu do Brasil para estudar e retornou, anos depois, cheio de projetos de educação, pesquisa, novas formas de divulgação científica. A vontade de retornar e utilizar seus conhecimentos em prol do Brasil sempre existiu?
Sempre, desde que eu trabalhava na faculdade de Medicina, em São Paulo, antes de ir embora. Antes, inclusive, quando fazia o ensino médio, já pensava em como poderia usar tudo que eu aprendia para fazer algo aqui no país. Depois que eu fui embora, essa vontade ficou mais aguda. Depois de 15 anos fora do Brasil, eu retornei e comecei a fazer alguma coisa aqui. É algo que vem desde a infância.

A partir dessa vontade, o Sr. fundou, em 2003, o Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra. Qual foi o objetivo?
O Instituto nasceu para usar a ciência como agente de transformação social. Natal foi nosso primeiro grande experimento, onde a gente tentou demonstrar, e demonstrou, nestes dez anos, que a ciência de ponta pode ter um impacto muito grande no desenvolvimento humano ao redor dessa infraestrutura científica. Esta é basicamente a grande contribuição do Instituto, dez anos depois: ter contribuído para uma transformação educacional, médica e também cultural do seu entorno.

O projeto Educação para Toda a Vida, realizado no Instituto, acompanha o desenvolvimento e aprendizado de crianças desde muito cedo. Quantas crianças estão envolvidas no projeto e como funciona a relação dos profissionais responsáveis com as famílias dessas crianças?
Nosso projeto é o único do Brasil, acredito, que começa no pré-natal das mães dos nossos futuros alunos. Nós temos um centro de saúde materno-infantil, onde acompanhamos as mães da cidade de Macaíba e da periferia de Natal [ambas no Rio Grande do Norte] ao longo da gestação. Neste momento temos duas escolas, em Natal e em Macaíba, com mil crianças, e mais uma terceira escola no interior da Bahia [Serrinha], com 400 crianças. São 1.400 crianças no nosso curso de Educação Científica, que funciona no turno oposto ao da escola pública. As crianças, na realidade, estão na escola ao longo de todo o dia, é um curso de tempo integral.

O Sr. acredita que o Brasil ainda perde muitos cérebros para outros países? Quanto ainda precisamos evoluir em pesquisas científicas para atingir o patamar de países como Estados Unidos, Alemanha ou Japão?
O Brasil ainda exporta muita gente, milhares de brasileiros trabalham no exterior. A distância para a ciência produzida nesses países é muito grande ainda, mas a nossa derivada é positiva. Nós temos mudado. Nos últimos 15 anos, 12 anos, o Brasil começou a investir estrategicamente em ciência, como com o Ciência sem Fronteiras, que agora tem o objetivo de mandar brasileiros para o exterior, mas trazê-los de volta. A distância é grande para países como Japão, Estados Unidos, Coreia do Sul, tanto em termos de investimento quanto de número de cientistas por número de habitantes. Existem indicadores que mostram que essa distância é grande, mas o talento brasileiro é inequívoco. É uma questão de continuar investindo em políticas de massificação da ciência e mostrar para as crianças brasileiras que a ciência pode ser sim uma opção de carreira.

A criação da interface cérebro-cérebro é uma evolução natural das suas pesquisas?  A brainnet é o próximo passo lógico para a ciência?
Recentemente, nós publicamos o primeiro trabalho dessa interface [na revista Scientific Reports], unindo o cérebro de dois ratos. Mostramos que o conceito é factível. Mas ainda estamos estudando qual o potencial desse paradigma. São várias as possibilidades, o impacto foi muito grande na comunidade científica, mas ainda estamos estudando isso em nível de animais, sobre como você associa cérebros e quais as computações que uma rede de cérebros gera.

Será possível que essa tecnologia evolua a um ponto que permita a comunicação entre cérebros como se fosse um telefonema?
Eu acho que é possível. Como a gente diz nos Estados Unidos, o júri ainda está decidindo. Ainda temos várias limitações técnicas que não permitem que façamos o que já conseguimos fazer em animais, hoje em dia, em seres humanos. Mas a possibilidade existe, vai depender de um melhor entendimento de como o cérebro funciona, da aplicação de tecnologias que a gente nem tem nesse instante, mas que já tem gente pensando em desenvolver. É algo curioso para se explorar, muito curioso.

Até que ponto isso pode ser perigoso?
Tudo é perigoso. A vida é cheia de perigos. Você sair daqui e atravessar a rua é perigoso. Agora, a fascinação que nós temos em abordar o desconhecido às vezes é maior do que o nosso medo de se aventurar em áreas desconhecidas ou ditas arriscadas. Eu acredito que toda descoberta científica precisa ser regulada pela sociedade. A sociedade civil vai dizer o que é factível e o que não é, o que é abordável. Nossa função é descobrir a fronteira.

Como o senhor imagina o mundo daqui a 50, 100 anos? Estaremos vivendo coisas que hoje só imaginamos ou vemos nos filmes?
Não tenho ideia! (risos). Se você mostrasse o mundo de hoje para alguém do final do século 19, ninguém iria acreditar no que está acontecendo. Acho que isso vai continuar sendo verdade, numa velocidade ainda mais rápida. Se daqui a 20 anos alguém mostrar certos desenvolvimentos tecnológicos para alguém de hoje, do nosso dia a dia, talvez a gente ache que é ficção científica. Por isso é tão importante a educação científica se transformar em uma norma e se disseminar pelo sistema educacional brasileiro. A ciência hoje em dia não é uma questão simplesmente abstrata, distante. Ela diz muito sobre a soberania de um país, sobre a democracia de um país. Para decidir que tipo de mundo queremos ter, precisamos de algum conhecimento básico sobre ciência. O pior que pode acontecer é fechar os olhos e decidir com nosso mitos e nossos preconceitos pessoais.

O que o senhor acha da inciativa da Universidade de Fortaleza de promover um evento do porte do Mundo Unifor, trazendo profissionais renomados em suas áreas de atuação para discutir ciência, tecnologia, cultura?
Eu acho excelente, uma iniciativa extremamente louvável, especialmente no ano em que comemoramos 40 anos da Unifor. Outras universidades Brasil afora deveriam ter esses ciclos de palestras, expor aos estudantes opiniões diversas. Só tenho a cumprimentar a iniciativa, porque é disso que precisamos, desse diálogo, esse intercâmbio para as pessoas verem que ciência não é algo de outro mundo, não é mágica e que nós podemos conversar com cientistas normalmente e discutir as áreas de pesquisa de uma maneira abordável, próxima da nossa compreensão.

DEPOIMENTO

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"A palestra de Nicolelis foi extremamente bem-sucedida. Em primeiro lugar porque ele traz o horizonte do conhecimento atual dentro da neurociência, de uma maneira que integra não só as disciplinas e os cursos da área da saúde, como também faz uma articulação intersetorial. Nós tivemos a percepção da articulação da medicina com a fisioterapia, com a terapia ocupacional, com a psicologia e com outras áreas da reabilitação e da recuperação funcional, mas o tema também conversou com a área tecnológica. A fala de Nicolelis trouxe a possibilidade para qualquer um que hoje está na universidade de sonhar grande. Ele mostrou que é possível um brasileiro estar na posição que ele ocupa hoje, articulando uma rede de 100 cientistas no mundo inteiro em torno de um projeto inédito, e que o conhecimento científico de ponta pode ser gerado em qualquer lugar, desde que tenha relevância" - Prof. Flávio Ibiapina, diretor do CCS




* Pergunta realizada durante coletiva de imprensa com o palestrante


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 235

 
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