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Artigo | Os desafios da televisão universitária no Brasil

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por Helena Cláudia


A primeira experiência de Televisão Universitária de que se tem registro no Brasil data de 1968. A TV Universitária de Recife, ligada à Universidade Federal de Pernambuco, foi criada em um momento em que o analfabetismo atingia mais da metade da população brasileira e 50% dos habitantes encontravam-se em idade escolar. Seu objetivo era promover a educação formal através da televisão.

Depois dela, pelo menos outras 12 Instituições de Ensino Superior (IES) receberam outorgas de canais educativos abertos e vêm operando as estações com suporte de programação das duas grandes emissoras educativas do país: a TV Cultura de São Paulo e a TV Educativa do Rio de Janeiro. Nem por isso, entretanto, é possível dizer que a Televisão Universitária começou no Brasil há mais de 40 anos. As emissoras operadas por IES no campo da radiodifusão (TV aberta, nas frequências VHF ou UHF) hoje, como antes, não oferecem ao público somente uma programação segmentada, especificamente universitária, entendida como aquela que revele os personagens, as atividades e os pontos de vista do mundo acadêmico. Para Priolli (2004), a vinculação dessas estações é, principalmente, administrativa e financeira, até porque, dadas as suas limitações de produção, a maior parte de seu conteúdo vem de fora, “importado” das TVs públicas e educativas.

As primeiras IES a veicular programas sob o conceito específico de “Televisão Universitária” fizeram-no a partir de 1995, na TV a cabo. No conceito adotado pela Associação Brasileira de TVs Universitárias (ABTU), a Televisão Universitária é aquela produzida no âmbito das IES ou por sua orientação, em qualquer sistema técnico ou em qualquer canal de difusão, independente da natureza de sua propriedade. Uma televisão feita com a participação de estudantes, professores e funcionários, com programação eclética e diversificada, sem restrições ao entretenimento, salvo aquelas impostas pela qualidade estética e boa ética. Uma televisão voltada para todo o público interessado em cultura, informação e vida universitária, no qual prioritariamente se inclui o próprio público acadêmico e aquele que gravita no seu entorno: familiares, fornecedores, vestibulandos, gestores públicos da educação, etc.

Um canal de TV assegurado por lei, e gratuito, mostrou-se um estímulo poderoso, motivando inúmeras IES a se aventurarem no campo da comunicação audiovisual. A quantidade de IES envolvidas, a variedade das propostas de programação e a multiplicidade dos sistemas técnicos utilizados para a transmissão dos sinais são indicadores irrefutáveis da expansão da Televisão Universitária no país. A universidade brasileira muito rapidamente “vai deixando para trás antigos preconceitos contra a televisão e passa a confiar no potencial dessa mídia para a difusão de informação, cultura, educação e cidadania” (Peixoto; Prioli, 2004, p. 5).

Mesmo com o desenvolvimento do segmento, as Televisões Universitárias brasileiras se deparam com muitos problemas. Grande parte delas divide espaço com os laboratórios dos departamentos de comunicação das instituições. Seus equipamentos e equipes não são suficientes para dar vazão ao volume de produção necessária, portanto findam por copiar o modelo das TVs comerciais, repetindo seus conteúdos. Outro ponto a se destacar é o não conhecimento de seu público-alvo, impossibilitando a construção de estratégias e a percepção de posicionamento na sua programação.

A ABTU detecta que, para emissoras de caixa normalmente baixos e ainda imaturas tecnicamente, como as universitárias, há gêneros de programação inacessíveis, ao menos, numa escala de produção maior. Segundo a Associação, as Televisões Universitárias não conseguem ocupar a contento os horários acessíveis com suas produções, o que resulta em uma grade de programação repetitiva. Com esse desafio em mente, a Rede de Intercâmbio de Televisão Universitária (RITU) foi criada para apoiar a solução desse problema. A RITU tem como meta gerar, proporcionar e estimular ações que objetivem responder à necessidade por programas de televisão entre as televisões universitárias, interessados na educação e ascensão da responsabilidade social, além de fortificar a Rede como ferramenta de inter-relação das televisões universitárias brasileiras.

Outra questão apontada é a financeira. A produção de televisão e operação de um canal de transmissão são procedimentos dispendiosos quando igualados às dinâmicas de despesas ordinárias das IES. A norma nº 13, baixada pelo Ministério das Comunicações e conhecida como Norma do Cabo, facilita o financiamento externo dos canais universitários. Ela estabelece que “é vedada a publicidade comercial nos canais básicos de utilização gratuita [...], sendo permitida, no entanto, a menção ao patrocínio de programas”. Ou seja: a Televisão Universitária pode ser patrocinada. Como não há qualquer outro instrumento legislando sobre quem, como ou quanto pode patrocinar, fica a critério das IES buscar os parceiros que julgar convenientes para apoiá-las na tentativa de oferecer ao público uma grade de programação de qualidade. Esses parceiros aparecem, ainda timidamente, do setor privado. Imbuídas muito mais de um espírito de benemerência, ou de mecenato cultural, do que da perspectiva de investidoras em mídia, que buscam comunicação fácil e eficaz com o segmento universitário.

São estes, em breve relato, as dificuldades que atingem a Televisão Universitária neste momento da sua existência. Após 17 anos, depara-se ainda com entraves da fase de implantação e maturação. São problemas variados e complexos, mas que vêm merecendo “o debate intenso das IES que se empenham na produção audiovisual e que já encontram algumas soluções, ou no mínimo, tentativas de equacionamento” (Priolli, 2004).

*Helena Cláudia dos Santos é coordenadora da TV Unifor, que em agosto comemorou oito anos de existência. É doutoranda em Cultura e Comunicação pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Portugal, e diretora administrativa da Associação Brasileira de TVs Universitárias (ABTU).


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 234

 
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