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Doe de Coração: solidariedade que transforma vidas

Realizada pela Fundação Edson Queiroz, a campanha Doe de Coração chega à sua 11ª edição contribuindo, a cada ano, para o crescimento do número de transplantes realizados no Ceará. Desde o início da campanha, em 2003, esse número mais que triplicou.

Encontrar meios de prolongar a vida sempre esteve entre os maiores desejos do ser humano. Por meio da doação de órgãos e tecidos, é possível concretizar o sonho de manter-se vivo ou mesmo dar continuidade à vida de entes queridos, através do outro. Foi com o objetivo de estimular a doação e reduzir a barreira do preconceito que a Fundação Edson Queiroz iniciou a campanha Doe de Coração, que este ano chega à 11ª edição. Referência no país, o movimento, que já sensibilizou milhares de pessoas, foi reconhecido nacionalmente pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), que concedeu, em 2008, o Prêmio Amigo do Transplante à Fundação Edson Queiroz.

Realizada tradicionalmente no mês de setembro, a campanha lança luz sobre a temática da doação de órgãos, através de anúncios em veículos de comunicação, distribuição de cartilhas, cartazes e camisas. A mobilização é realizada em hospitais, escolas, clínicas, no Sistema Verdes Mares de Comunicação, na Unifor e em entidades diversas, traduzindo a preocupação da Fundação Edson Queiroz em chamar a atenção para um ato de alteridade e amor.

“A Unifor tem se dedicado à divulgação de informações sobre as ações de doação-transplante de órgãos através de diversos processos midiáticos, realizando campanhas de esclarecimento público, palestras e mesas-redondas. Participa também de fóruns de discussão de políticas públicas na busca do entendimento de que todas as instituições hospitalares reconheçam na notificação da morte encefálica o caminho para o efetivo crescimento e desenvolvimento da doação-transplante de órgãos”, comenta a diretora de Comunicação e Marketing, Erotilde Honório.

O retorno é expressivo. Desde a primeira edição, em 2003, o número de transplantes realizados no Ceará mais que triplicou. De acordo com dados da Central de Transplantes do Ceará, em 2003 foram realizados 420 transplantes. Em 2012, o total geral foi de 1.269, 849 a mais em comparação com o ano de 2003. São contabilizadas cirurgias de transplante de córneas, esclera, rins, coração, fígado, medula óssea, válvulas cardíacas, pâncreas e pulmão. Até meados de agosto de 2013, foram realizadas 697 cirurgias, o que colocou o Ceará na 3ª posição no país no número de doações efetivas por milhão da população. Dados consolidados pela ABTO no primeiro semestre deste ano apontam que o estado é o 1º lugar em doação efetiva de fígado por milhão da população, o 2º em doação de coração e pâncreas e o 3º em pulmão.

Apesar de bastante animadores, os números também mostram a necessidade contínua de mobilizações de estímulo e conscientização, como a campanha Doe de Coração. Até agosto, 963 pessoas se encontravam na lista de espera por um órgão no estado. Para a coordenadora da Central de Transplantes do Ceará, médica Eliana Barbosa, a Doe de Coração é fundamental para conscientizar a população para a importância de doar e, consequentemente, diminuir o tempo de espera dos pacientes. “A campanha é ampla e, definitivamente, faz diferença em sensibilizar famílias para a notável decisão de doar. Ela tem contribuído efetivamente para o aumento no número de doações e, por isso, queremos que dure enquanto houver necessidade de renovar vidas através do transplante”.

“A Universidade tem um papel social decisivo. Criar, inventar novos caminhos e novos equipamentos, preparar o futuro tendo no presente a meta de transformar a sociedade. Esta campanha desencadeada há 11 anos tem como objetivo melhorar a qualidade de vida do homem”, destaca o chanceler Airton Queiroz.

A reitora Fátima Veras observa que a Doe de Coração contribuiu para uma mudança de postura diante da doação de órgãos. “Até pouco tempo, essa questão era considerada tabu. Havia medo, desinformação. Acredito que um dos maiores feitos da campanha foi desmistificar, orientar as pessoas, fazê-las entender que é possível fazer o bem mesmo em um momento difícil, em que achamos que nada mais pode ser feito”.

Para o diretor do Centro de Ciências da Saúde (CCS), prof. Flávio Ibiapina, a Fundação Edson Queiroz tem trabalhado a campanha de maneira efetiva, pois entende sua relevância para a sociedade. “Através da Doe de Coração, promovemos valores um pouco esquecidos, principalmente a solidariedade e a valorização da vida como bem inestimável. Isso possibilita que, mesmo depois da morte de um ente querido, a família reconheça a importância de realizar um gesto de solidariedade suprema, que é doar”, opina.

Segundo o Ministério da Saúde, o passo principal para se tornar doador é conversar com a família e deixar bem claro o desejo de doar. Não é necessário nenhum documento escrito. A doação de órgãos pode ocorrer a partir do momento da constatação da morte encefálica. Um único doador tem a chance de salvar ou melhorar a qualidade de vida de pelo menos 25 pessoas. Em alguns casos, a doação em vida também pode ser realizada (parte do fígado, um dos rins e parte da medula óssea). A restrição à doação de órgãos se limita a soropositivos e pessoas com doenças infecciosas ativas.

PREPARANDO FUTUROS MÉDICOS

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Além da necessidade de sensibilizar continuamente a população, o aumento no número de doações passa também pela correta preparação dos profissionais que atuam nos diversos procedimentos que envolvem um transplante. Segundo o diretor do CCS, prof. Flávio Ibiapina, uma das grandes preocupações da Universidade ao preparar futuros médicos é treiná-los para obter uma ampla visão do processo doação/transplante, desde o correto diagnóstico da morte encefálica, passando pela captação até o efetivo procedimento cirúrgico. “No nosso curso de Medicina, alguns professores participam ou até mesmo coordenam equipes de transplante e transmitem o conhecimento para seus alunos. Esses futuros profissionais devem ser capazes, inclusive, de abordar as famílias de forma adequada para que elas possam autorizar a doação”.

Para a coordenadora do módulo de Emergências Médicas, profa. Cláudia Regina, “é essencial que o profissional aprenda sobre isso na graduação. Aqui na Unifor conseguimos implantar todos esses temas ao longo da grade curricular, e o ponto alto da disseminação dos conceitos de doação, morte encefálica, captação e doação acontece nesse módulo. Além das aulas práticas em ambiente de simulação e nos laboratórios, os alunos participam de vivências junto a médicos de UTIs móveis e acompanham profissionais no Instituto José Frota (IJF)”, explica.

Para a aluna do 10º semestre de Medicina e monitora do módulo Habilidades Médicas VII, Bruna Duarte, estudar e acompanhar casos que envolvem transplantes são fundamentais para a formação do futuro médico. “Precisamos entender como funcionam os procedimentos desde cedo. Como futuros profissionais da saúde, somos propagadores dessa ideia. Ainda existem tabus e na Universidade aprendemos a desmistificá-los. A vivência com professores que atuam diretamente nessa área é bastante enriquecedora”.



DEPOIMENTOS

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Eu percebi que a Rebeca tinha dificuldades de urinar desde recém-nascida. Tratei de levá-la ao médico, mas sem resultados. Sempre me diziam que ela era uma criança normal. Certo dia ela acordou com a pálpebra do olho esquerdo e o pé direito inchados. Levei imediatamente ao médico e a diagnosticaram com síndrome nefrótica [um conjunto de sintomas causados por diferentes doenças que acometem os rins]. Iniciamos o tratamento com diálise peritoneal e, alguns anos depois, com hemodiálise. Foi um período muito difícil. Rebeca era uma criança muito debilitada e isso retardou o crescimento dela. Entramos na fila do transplante várias vezes, mas os quadros de infecções sempre a afastavam da cirurgia. No dia 26 de fevereiro de 2013, após 12 anos de batalha pela sobrevivência, conseguimos um novo rim para Rebeca. Este ano é especial para nossa família, pois renasceu em nós a esperança de vermos nossa pequena ir mais longe.
Rosa Nogueira, mãe de Rebeca Lima, 12 anos, transplantada renal.

 

Eu tinha muito medo da cirurgia do transplante, mas hoje percebo o quanto me fez bem. Minha vida, nos últimos meses, mudou. Sou agora uma pessoa saudável. Meus pais me ensinaram a ter paciência, porque eles sabiam que um dia aquele sofrimento acabaria. E acabou. Ainda faço exames de rotina e acompanhamento, mas me sinto melhor a cada dia. Quero estudar, fazer cursos e compensar o que atrasei. Aos que estão na fila de espera por um órgão, peço que acreditem e tenham paciência. Não tenham medo, porque papai do céu sempre está cuidando de nós.
Rebeca Lima, 12 anos, transplantada renal.

 

 

 

 

 

Quando criança, adquiri a doença de Chagas [infecção transmitida pelo inseto conhecido como barbeiro que causa lesões no fígado, baço e coração]. Em 1999, fui diagnosticado e iniciei o tratamento, mas meu coração não respondia às medicações e começou a crescer. Foi quando os médicos me encaminharam para o transplante. A espera foi difícil, não me restava muito tempo de vida. Atividades simples, como tomar banho, já não conseguia realizar sozinho. Quando me restava, aproximadamente, um mês de vida, a boa notícia de que havia um novo coração para mim chegou. No dia 20 de agosto de 2001, fui transplantado. Ganhei uma vida nova e pude realizar atividades que há muito já não fazia, como praticar exercícios. Já se passaram 12 anos. Vivi muito bem com meu coração nos 10 anos seguintes [tempo médio de sobrevida após o transplante cardíaco de aproximadamente 72% dos transplantados, de acordo com registros internacionais]. No ano passado, fui diagnosticado com uma doença coronariana e estou novamente na fila de espera. Estou confiante.
Francisco Irissena de Melo, 41 anos, transplantado cardíaco.

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Há dois anos, fui diagnosticado com fibrose cística [doença genética que afeta todo o organismo, causando deficiências progressivas] e, de acordo com os médicos, o único tratamento seria o transplante pulmonar. Foi péssimo saber que, de repente, você tem pouco tempo de vida. O apoio da família e dos amigos foi fundamental. Entrei na fila de espera pelo pulmão e, no dia 2 de dezembro de 2011, fui transplantado. Fui o quarto paciente transplantado pulmonar do Nordeste. Ganhei o pulmão direito e uma vida nova. Hoje estou muito bem. Corro, viajo e vivo feliz.
Eduardo Gomes, 63 anos, transplantado de pulmão.

Por volta de 1994, eu estudava Terapia Ocupacional na Unifor quando, um dia, percebi uma mancha branca na perna. Colegas e familiares suspeitaram de hanseníase, mas eu sabia que não poderia ser porque tinha sensibilidade no local. Fui ao médico e fiz uma bateria de exames, incluindo ultrassom do fígado e do baço. Foi aí que constataram uma alteração. Procurei um hepatologista, que diagnosticou uma hepatite autoimune. O vírus rapidamente evoluiu para uma cirrose e o tratamento não respondia. Fui piorando, até que meu médico falou que minha única chance seria o transplante. Entrei para a fila de espera, uma verdadeira agonia. Naquela época era mais difícil, não havia muitas campanhas, as pessoas diziam não para a doação. É complicado porque quem está na fila não sabe se vai dar tempo receber o novo órgão. Minha espera durou seis meses. No dia 16 de junho de 2003, recebi meu novo fígado. A recuperação foi tranquila e, de lá para cá, tenho levado uma vida normal. Faço exames de rotina e procuro ser saudável.
Débora Suyane Ferreira, 40 anos, transplantada de fígado.

Fui diagnosticada com uma doença congênita que comprometeu minha córnea, uma espécie de cegueira. Percebi, pela primeira vez, há 15 anos, quando participava de um evento e precisei ler um poema. Naquele instante, nada consegui enxergar. A cegueira se instalou repentinamente no meu olho esquerdo. Fui ao oftalmologista e a receita médica foi entrar na fila de espera para um transplante de córnea. Não havia outro tratamento. Naquele tempo, não havia divulgação sobre transplante, as pessoas não tinham informações e o preconceito sobre o assunto era muito grande. Esperei dois anos até ser realizado meu implante. Foi um sucesso. Temos a sensação de receber uma luz, uma dádiva. É muito gratificante saber que um órgão seu pode prolongar a vida de outro ser. Temos que nos conscientizar, doar aquilo que recebemos de Deus. Futuramente essas córneas que bondosamente recebi de um ser serão doadas para quem precisar. E assim a vida vai.
Creusa de Andrade, 82 anos, transplantada de córnea.


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 233

 
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