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Gestão do Castelo de Versalhes: arte, cultura e luxo

com Catherine Pégard

232_entrevistacasteloCatherine Pégard sabe o que significa gerir o luxo. Como presidente do Castelo de Versalhes, da França, considerado um dos maiores museus do mundo, ela é responsável pela administração de todos os setores do edifício, incluindo programação dos espetáculos, jardins, obras artísticas, doações de mecenas. Formada em História e Ciências Políticas, Catherine Pégard foi editora-chefe da revista semanal Le Point, em Paris, por 25 anos. De lá, assumiu o posto de conselheira do presidente francês Nicolas Sarkozy. Em agosto de 2011, Pérgard foi nomeada presidente do Castelo de Versalhes. A gestora concedeu  entrevista exclusiva à professora Leda Guillemet, realizada no último mês de maio dentro do palácio. Catherine fala sobre seu cargo, as dificuldades e sucessos na gestão do Castelo, além do papel dos mecenas na promoção cultural da França. A entrevista na íntegra você confere aqui.

Como foi passar de conselheira política do presidente da França Nicolas Sarkozy à presidente do Castelo de Versalhes?
Foi evidentemente muito difícil. Meu percurso profissional é atípico. Durante 30 anos fui jornalista política e editora chefe da revista francesa Le Point e em seguida fui conselheira política do presidente da república Nicolas Sarkozy. É raro que alguém que não faz parte do setor cultural seja nomeado a um cargo de tal importância, sabendo que Versalhes depende do Ministério da Cultura. Para mim é uma grande honra fazer parte do emblema cultural da França e ser encarregada de uma nova e difícil empreitada. Versalhes é como uma empresa. São 1.000 pessoas trabalhando em 50 profissões diferentes. Eu tenho como encargo a presidência desse estabelecimento prestigioso, cujo destino deve ser administrado levando-se em consideração o respeito e a preservação do que ele representa no plano patrimonial. Em Versalhes, encontramos essa importante mescla de profissões e tenho como obrigação fazer a síntese de todas essas atividades. Com o apoio da equipe de Versalhes, faço a gestão e dirijo o Castelo em todos os setores: a programação dos espetáculos, os jardins, as obras, as doações dos mecenas, assim como os aspectos históricos e científicos dos congressos. Depois de um ano e meio nessa posição, tenho a impressão de estar apenas começando a conhecer o Castelo e penso que partirei um dia sem tê-lo conhecido completamente.

Como funciona a divulgação do Castelo no exterior e como é feita a captação de recursos necessários à preservação desse imenso patrimônio cultural francês?
Primeiramente deve-se pensar que tudo começa no que Versalhes representa para os franceses e também para os turistas do mundo inteiro. Nosso primeiro dever como gestores do patrimônio é dar vida ao Castelo. Sua particularidade é que ele não é somente um museu com seus quadros e obras de arte, mas sim uma residência real. Nosso objetivo é recriar os espaços, olhar as obras de arte e fazê-las reviver – refazer os tecidos, a luz dos tapetes, recriando a atmosfera da época dos reis franceses. Meus predecessores tiveram esse mesmo objetivo. O castelo atingiu apenas 15% do total da mobília e da decoração que existia nele antes da Revolução Francesa. Ainda temos muito trabalho pela frente. Restituir ao público a atmosfera que existia no tempo das cortes francesas é um dos nossos objetivos para o futuro. Versalhes não é somente o castelo, mas também seus jardins, bosques e fontes. Estamos recriando o ambiente externo como um museu ao ar livre e trazendo à tona as artes do tempo de Luís IV. Este ano estamos festejando o 400º aniversário do nascimento de Le Nôtre, paisagista que fez os jardins de Versalhes. Estamos também restituindo determinados aspectos dos jardins, como a arquitetura das fontes, tanques, lagos, esculturas e estátuas. Precisamos ainda reconstituir o mármore, os projetos de desenho dos jardins do castelo, um trabalho imenso. Temos uma bela programação de espetáculos da Ópera Real de Versalhes, reaberta em 2009, cuja prioridade é a música barroca do tempo de Luís IV. Além disso, temos o espetáculo dos fogos de artifício e das fontes, considerados espetáculos vivos.

Qual é a importância do mecenato para a manutenção e recuperação das obras e do próprio Castelo de Versalhes?
É muito importante. Podemos inclusive afirmar que o mecenato historicamente foi salvo da degradação graças aos mecenas americanos. Rockfeller [John Davison Rockefeller investidor e filantropo estadunidense], ao visitar o Castelo e tendo visto o estado de abandono em que este se encontrava, tomou a iniciativa de escrever ao Presidente da República, na época Raymond Poincaré, uma carta emocionante. Ele disse que compreendia que os franceses não tinham condições para conservar um castelo de dimensão internacional e enviou sua contribuição financeira para sua restauração. Temos uma dívida com os americanos. Os membros do círculo Amigos Americanos do Castelo de Versalhes são nossos maiores e mais fiéis mecenas e as contribuições deles representam 1/3 dos recursos financeiros do castelo. Mas a maior contribuição financeira vem dos 7 milhões de visitantes, dos quais 75% são estrangeiros. Estamos criando os embaixadores de Versalhes no mundo inteiro, para que possamos receber cada vez mais visitantes prontos a apoiar diferentes projetos culturais. A particularidade dos mecenas é que seu gesto se faz por amor ao Castelo. Os mecenas podem ajudar de diferentes maneiras. Por exemplo, uma fundação suíça recuperou o pequeno lago de Latone e a empresa francesa Vinci recuperou a Galeria dos Espelhos. Os mecenas podem também comprar uma pequena mesa, como foi o caso da escrivaninha de Maria Antonieta adquirida em leilão pelo grupo LVMH e Sanofi e doada ao Castelo, onde pode ser admirada pelos visitantes, nos aposentos da rainha. Graças a outra empresa francesa, pudemos adquirir a poncheira de porcelana de Vincennes, que hoje pode ser vista pelos visitantes na sala de jantar do Rei Luís XV. Essa aquisição nos permite dar conta de como era o serviço de 1.500 peças do serviço azul celeste do rei, mesmo que não possamos jamais encontrar todos os elementos e completá-lo. Os mecenas também podem ajudar com um financiamento menos vultoso, mas igualmente importante para se reconstituir o Castelo tal qual ele era antes. Pode-se adotar uma árvore para se reconstituir o parque, ou ainda restaurar uma estátua ou um dos bancos do imenso jardim.

Quais são os maiores desafios na gestão do Castelo?
O Castelo de Versalhes é conhecido no mundo inteiro e para mim é maravilhoso ver que em qualquer lugar aonde vou, ou em qualquer visitante oficial que recebo aqui, vejo sempre aquela chama nos olhos das pessoas com as quais eu converso sobre Versalhes. Existe uma mágica em torno deste lugar. O castelo foi um dos primeiros monumentos inscritos no patrimônio universal da humanidade. Nosso desafio é perenizar este lugar como ele deve ser, protegê-lo e resguardá-lo como um monumento grandioso criado por Luís IV. E também, claro, fazê-lo entrar no século XXI. É desafiante também receber os turistas vindos do mundo inteiro, com outra maneira de ver as coisas. Tentar perceber e compreender o que eles procuram quando vem a Versalhes e o que vamos lhes oferecer, pois tudo depende de onde vêm. A procura e o interesse mudam segundo a nacionalidade. Por exemplo, os japoneses adoram Marie Antoinette, mas os chineses preferem Luís IV e Napoleão, que também viveu em Versalhes, no Trianon. No entanto, existe um ponto comum entre todos aqueles que visitam Versalhes, que é a ideia de que aqui eles vão encontrar o luxo, o bom gosto, o estilo, a arte de viver e a tradição cultural que pertencem à França. Versalhes é como um livro aberto da história da França. O grande desafio é permitir a todos ler este livro de história, respeitando, obviamente, o que ele representa e como ele deve permanecer.

Como os símbolos atrelados ao Castelo de Versalhes – arte, poder, cultura e história francesa – são explorados para atrair visitantes internacionais ao Castelo?
Creio que é necessário fazer uma reflexão sobre o que se pode oferecer aos diferentes públicos cada vez mais numerosos. Muita gente que já conhecia Versalhes, suas salas, jardins e fontes, voltou para apreciar as numerosas exposições de arte contemporânea. Redescobriram o Castelo. Sem essas exposições itinerantes, muitos nunca voltariam a Versalhes. Conseguimos criar um equilíbrio entre a arte contemporânea e a defesa do patrimônio histórico. Hoje os jovens vêm visitar o Castelo e o domínio de Versalhes e se dão conta de que existe um equilíbrio entre o novo e o antigo, e eles apreciam as duas facetas.

Qual a estratégia usada para a venda dos produtos da marca Versalhes?
Vendemos produtos como fazem os castelos e museus do mundo inteiro. Os turistas gostam de adquirir uma lembrança do lugar que visitam. Aqui criamos uma linha de velas perfumadas que lembra a atmosfera de diferentes lugares como a Capela Real e o pequeno Trianon. Outros produtos são cópias de artigos que existem desde o século XVIII, como os 15.000 vasos de madeira para as laranjeiras que ornam os jardins, feitos de maneira idêntica. Novos produtos estão sendo lançados, como os legumes antigos que não mais se utilizam na cozinha atual. Com esses antigos legumes franceses, estamos lançando uma linha de produtos com a marca de Versalhes. Nossa exigência, no entanto, é que esses produtos tenham o máximo de qualidade e refinamento. Versalhes é um lugar sem igual, “unique”. Quando alguém leva uma lembrança, essa pessoa está levando um pedacinho de Versalhes, e nossa exigência é que mesmo esse detalhe seja impregnado com a qualidade excepcional francesa.

Como os gestores de Versalhes se adaptam aos diversos tipos de público?
Todos os dias temos eventos em Versalhes. Por exemplo, Chanel organizou um desfile de moda no bosque do Castelo. Da mesma maneira, Dior fez uma propaganda filmada na Galeria dos Espelhos do Castelo para a promoção de um perfume. Cartier também fez um desfile de joias e Dom Pérignon lançou um champanhe. São grandes eventos organizados por grandes empresas francesas ou internacionais em diferentes lugares do Castelo – galeria das batalhas, dos espelhos, os jardins, os bosques – que são alugados segundo as necessidades. Mas o evento organizado em Versalhes pode ser modesto. Uma empresa pode alugar uma sala para oferecer um coquetel a seus funcionários depois de um concerto, de uma ópera, etc. Organizamos também jantares prestigiosos quando um artista contemporâneo expõe em Versalhes, o que dá ao artista a oportunidade de convidar colecionadores de arte, mecenas e amigos para conhecer outra faceta do Castelo. Os jantares podem ser organizados dentro ou fora do Castelo. Outro tipo de evento é o casamento. Algumas famílias riquíssimas de diferentes países podem alugar Versalhes para o coquetel ou o jantar dos noivos.

Versalhes é conhecido como símbolo da beleza e do luxo francês. E como ser um símbolo do luxo e ao mesmo tempo receber 7 milhões de visitantes por ano?
O belo é acessível em Versalhes, pois a beleza está em torno de nós. Então, a ideia que se pode fazer da beleza através de Versalhes nos é dada, por exemplo, pela exposição da mesa do Rei posta com as pratarias, as velas, os tecidos e as louças. Essa visão nos leva ao passado e nos mostra como as coisas eram feitas naquela época. O acesso à cultura é também o acesso à compreensão. Na época não se dizia luxo, mas arte de viver, educação, estilo. Vê-se também o luxo e a beleza através do escritório do rei, móvel sem igual, no qual foram necessários nove anos de trabalho para fabricá-lo. Mostra-se o prestígio, a “art de vivre” e o estilo “à la française”. Existe em Versalhes o luxo contemporâneo que pode ser visto através dos desfiles e exposições nos quais os criadores de moda, que criam objetos, design ou vestidos, são artistas que foram inspirados pelo que fazemos em Versalhes. Há dois anos foi feita uma exposição sobre a moda do século XVIII que inspirou fortemente criadores de moda atuais, como Galliano e Christian Lacroix. Creio que essa alquimia entre o passado e o presente que encontramos em Versalhes permite a cada pessoa encontrar o sonho e o desejo que não encontramos em lugar nenhum. Quatrocentos anos depois que o Rei Luís IV escolheu Versalhes para mostrar ao mundo o gênio francês, esta ideia continua a prosperar no espírito de todos nossos visitantes, de onde quer que ele venha.

Qual a relação entre arte, cultura e luxo?
Creio que, através dos tempos, a cultura se construiu observando gênios se expressarem em diversas artes. Não existe uma medida de valor entre elas. Por exemplo, a gastronomia francesa é uma referência mundial. A costura nasceu em Versalhes, pois o Rei Luís IV mudava 10 vezes de roupa por dia. Aprendemos a fabricar perfumes. Por exemplo, algumas plantas do Trianon têm um perfume tão forte que faziam desmaiar as preferidas do rei. As luvas eram perfumadas com a flor do cravo, na época até as luvas tinham de ser perfumadas. O Rei reuniu os melhores profissionais em Versalhes como pintores, escultores, paisagistas. A arte e o luxo, visto como um estilo e um modo de vida, fazem parte da tradição e da cultura francesas.

Quais são seus projetos para o futuro em Versalhes?
Meu dever é restaurar esse lugar para que ele seja visto por muita gente. Os visitantes vêm a Versalhes para ver as páginas da história da França e às vezes a própria história deles. É preciso encontrar o financiamento para fazê-lo. Temos obras primas e lugares que falam de nossa história e que, no entanto, são desconhecidos do público. Meu projeto é que, com a ajuda dos mecenas e depois das obras de restauração, Versalhes seja totalmente aberto ao mundo para poder acolher e mostrar mais uma parte importante da história da França aos 7 milhões de visitantes estrangeiros. Eles poderão então descobrir e apreciar outros lugares mágicos e belos do Castelo até então desconhecidos.


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 232

 
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