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Unifor: meu mundo, minha vida

por Maria Zélia Pontes*

232_cartaCriada por minha tia, carinhosamente apelidada de “Bebé”, desde muito pequena tive contato com a miséria e seus respectivos males. Dentre eles, a fome, um dos piores que já vivenciei. Felizmente, tive sempre uma imagem substituta de mãe que fazia o que podia para não tornar a fome nossa companheira. Sempre com arroz e ovo no prato – quando sorte, tínhamos uma galinha – íamos levando a vida.

Quanto à minha educação, usava papel de embrulho como caderno, ponta de lápis de outros alunos para escrever e o próprio dedo como borracha. Era a época da palmatória. Às vezes não almoçava antes de ir à escola por falta de tempo, quando cursava a quarta série na cidade de Cedro, minha terra natal. Passava, muitas vezes, as três primeiras horas de aula pensando na merenda servida pela escola no intervalo. Geralmente, era a única refeição do dia.

A falta de convivência com meus irmãos de sangue e minha mãe biológica me fez perceber como é essencial a família em nossa vida. Quando adulta, quis recuperar os laços que perdi no prefácio de minha vida: a maternidade e a fraternidade. Destaco minha família, pois sem ela não chegaria a lugar algum. Ela é minha base, meu forte.

Passada a infância, pulo para a fase dourada da vida: a adolescência. Como “menina do interior”, qualquer coisa acima de mãos dadas era considerada “pouca vergonha” em minha terra. Tenho belas memórias dessa época. Não muito depois, fui estudar no Seminário Batista do Cariri, em Juazeiro do Norte, onde cursei Educação Cristã por quatro anos. Infelizmente, desisti dois meses antes de concluir o curso devido a problemas pessoais, como o medo da arguição final, equivalente ao TCC II, que enfrentei na Terapia Ocupacional.

Conheci meu marido e só então me mudei para Fortaleza em companhia dele. Não demorou muito para vir a primeira maior alegria de minha vida: a primeira filha. Enita Maria nasceu e quatro anos depois veio sua irmãzinha – e também a outra maior alegria de minha vida – Francisca Amélia. Foi nesse contexto de matrimônio e maternidade que ingressei, aos 35 anos, em um local que mudaria minha vida para sempre: a Universidade de Fortaleza.

Ingressei no mundo universitário sem praticamente nada conhecer. Era uma dona de casa em meio a jovens antenados que, achava eu, possuíam conhecimento prévio intelectual muito maior que o meu. Era um mundo novo e diferente do qual estava familiarizada. Contarei agora algumas das mudanças que a Universidade, minha adorada Unifor, a quem dediquei pouco mais de sete anos de minha vida, fez em mim.

Foi na Universidade que abri os olhos para o mundo real, o mundo das críticas, das notícias, do conhecimento, das culturas diversificadas, da vida. Antes de entrar na Universidade, não acreditava que o homem havia ido à Lua. Para mim, aquilo era impossível. Como podia a Lua, um satélite natural tão distante, já ter abrigado por um breve tempo os pés humanos em seu solo? A Universidade mostrou-me que não, aquilo não era impossível, tanto quanto outras coisas que descobri também não serem.

Também na Universidade tive acesso a meu lado político, como presidente do Centro Acadêmico, tanto quanto a meu lado dramático, com a personagem Palhaça Zezé.

Admito que nunca fui a aluna exemplar em avaliações teóricas (nas práticas, tinha maior destreza). Passei por dificuldades em minha carreira estudantil, mas sempre conseguia forças vindas da fé. E foi nessas subidas e descidas, alegrias e tristezas, que concluí o curso de Terapia Ocupacional. Em 2013.1 comecei o trabalho de conclusão de curso. A pressão foi a barreira mais difícil a ser superada. Uma hérnia de disco ameaçou minha conclusão, levando-me quase ao desespero total se não fossem alguns anjos que Deus sempre pôs em minha vida.

No dia 24 de junho, soube que havia atingido a média exigida para a conclusão do curso. A emoção foi enorme. Chorei quase até minhas lágrimas secarem. A única de doze filhos de Expedita Gonçalves da Costa e de Domiciano de Souza Lima finalmente formada. Tampouco possuo tio ou mesmo primo formados.

Algumas pessoas jamais esquecerei e sempre lhes serei agradecida. Confesso que está sendo difícil – e suponho que assim será por um bom tempo – cortar o cordão umbilical da minha querida Unifor.

* Maria Zélia Pontes formou-se em Terapia Ocupacional na Unifor em julho passado. Ela enviou esta carta de homenagem para o email Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. .

 

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 232

 
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