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“A música é a régua do mundo”

com João Carlos Martins

João Carlos Martins é tido pela crítica internacional como um dos maiores intérpretes de Bach do século 20, de quem registrou a obra completa para teclado. O renomado pianista sofreu um acidente e depois foi vítima de uma doença que o fez perder parte do movimento da mão direita. Precisou por diversas vezes interromper a carreira e abandonou os palcos como pianista em 2002. Mas a forte ligação com a música o impulsionou a retornar, tornando-se regente aos 64 anos. Hoje, aos 71, segue sua busca constante pela excelência musical, agora aliada à responsabilidade social junto a crianças através da Fundação Bachiana. O maestro esteve no início do mês passado na Universidade para ministrar a palestra “A música venceu”, na qual sua fala foi intercalada com apresentação musical conjunta com a Camerata Unifor. Poucas horas antes do evento, João Carlos Martins concedeu entrevista coletiva. O Unifor Notícias esteve presente, e você confere os melhores momentos.

Você recorda qual foi seu primeiro contato com a música?
Aos 8 anos de idade, quando meu pai comprou um piano. Comecei a estudar e, seis meses depois, ganhei um concurso nacional de piano, tocando obras de Johann Sebastian Bach. Aos 13 anos, já iniciava minha carreira nacional e, aos 18, a internacional. Tinha um ambiente cultural muito forte em casa. Meu pai, minha mãe e os quatro filhos ouvíamos música clássica, fazíamos redações. O piano acabou sendo meu destino.

O senhor poderia falar um pouco sobre sua vida profissional?
Aos 13 anos, comecei uma carreira profissional muito forte, correndo o Brasil inteiro. E dos 18 aos 26 corri o mundo inteiro, fazendo concertos em praticamente todos os continentes, levando o nome do Brasil para Europa, Estados Unidos, Ásia, e sempre procurando o perfeccionismo aliado à emoção. Foi essa a minha busca até o primeiro acidente.

Houve um acidente e outros obstáculos. O que dizer das superações?
Aos 26 anos, eu estava no meio de uma carreira muito forte e sofri a ruptura de um nervo jogando futebol. Depois disso, começou uma série de obstáculos a serem ultrapassados na minha vida. Dos 26 até os 62 anos, foi uma luta contra as adversidades, mas sempre procurando voltar. Tive que interromper duas vezes a carreira. Nessas duas vezes, pensei em abandonar tudo, mas sempre alguma coisa me fazia lutar pela volta. Apesar de todas as dificuldades, consegui deixar no campo da música um legado, que foi a gravação completa da obra de Sebastian Bach para piano em mais de 20 CDs. Essa obra correu o mundo inteiro.

O que significa Bach para o senhor?
Bach foi o único computador com alma que existiu. O Bill Gates pode lutar, lutar, mas nunca vai ter um computador com alma. A cabeça de Bach era um computador. Ele é a origem, a síntese de tudo que aconteceu antes dele na música. E ele foi a profecia de tudo que aconteceu depois dele. Então Bach acabou exercendo influência no classicismo, através do barroco, no romantismo, no expressionismo, na música moderna, nos impressionistas. Ele foi a síntese e a profecia.

Qual a importância da música na construção do ser humano?
Villa-Lobos já dizia que não é um povo culto que vai julgar as artes, são as artes que mostram a cultura de um povo, e a música faz parte desse contexto. Eu brinco que a música é a régua do mundo porque, se o governo vai bem, todo mundo fala que funciona como uma orquestra; se há uma campanha contra um governante, se diz que há uma orquestração contra ele; se o time de futebol joga bem, todo mundo fala que joga por música. A música tem o poder de unir gerações, povos e comunidades. Se você estiver assistindo a um filme, uma história de amor por exemplo, e no final dessa história tiver um beijo entre os dois protagonistas, mas, se esse beijo não tiver fundo musical, perderá 90% de sua importância para o público. Isso é a música.

O senhor criou a Fundação Bachiana, que realiza projetos sociais associados à música para a população. Qual a importância disso?
Ainda no último sábado, eu regi crianças da comunidade de Suzano, em São Paulo. A música pode transformar vidas. E digo mais: a música pode salvar vidas, ela só traduz paz e amor. Os projetos sociais que eu tenho só me proporcionam emoções com as crianças. Hoje são cerca de 4 mil espalhadas principalmente pelo estado de São Paulo. Através dessas crianças, eu vejo a influência que elas exercem não só na família, mas em suas comunidades. Tenho certeza de que a música é um segmento da sociedade que realmente tem uma importância enorme, pois é através da música que você consegue transmitir principalmente a emoção. E esta é a finalidade, a meta da minha vida: transmitir emoção. Sempre digo que a gente só aprende a multiplicar depois de saber dividir. Adoro dividir emoções.

E como se deu esse convite de se apresentar na Unifor junto à Camerata?
Em 2008, tive a oportunidade de ver Dona Yolanda Queiroz receber o prêmio de personalidade do ano como brasileira pela Câmara do Comércio Brasil-Estados Unidos. No dia seguinte, ela assistiu com a família a um concerto meu no Carnegie Hall, em Nova York. E aí começou minha amizade com a família. Eu vim conhecer tudo sobre o Grupo. Dona Yolanda recebeu o prêmio pelo que ela significa não para Fortaleza, nem para o Ceará, mas para o Brasil. Apaixonei-me pela causa e pela família. A Unifor não é um negócio, é uma missão!

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 230

 

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