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Artigo | Gerenciamento de riscos em projetos: uma questão de sustentabilidade

por Sandra Freitas Ferreira Lima*

A palavra “risco” (uma das várias versões sobre sua origem) deriva do italiano risicare, que por sua vez advém do latim risicu, que tem o significado de “ousar”. Ousar é, portanto, uma opção, estando associada a um grau de incerteza que pode ter efeito positivo (ganho) ou negativo (perda), a depender das circunstâncias e consequências dela decorrentes.

No contexto das organizações, mais precisamente no âmbito de projetos e empreendimentos, convive-se constantemente com algum grau de incerteza. Se partirmos do entendimento de que projetos são implementações de mudanças, e que toda mudança pressupõe algum grau de risco, é razoável inferir que: riscos estão implícitos em projetos.

Peter Drucker oportunamente afirmou: “inovadores que alcançaram êxito não são assumidores de riscos, pois eles procuram definir os riscos que têm e minimizá-los o quanto for possível”. Essa é a postura adotada pelos que perseguem projetos exitosos e alcançam os objetivos propostos. Assumir riscos nem sempre é a melhor estratégia e fugir frequentemente aos riscos pode resultar em estagnação. Há, portanto, outras estratégias a serem adotadas diante do risco iminente.

Na definição do guia PMBOK (Project Management Body of Knowledge, 4. ed., 2004): “risco do projeto é um evento ou condição incerta que, se ocorrer, terá um efeito positivo ou negativo sobre pelo menos um objetivo do projeto, como tempo, custo, escopo ou qualidade”. O gerenciamento de riscos inclui um conjunto de processos cujo objetivo é maximizar a probabilidade e consequência de um evento positivo e minimizar a ocorrência de um evento adverso aos objetivos do projeto. Gerenciar riscos é o caminho através do qual a incerteza é sistematicamente gerenciada.

Gerenciamento de riscos não é assunto novo nem se limita ao gerenciamento de projetos. Há décadas, o lendário Murphy e suas leis infalíveis vêm provocando estragos de toda sorte. Há riscos de diversas naturezas e origens: riscos médicos, políticos, estruturais, ambientais, financeiros, sem falar nos riscos da inovação. Riscos podem ser assim classificados: puros (apenas de efeito negativo), desconhecidos (não gerenciados de forma proativa), ou conhecidos, para os quais é possível identificar, analisar e estabelecer uma estratégia de enfrentamento. Os riscos de projetos estão ligados a fatores como: risco técnico, organizacional, financeiros, disponibilidade de recursos, restrições dos stakeholders etc.

Alguns gestores se omitem do papel de gerenciar riscos, por amadorismo ou acomodação, e no entanto, é sabido, o mais grave de todos os riscos é não saber quais riscos estamos correndo. Mas o que justificaria adotar uma postura negligente quando o mais prudente seria utilizar recursos que poderiam assegurar maior grau de efetividade em nossos projetos e ações? O “custo da ignorância” constitui um pesado ônus e gera danos “impublicáveis” em projetos de grande envergadura: obras paralisadas, desperdícios de insumos, multas contratuais. Por sorte (ou seria por pressão?) isso está mudando e aos poucos se percebe uma atitude mais vigilante por parte de gestores que encontram no gerenciamento de riscos um forte aliado para consecução de projetos exitosos, na medida em que possibilita a antecipação de problemas a partir do conhecimento prévio de seus impactos e probabilidade de ocorrência. Gerenciar riscos, portanto, não é um recurso acessório, mas uma estratégia para assegurar a sustentabilidade de projetos e empreendimentos.

1. É impossível construir um projeto 100% seguro, da mesma forma que não existe o processo infalível. O objetivo central do gerenciamento de riscos consiste em inventariar e priorizar riscos antes que eles aconteçam, daí por que se diz que esta é uma abordagem preventiva. Uma vez mapeados os riscos potenciais do projeto, parte-se para a avaliação (qualitativa e quantitativa) destes, que são então listados em ordem decrescente, em função do grau de severidade ou índice de risco (probabilidade versus impacto). Para aqueles riscos de maior gravidade são estabelecidas algumas estratégias de enfrentamento, que incluem: aceitação, prevenção, transferência ou mitigação, no caso de riscos negativos.

Há uma diversidade de modelos, metodologias e técnicas para gerenciamento de riscos. Além do guia PMBOK, as normas ISO 31000 e 31010, por exemplo, elencam dezenas de ferramentas voltadas à identificação e avaliação de riscos. Mas gerenciar riscos, antes de ser uma questão processual, é uma questão cultural. Temos ainda muito o que aprender, por exemplo, com os japoneses, incansáveis vigilantes, a rever constantemente seu processo de gerenciamento de riscos, redefinindo políticas e os níveis de tolerância a riscos.

Aprendemos com os erros, e a história nos apresenta casos emblemáticos como o Titanic, as Torres Gêmeas, os desastres ambientais (Exxon Valdez, Golfo do México), os deslizamentos de terra no Rio, o incêndio da boate de Santa Maria. Esses episódios, é fato, não decorreram de mera fatalidade, mas de negligência, também. O fantasma da incerteza irá sempre rondar nossos projetos e processos, mas cabe a nós, gestores, especialistas ou usuários, agir com cautela e responsabilidade, mapeando os pontos falhos, analisando os impactos, estabelecendo planos de ação, enfim, fechando todas as brechas. Esta é, sim, uma questão de sustentabilidade, não apenas no plano técnico-econômico-político, mas, principalmente, no aspecto de valorização da vida, nosso maior patrimônio. E essa mudança tem início no plano pessoal. A propósito, você já agendou seu check-up anual?

* Sandra Freitas Ferreira Lima é mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e graduada em Tecnologia em Processamento de Dados pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Leciona em cursos de graduação e pós-graduação da Unifor e é coordenadora do MBA em Gerenciamento de Projetos. Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 230

 

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