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“Temos que popularizar a ciência"

com Ennio Candotti

228_entrevistaEnnio Candotti há tempos se dedica ao exercício e à divulgação da ciência no Brasil. Atualmente está à frente do Museu da Amazônia (MUSA) como diretor-geral. Candotti é físico pela Universidade de São Paulo, com especializações em Relatividade e em Sistemas Dinâmicos em universidade italiana. Foi professor das Universidades Federais do Rio de Janeiro e do Espírito Santo e por quatro vezes presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Em passagem por Fortaleza, o pesquisador participou da Conferência sobre Relações Exteriores, promovida pela Unifor em parceria com a Fundação Alexandre Gusmão, no fim do semestre passado. Em entrevista exclusiva ao Unifor Notícias, Candotti destaca a importância de se discutir ciência e torná-la mais prática e acessível aos jovens brasileiros.


Como o senhor avalia o progresso científico do Brasil nos últimos anos?
Candotti: Nós precisamos de dez vezes mais cientistas para enfrentar os desafios de um país que está entre os dez mais importantes do mundo. E temos grandes desafios, levando em consideração a extensão do nosso território e uma população significativa de 200 milhões de brasileiros. A densidade de cientistas ainda é pequena, ou seja, precisamos convencer nossos jovens a se interessar pela ciência e sobretudo aumentar o número de engenheiros, de sanitaristas, de jovens dedicados a realizações práticas. O cientista em geral é identificado como alguém que pensa em teorias, mas isso não é verdade. O engenheiro também é um cientista nesse sentido, mas ele está mais comprometido com o realizar. Isso repercute na indústria e na exploração de nossas vantagens naturais, dos recursos naturais renováveis. Portanto, há um espaço muito grande ainda. Outra coisa é o fato de nem todos os jovens brasileiros terem acesso à universidade. Se tivéssemos dez milhões de estudantes universitários, obviamente teríamos um leque de opções e de talentos. Não podemos pescar nossos melhores talentos em uma lagoa, precisamos pescar em um oceano. Teríamos muito mais vocações, uma riqueza muito maior de talentos se apresentando para a ciência. Porque a ciência é tão importante quanto a música ou a dança.

Dentro da realidade das universidades brasileiras, existem falhas na formação de cientistas?
Candotti: Não. Nós estamos numa fase de transição.
E precisamos de mais pessoas. A intenção é aumentar o volume. E precisamos ser cada vez mais exigentes em qualidade e capacidade de lidar com o conhecimento no mundo todo. A velocidade do crescimento da ciência que temos pode ser muito prejudicial ao desenvolvimento do país para os próximos anos. Então temos que tomar cuidado. Devemos aumentar o número de museus, de centros de ciências, de jardins botânicos, de planetários, de aquários. Temos que popularizar a ciência, aumentar o número de horas que a TV dedica às questões do conhecimento. Muitos relacionam “ciência” apenas a viagem interplanetária, telescópio, acelerador de partículas, e não é. Ciência está em saber se a água que estou tomando é potável ou não.

O senhor mencionou a criação de museus como medida de popularização da ciência. Qual é a ideia principal do Museu da Amazônia que está sendo implantado?
Candotti: Trata-se de um museu da floresta dentro da floresta. É como se você fizesse um aquário no mar e levasse as pessoas a visitá-lo, colocando-as em uma roupa adequada, e ao mergulhar elas pudessem ver os peixes, os corais e tudo que existe no fundo do mar. Na floresta não precisa se molhar nem colocar essa roupa, mas precisa de uma loção antimosquito. A ideia é levar o visitante para dentro da floresta e ver que lá existe um universo de vida de coisas formidáveis que nós, a olhos nus, não percebemos. O museu seria isto: entregar um par de óculos a quem deseja se aproximar do mundo encantado da floreta.

O MUSA já começou a funcionar?
Candotti: Estamos começando. Você encontra em www.museudaamazonia.org.br as exposições que inauguramos sobre as armadilhas de pesca do Alto Rio Negro construídas pelos próprios artesãos indígenas. Explicamos como eles pescam, o que significa o peixe para um índio tucano. Tentamos aproximar os estudantes às culturas indígenas e as culturas indígenas aos visitantes e descobrir que temos um mundo com uma história cultural muito rica e viva que podemos conhecer.

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