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Triangulação de métodos de pesquisa

com Cecília Minayo

227_ceciliaminayoCecília Minayo é pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), onde coordena o Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (CLAVES). Doutora em Saúde Pública e formada em Sociologia, Ciências Sociais e Antropologia Social, Cecília é conhecida por triangular métodos quantitativos e qualitativos de pesquisas acadêmicas, defender a democratização do acesso a publicações científicas e inserir a violência como objeto de estudo da saúde pública. Ela esteve na Unifor para o IV Seminário Internacional de Promoção em Saúde no final do ano passado e concedeu entrevista ao Unifor Notícias.


Como a senhora começou a estudar a triangulação de métodos quantitativos e qualitativos? Qual a importância disso para a qualidade da pesquisa acadêmica?
Cecília: Na verdade, esse trabalho de triangulação vem da prática, pois eu faço pesquisa há mais de 30 anos. Meu campo de estudo sempre foi o das ciências sociais, particularmente o da pesquisa qualitativa. No entanto, comecei trabalhando com epidemiologistas e bioestatísticos. Os estudos epidemiológicos são predominantemente quantitativos, e a partir disso eu comecei a ver que era possível tratar as questões sob os dois pontos de vista. A pesquisa quantitativa nos ajuda a ter uma dimensão dos fatores e nos dá uma visão de amplitude dos problemas, a partir de uma variável criada pelo próprio pesquisador. Por exemplo: se ele quer estudar sexo, ou estudar idade, ou estudar a cor da pele, ou estudar os estudantes que têm bom desempenho ou os que têm mau desempenho, e assim por diante. A pesquisa qualitativa tem um caráter exatamente oposto, pois não está preocupada com a amplitude, e sim com a compreensão. A base da pesquisa qualitativa é o significado, e, para compreender o que significa determinado fator para as pessoas, eu não vou olhar as dimensões estatísticas, e sim ouvir as pessoas. Então, se eu puder triangular essas informações, isto é, obter ao mesmo tempo uma magnitude da questão e a compreensão desta a partir das pessoas que vivenciam, eu vou ter uma visão mais complexa e profunda do fenômeno. Muitas vezes você faz uma pesquisa qualitativa e dentro dessa pesquisa surgem outras perguntas de cunho quantitativo. Eu posso fazer essa triangulação de informações já partindo inicialmente e intencionalmente para isso, como também fazer uma triangulação a posteriori. Há um pesquisador qualitativista americano chamado Norman Denzin, que há muito tempo fala que, quanto mais se triangulam olhares para um mesmo problema, mais se pode ter uma compreensão melhor sobre ele. Depois de trabalhar três anos acompanhando um projeto, triangulando o olhar quantitativo e o qualitativo, resolvemos publicar o livro “Avaliação por triangulação de métodos: abordagem de programas sociais” (Fiocruz, 2006), que é uma teorização sobre essa triangulação.

O método de triangulação pode ser aplicado em qualquer campo do conhecimento?
Cecília: Na maioria dos campos do conhecimento, você pode trabalhar dessa maneira. Vamos pegar um exemplo: a engenharia é toda baseada em matemática, mas ela é utilizada pelas pessoas e para as pessoas. Quando são feitas casas populares, por exemplo, o desenho é absolutamente econômico e a cozinha é minúscula, e as pessoas de baixa renda gostam de se reunir na cozinha. Seria muito importante ter esse conhecimento antes de fazer a casa. Talvez a sala não seja importante, mas a cozinha e os quartos são. Se eu não tenho o conhecimento do que as pessoas precisam, certamente vou ter algum problema quando puser em prática o projeto.

A senhora é conhecida por lutar pela democratização da ciência. Como se faz isso?
Cecília: Pensei no assunto muito mais do que eu estou fazendo (risos). Vou exemplificar com o que conheço. Nos Estados Unidos, quando é publicada uma revista, o jornalista responsável faz um release daqueles artigos que foram publicados e fala com a mídia para divulgá-lo. Então há uma popularização nesse sentido. Há outro tipo de popularização também feito por algumas revistas americanas em que são selecionados os artigos com linguagem técnica que podem ser utilizados para a graduação, e então se pegam os autores para fazer uma simplificação da linguagem para o público geral. Então a popularização pode ser feita em dois sentidos: divulgar as publicações científicas e simplificar a linguagem das publicações para o público geral. No site da Revista Ciência & Saúde Coletiva, da qual sou editora-chefe, o visitante tem acesso aberto a tudo que publicamos no periódico desde que a revista começou. Nós fazemos chamadas para as várias mídias, com releases e listas de artigos. Também fazemos releases para a Scielo, que é uma base de dados de artigos científicos. Outra forma de divulgação são as próprias conferências e seminários que fazemos, pois em geral tudo é aberto, mas é óbvio que os maiores frequentadores são os universitários. A popularização da ciência é fundamental para nosso país, pois ela está integrada à vida social. Nós ainda não temos muitos instrumentos, como museus interativos, e essas tecnologias são a vanguarda de qualquer país. Esse contexto só vai melhorar com a educação, pois na verdade essa consciência já deveria começar desde o jardim da infância. A população precisaria entender um pouco mais o que é a ciência e a importância dela para reivindicar a implantação de museus, por exemplo.

Como a violência no Brasil passou a ser estudada do ponto de vista da saúde?
Cecília: Dados epidemiológicos começaram a mostrar que, no Brasil, à medida que caíam as taxas de mortalidade por doenças infecciosas, cresciam vários tipos de outros agravos, entre eles a violência. Na população jovem, a violência era e continua sendo a primeira causa de mortalidade, então se percebeu que era uma questão de saúde pública. Essa constatação já havia sido feita por alguns pesquisadores, mas isso não tinha uma focalização; esse enfoque começou com um trabalho do Ministério da Saúde convocando uma comissão para discutir o tema e me escolheram como presidente. Antes disso, a Fiocruz já havia criado o CLAVES e me convidou para coordenar esse centro. Essa comissão formulou uma política. Nós começamos a trabalhar em 1998, e ela foi promulgada pelo Ministério da Saúde em 2001. Hoje a violência é um tema consagrado de saúde pública. Foi muito difícil devido à delicadeza do tema. Violência não se cura com remédio e vacina.



Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 227

 

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