Banner

Ser ou Parecer

por T. Lisieux Maia*

225artigoEstudei em um colégio que nos apresentava uma educação rígida e competente, ética e reflexiva, séria e afetuosa. No pátio do recreio, no alto da parede, havia escrito em letras graúdas a frase: “Deus me vê”. Sempre que lia este aforismo, ele me levava a refletir que a importância de ser uma boa pessoa é mais importante que apenas parecer. O incrível é que, ainda hoje, lembro desse pátio, dominada pela certeza de que, seja qual for a situação, é bom ser bom.

Lendo “A República” de Platão, obra que ultrapassa seu próprio tempo com sua grandeza e atualidade filosófica, me deparo com a Lenda do Anel de Giges, sobre um pastor da região da Lídia, na Grécia antiga. A narrativa de Platão nos conduz a uma reflexão sobre a questão do ser ou apenas parecer uma pessoa justa e de caráter firme. A lenda nos conta que o jovem lídio ao pastorear seu rebanho de repente se encontra no meio de uma violenta tempestade seguida de um terremoto abrindo-se em consequência uma fenda enorme no solo. Curioso que o pastor desceu ao fundo do precipício descobrindo com grande assombro um cavalo de bronze oco e com largas rachaduras em seu corpo deixando ver maravilhas em riquezas no seu interior e ao lado um cadáver de tamanho incomum para um homem. Trazia na mão um anel de ouro do qual se apoderou partindo sem nada mais levar. Em seguida se encaminhou para a reunião dos pastores e lá, inadvertidamente, girou o engate do anel para a direita e depois para a esquerda percebendo após algumas repetições desse gesto que se tornava invisível ao olhar dos outros. Ciente disso, usou esta prerrogativa para agir de modo torpe e cruel, em nada o diferenciando do mau.

Platão nos leva a pensar sobre ser justo e bom, ou simplesmente parecer justo e bom. Todo indivíduo acha que parecer injusto é mais vantajoso do que ser justo? A extrema injustiça para o filósofo grego consiste em parecer justo não o sendo, enquanto o justo, simples e generoso deseja não parecer, mas ser justo e bom e se manter assim inabalável até a morte. Quem é o mais feliz dos dois? Deixemos com a consciência de cada um a resposta.

O que aprendi é que a firmeza de caráter deve ser formada desde a infância e com muito cuidado. Não apenas porque Deus me vê, mas porque a educação deve ser tingida de cor púrpura, bem preparada no tecido branco e na tinta para que o tempo não venha a desbotá-la em nenhuma circunstância. De posse do conhecimento, cada um deve fazer suas escolhas na hora da ação.

Ao não imprimir a marca da educação e agindo de modo a tentar enganar-se a si mesmo apenas parecendo bom, terá cedo ou tarde a certeza de que Deus nos vê a todos e em todo momento.

A firmeza do caráter que foi tingido com cuidado, forjado na educação das virtudes, modela a alma com a marca indelével que o educador imprimiu.

* T. Lisieux Maia é mestra em Filosofia Contemporânea pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e professora de Filosofia na Unifor. Publicou os livros “Metodologia básica”, “Reminiscências de Sócrates”, “Que é filosofia? (ou ainda, filosofar?)”, “Metodologia científica: produção de texto técnico”, os artigos “Nietzsche: a fronteira entre o ateísmo e o agnosticismo” e “Antígona: o trágico da ação e o aprendizado de si”.



 

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 225

 

Unifor Notícias | Portal Unifor | Fundação Edson Queiroz
Estude na Unifor | Central de Atendimento | Twitter
Fundação Edson Queiroz todos os direitos reservados