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“Eu me sinto servindo ao país”

com João Candido Portinari224_portinari

João Candido é o único filho de Candido Portinari, o grande pintor brasileiro. Ele é doutor pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. Cursou Matemática no Lycée Louis-Le-Grand e na École Nationale Supérieure des Télécommunications em Paris, onde se formou como engenheiro de telecomunicações. Regressou ao Brasil a convite da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) para ajudar a fundar o departamento de Matemática daquela instituição. Após 13 anos de atividades acadêmicas, fundou o Projeto Portinari com o objetivo de reunir e divulgar o que as obras de seu pai têm de melhor. Em 2004, fruto da pesquisa sobre a obra e vida do artista, lança o Catálogo Raisonné de Portinari e ganha com ele, no ano seguinte, os prêmios Jabuti de literatura e Sérgio Milliet. João Candido também escreveu vários livros sobre Portinari, com destaque para “Menino de Brodowski”. Nesta entrevista ao Unifor Notícias, ele fala sobre o convívio com o pai e as várias dificuldades encontradas ao longo dos 33 anos de Projeto Portinari. A dedicação exaustiva, garante ele, é antes de tudo um serviço ao país. “Me vejo movido por um sentimento de cidadão brasileiro”.

Unifor Notícias: Devido ao envolvimento de Candido Portinari com o Partido Comunista, ele não foi convidado para a inauguração dos painéis na ONU. O senhor pode comentar o fato?
João Candido: Meu pai pagou um preço alto muitas vezes por suas ideias progressistas, pelo seu desejo de que houvesse menos desigualdade social, mais fraternidade e menos violência. Quando terminou a 2ª Guerra Mundial, a grande maioria dos intelectuais e artistas brasileiros se filiou ao Partido Comunista. Temos inclusive uma foto em que o Portinari está recebendo o carnê do partido das mãos de Luís Carlos Prestes, e sentado ao lado, sorrindo, está Graciliano Ramos. E todos: Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, toda aquela gente entrou para o Partido [Comunista]. Tem um texto de meu pai que diz que o Partido Comunista parecia ser a última alternativa para o nazi-fascismo, a esses regimes violentos e ditatoriais. Aquilo era o caminho natural para quem já tinha uma vocação humanista e ética como ele. É uma história que trouxe para ele o ônus de morrer sem ter tido a emoção de ver seus painéis erguidos na ONU. Temos a carta de uma assistente de Portinari, Rosinha Leão, escrita para o então embaixador [Rubens] Ricupero. Ela conta que ficou chocada porque não havia um jornalista, um artista na inauguração. Só tinha os diplomatas, os burocratas e o secretário geral da ONU. Nós estamos falando de 1957, em pleno Macartismo, e havia a Guerra Fria. Os ideais de esquerda para os Estados Unidos eram demonizados e as pessoas, perseguidas. A ONU não eram os EUA, mas sofria muita influência americana não só por estar no território americano, mas também por serem eles seu maior financiador. Eu compreendo que devia haver uma questão muito delicada.

Unifor Notícias: E é verdade que os painéis ficaram empacotados no porão da ONU por mais de um ano antes de serem inaugurados?
João Candido: Sim. Temos no acervo documental do Projeto Portinari recortes de periódicos, documentos, cartas que contam inclusive que houve uma revolta. Saiu uma matéria no Correio da Manhã propondo que não entregassem os painéis, dado o descaso. Houve várias versões. Eu me lembro de meu pai muito aflito por receio de que os painéis pudessem se deteriorar por estarem em caixa há mais de um ano. Houve um momento que a ONU cogitou destinar aquele espaço de Guerra e Paz para Picasso, e aí criou-se uma grande polêmica pela projeção de Picasso. A diplomacia brasileira foi muito firme e disse que não admitiria mudança de local. A mudança de local implicaria, inclusive, outro trabalho. Teve uma versão também de que os Estados Unidos teriam convidado Portinari, mas teriam colocado a condição de que ele se declarasse não comunista. Evidentemente, ele se recusou. Um homem com a integridade dele jamais aceitaria uma coisa dessas. Existe um trabalho muito hábil de um grande diplomata brasileiro, embaixador Jaime de Barros, que escreveu a autobiografia de Portinari num livro que se chama Chão de Vidro, em que ele conta os detalhes dessa história toda. Foi um período de muita angústia até ver os painéis erguidos na ONU.

Unifor Notícias: O senhor comentou em um vídeo que, em 1978, visitando o museu Van Gogh, na Holanda, caiu a ficha de que o Brasil tinha um grande pintor nacional que estava invisível e que dali nasceu a ideia do Projeto Portinari. O senhor pode nos contar sobre esse momento?
João Candido: Já chegando próximo a 1978, eu estava numa crise existencial, me perguntando: 'cadê meu Brasil, cadê aquelas coisas que me eram tão queridas na cultura, na arte?' E próximo a esse ano já começava a surgir pelo Brasil uma grande ânsia de abertura em todas as áreas, no cinema, na música. É no bojo desse movimento que eu vou à Holanda numa viagem de lazer e, chegando ao museu Van Gogh, que eu já tinha visitado algumas vezes na companhia de meu pai quando era pequeno, me caiu a ficha. O museu tem quatro andares de Holanda; é aquela nação na visão de um grande artista nacional. As pessoas estavam se acotovelando – crianças, velhos, ricos, pobres – e eu pensei: 'o que é realmente que eles estão buscando aqui?' Porque não me parecia que, pelo menos a maioria do público, era uma coisa erudita, de olhar para uma pintura, comparar estilos, pensar na história da arte, entende? Nada disso. Caiu a ficha de que eles estavam ali para ganhar uma injeção na veia, uma injeção de identidade. Eles estavam convivendo com um grande testemunho da alma holandesa, vendo o que significa ser holandês, o que os diferencia das outras nações, aquilo tudo estava ali. E aí me deu uma sensação de tristeza saber que no Brasil nós tínhamos um artista que tinha revelado o país em todos os seus aspectos e que a obra dele continuava invisível.

Unifor Notícias: Existiu um momento místico naquele dia no museu Van Gogh?
João Candido: Ah, existiram vários momentos místicos (risos). Eu sou aquariano e me considero profundamente místico. Estou sempre com o ouvido atento ao que não está aparente. Sempre teve uma voz. A sensação é que não é apenas uma voz. Eu sinto que tem todo um grupo: Manoel Bandeira, Drummond, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Villa Lobos, toda essa gente que está lá em cima mexendo os pauzinhos. E toda vez que eu me defronto com uma grande dificuldade, e eu me defrontei com muitas nestes 33 anos, surge como por milagre um caminho como se alguém dissesse: 'vai por aqui', e a coisa dá certo.

224_portinari1Unifor Notícias: Para implantar o projeto, o senhor teve de abandonar suas atividades como professor da PUC e a matemática. Foi difícil?
João Candido: Foi muito difícil. Eu sempre tive paixão pela matemática e uma relação extraordinária com meus alunos. Até hoje, quando encontro um aluno meu, o olho dele brilha. Vou dar um exemplo para você ter uma ideia. Eu tinha dois alunos numa turma que se chamavam Homero e Heródoto. Um deles estava passando muita dificuldade com os estudos. Houve uma prova, e ele estava correndo risco de ser jubilado. E essa história me foi contada recentemente por Homero. 'Você se lembra do Heródoto? Pois eu vou contar uma passagem com ele'. Ele estava fazendo a prova e, quando o Homero olhou, o Heródoto estava suando frio. 'Você quer uma ajuda?' 'Na prova do João, eu não colo'. Isso foi o maior elogio que eu recebi na minha vida. E ele foi jubilado. Anos depois ele se tornou engenheiro, teve sucesso. Passou esse perrengue, mas não deu o braço a torcer. Eu tinha uma relação fantástica com os alunos, e isso me dói muito. E também ter largado a matemática, que desde criança eu sempre gostei.

Unifor Notícias: O Projeto Portinari é muito grande e já dura 33 anos. O senhor pensou alguma vez em desistir?
João Candido: Muitas vezes. Enfrentei muitas dificuldades, você não tem ideia. Logo que eu voltei da Holanda, voltei decidido a fazer o projeto. E aí, é claro, a primeira questão era a financeira. A quem eu vou recorrer para formar uma equipe? Pensei: 'o lugar que eu tenho que me dirigir é a Funarte [Fundação Nacional das Artes]'. E dentro da Funarte havia o Inape, Instituto Nacional de Artes Plásticas. Eu pedi uma audiência ao diretor do Inape. Eu me lembro como se fosse hoje, era agosto de 1978. Ele sentado, e sabe quando você está falando com uma pessoa e sente que ela está completamente alheia? Engoli seco e continuei. Ele diz: 'Olha, João Candido, seu projeto é muito interessante, mas volte em março porque estamos sem formulário de pedido de auxílio'. Foi assim, não é piada não. E fiz mais duas ou três incursões na área da arte e cultura e constatei que não era por ali. Fui procurar meu pessoal de ciência e tecnologia. Fui procurar José Pelúcio Ferreira, então presidente da Finep [Financiadora de Estudos e Projetos]. Eu comecei a falar, e ele disse: 'Vamos apoiar'. E aí, com a mão da Finep, nós iniciamos o projeto. A PUC não tinha espaço, e consegui uma salinha na Casa de Rui Barbosa. E a gente funcionou o primeiro ano ali. Depois conseguimos um espaço na PUC. A Finep nos anos do Collor foi descaracterizada e retirou o apoio, houve muitas dificuldades. Felizmente, os 25 anos de trabalho de formiga resultaram no primeiro catálogo Raisonné da obra de um artista latino-americano. Foi um catálogo inteiramente produzido por brasileiros. Nunca pensei que fosse ver esse trabalho concluído em vida. Isso é trabalho para quarenta anos. Foram 25 anos dedicados a coletar informações não só sobre a obra, mas sobre a vida, a época. Fizemos também um programa de história oral que tem 130 horas gravadas com contemporâneos.

Unifor Notícias: A equipe do Projeto Portinari era e é formada por quantas pessoas?
João Candido: As equipes foram variando até por questão de insegurança financeira. O único momento em que a gente viveu certa estabilidade financeira foi quando a gente era da Finep. Quando a Finep retirou seu apoio, nós entramos numa fase que persiste até hoje de grande insegurança financeira. E muitas pessoas que tinham compromissos familiares, temores financeiros foram embora. Inclusive pessoas preciosas que tinham ficado alguns anos lá conosco. A equipe mínima nos períodos de muita crise foi de 6 pessoas. Hoje a gente tem umas 15. É claro que o Projeto ganhou visibilidade e credibilidade nacional e até internacional hoje. Eu recebo solicitações e consultas de todos os lugares do mundo. O projeto, embora continue muito modesto em seu espaço físico, no tamanho de sua equipe e em seu orçamento, por outro lado adquiriu uma dimensão muito grande.

Unifor Notícias: Passados os 25 anos de catalogação e organização, o Projeto hoje está com outros objetivos?
João Candido: Continuam aparecendo obras, mas cada vez com menos frequência. Quando nós terminamos esse trabalho de 25 anos, surgiu a questão crucial: 'e agora?' Algumas pessoas me disseram: 'João, agora você coloca o pijama e vai para casa'. E eu disse: 'Pelo contrário, agora é que vai começar'. A gente reuniu esses conteúdos, que foram exaustivamente pesquisados e cruzados entre si. Então nós temos um material extraordinário para motivar pesquisas em todas as áreas: literatura, história, antropologia, artes e até nas áreas tecnológicas pelas soluções que nós encontramos.

Unifor Notícias: A que você atribui o Projeto ter sobrevivido por tanto tempo?
João Candido: Devo isso ao fato de o Projeto ter nascido e ter ser sido criado numa universidade. No Brasil, eu não sei por quê, a maioria dos projetos culturais passam ao largo das universidades. O convívio cotidiano com colegas de todas as áreas do saber permitiu que a gente incorporasse ao Projeto Portinari inovações praticamente na hora em que elas surgiam. O colega da informática que eu encontrava no bandejão dizia: 'João, sabia que surgiu ontem um algorítimo de banco de dados que podia ser legal para vocês?' Um outro colega físico: 'João, eu li um artigo ontem da Polaroide em que eles descobriram uma maneira de como preservar o slide colorido'.

Unifor Notícias: Como foi que vocês lidaram com a preservação do slide colorido e com o avanço tecnológico de uma forma geral?
João Candido: Passamos 20 anos fotografando no mundo inteiro obras de Candido Portinari, e o único registro visual colorido era perecível. Isso era nossa grande aflição. Fui à Kodac, fui ao Instituto de Tecnologia de Richester, um dos maiores especialistas em fotografia, fui à Polaroide em Boston. Realmente entramos fundo na história da preservação e chegamos à conclusão de que não havia nenhum método analógico que pudesse nos socorrer, por isso entramos numa coisa que na época era absolutamente inédita: o mundo digital. O Projeto Portinari tem a mesma idade da indústria de microcomputadores. Quando a gente pensou que a solução para preservar os slides era a digitalização, não existia um único scanner no Brasil. Nossa primeira experiência foi um scanner da IBM da Venezuela. Imagina você que devia ocupar quase essa sala toda. Foi uma emoção ver o desenvolvimento científico e tecnológico extraordinário nestes 30 anos e a gente acompanhar isso passo a passo, trazendo para dentro da execução do Projeto tudo que pudesse ser de nosso interesse.

Unifor Notícias: 95% das obras de Portinari estavam em acervo particulares. Como foi esse processo de recuperação e catalogação desse acervo?
João Candido: (risos) A primeira situação foi a mais dramática de todas: você está começando um projeto e não tem nenhum registro do paradeiro das obras. Como é que você vai fazer para chegar ao conhecimento de alguém que mora numa cidadezinha do Piauí, por exemplo, que tem uma obra, carta, fotografia, ou uma lembrança – e que tem um pequeno grupo na universidade interessado naquilo? Esse era o primeiro desafio. E aí aconteceram três coisas extraordinárias que mostram a solidariedade maciça da sociedade brasileira com o Projeto Portinari. A maior companhia aérea do Brasil na época era a Varig. Ela pagou as passagens durante quase dez anos da pesquisadora e do fotógrafo para o mundo inteiro: Finlândia, Tchecoslováquia, África do Sul, Canadá, a Europa toda, e mandou telex às agências Varig no mundo inteiro pedindo que em cada local a agência Varig funcionasse como uma sucursal do Projeto Portinari, identificando quem naquela região teria algum material de interesse para nós, ajudando na logística das entrevistas. Foi extraordinário, eu não imagino a Air France ou a Pan America fazendo o resgate de um pintor europeu ou americano. A segunda: a maior rede de televisão do país, a Globo, fez uma campanha de chamadas em rede nacional e em cada regional [da Globo] pedindo a colaboração do público. As chamadas foram veiculadas no intervalo das novelas e do Jornal Nacional de 1980 até 1984. Se você fosse pagar isso, seria incalculável, e as chamadas envolviam atores famosos do elenco da emissora. Era uma chamada de 30 segundos que mostrava alguma obra e no final dizia assim: 'Se você possui alguma obra ou documento, escreva para Projeto Portinari, caixa postal 500, Rio de Janeiro'. Caixa Postal 500 nós tínhamos conseguido com os Correios, era um número fácil de memorizar. Eu também não imaginaria as emissoras da França fazendo isso. E o terceiro exemplo, que também é extraordinário, foi o Itamaraty mandar uma circular a todas as missões diplomáticas brasileiras pedindo que cada local – embaixada, consulado, missão comercial – também funcionasse como sucursal do Projeto Portinari, como a Varig havia feito. Esses três exemplos foram para nós o oxigênio do Projeto.

Unifor Notícias: Depois que o senhor recebia uma carta, entre as 3 mil recebidas, dizendo que havia uma obra ou um documento relativo a Portinari, o que acontecia?
João Candido: A gente marcava uma entrevista com essa pessoa e ia um fotógrafo e uma pesquisadora. Geralmente era uma dupla. E aí você chegava lá e encontrava de tudo. Eu lembro uma vez que nós chegamos no Flamengo [bairro do Rio de Janeiro] e essa pessoa, que era o Fernando Mendes de Morais, tinha uma telinha desse tamanho assim [fazendo menção com a palma da mão], e você via que era uma coisa muito antiga, era uma cabeça de perfil. A pesquisadora foi olhar com a lente e estava escrito com a letra do meu pai: 'Meu 1º trabalho'. Imagina a emoção disso. Encontramos o Baile da Roça, que era uma obra que meu pai tinha procurado a vida inteira e morreu sem a emoção de reencontrá-la. E tem todo tipo de história que você pode imaginar. Tem o cara que se separou da mulher e não queria que ela soubesse que ele ficou com o Portinari, e por isso não queria nos receber. Tem a questão dos falsos... Aliás, nós enfrentamos gangues, bandidos tanto brasileiros quanto estrangeiros. Ontem mesmo eu recebo o e-mail de um leiloeiro americano dizendo que estava pondo a leilão uma tela do Portinari do tamanho daquela última lá [mostrando um quadro do tamanho 10 x 21cm] por 4.700 dólares. Eu olhei, e era um falso grosseiro. Escrevi na mesma hora para ele: 'Retire imediatamente essa tela porque ela é falsa'. E ele me respondeu agradecendo. Isso é o pão nosso de cada dia nestes últimos 33 anos. Tudo que você pode imaginar aconteceu, muitas coisas bizarras.

Unifor Notícias: Só o amor de um filho poderia ter essa persistência e essa coisa de se sobrepor a todos os obstáculos?
João Candido: Eu diria que foi a persistência de um brasileiro também, porque eu não me vejo fazendo o Projeto Portinari movido apenas pelo sentimento filial; eu me vejo movido por um sentimento de cidadão brasileiro que se viu em circunstâncias específicas que permitiram desenvolver esse trabalho talvez um pouco melhor do que uma pessoa que não tivesse tido essa vantagem. É claro que tem o componente pessoal, íntimo, filial, mas eu me sinto servindo a meu país. Uma vez um repórter estava me entrevistando e um colega perguntou para ele e eu ouvi: 'O que é esse Projeto Portinari?' Esse é um projeto para enaltecer a obra do pai dele. Eu disse: 'Espera aí, vamos corrigir'. Não se trata disso. A obra de Portinari é imortal. Não depende de mim nem de ninguém e vai ser cada vez mais importante. Não é para engrandecer Portinari, é para engrandecer o povo brasileiro, seu filho, seu neto, seu tataraneto, para dar acesso a elementos indispensáveis na formação cultural, sobre a história dele.

Unifor Notícias: O senhor é um homem da matemática. Como é sua relação com a arte? O senhor tentou desenhar?
João Candido: Quando eu era criança, pintava um pouquinho. Se eu estiver num botequim com você e se tiver aqueles guardanapos de botequim, pode ter certeza que eu vou estar desenhando.

Unifor Notícias: O senhor já mostrou seus desenhos para alguém?
João Candido: Não, não é nada que preste. Coisa de botequim. Mas é interessante a relação entre ciência e arte. A maioria dos matemáticos e físicos também tem uma relação muito forte com a música. Eu, por exemplo, toco violão desde os 13 anos e gosto muito de música. Tenho paixão por música, acordo ouvindo música. A música e a matemática são muito aparentadas, a pintura não. Embora eu tenha vivido a vida inteira em meio à pintura, eu não tenho a mesma sensibilidade para a pintura que eu tenho para a música. A música pode me deixar em lágrimas, mas é raríssimo uma pintura me tocar um tanto assim.

Unifor Notícias: Como foi sua relação com Candido Portinari?
João Candido: Quando eu era adolescente, meu pai estava no auge da fama, e isso era muito difícil para mim. Porque, ao mesmo tempo que era uma coisa boa, tinha um lado que não era porque eu não existia. Se eu fosse a uma festa, as pessoas apresentavam: 'Este aqui é o Davi, ali é o Pedro e aquele é o filho do Portinari'. Isso me esmagou, era uma presença monumental. Aquilo foi me oprimindo de tal forma que aos 18 anos eu fui embora de casa, fui para a França. Eu não falava de Portinari no exterior. Durante todos esses anos, inclusive os 13 anos da matemática, se você viesse puxar um assunto sobre Portinari comigo, eu desconversava.

Unifor Notícias: Era mágoa, professor?
João Candido: Não era mágoa. Era em primeiro lugar uma tentativa de criar um caminho meu, e na França eu era interno no Liceu e ninguém sabia quem era Portinari. E tem o aspecto também de que eu não me dava conta de quem era esse homem que estava na minha casa. Para te dar um exemplo: quando eu era criança, uma vez perguntei à minha mãe: 'Ô mãe, o pai não trabalha não?' 'Como não trabalha? Se ele fica aí pintando o dia todo'. Eu tinha até um pouco de vergonha de ter um pai diferente. Você sabe que adolescente não suporta ser diferente. Eu levei muitos anos para realmente me dar conta da dimensão daquela pessoa e artista. Na verdade, eu acho que só fui me dar conta quando eu comecei o Projeto Portinari. Outro exemplo: quando eu tinha meus 13, 14 anos, o que me interessava era jogar futebol de praia, pegar onda e namorar as meninas. E só. O resto para mim não existia. Então aquelas pessoas que frequentavam minha casa, que tinham aquelas conversas apaixonadas, aquilo para mim não tinha a menor importância. Um dia, depois da praia, eu entrava pela cozinha porque estava de calção de banho, e quando eu abri a porta havia uma multidão que tinha acabado de almoçar. E meu olhar bateu na varanda. Lá longe, tinha um cara sentado com meu violão. E eu pensei: 'esse cara vai desafinar meu violão'. E depois minha mãe me disse que era Villa Lobos (risos). Era alienação. Tudo isso foi um processo de vida longo, com muitas idas e vindas. Eu tinha um tio que eu admirava muito, que era professor de matemática. Esse tio [Pierry Lucy] teve uma influência muito grande. Ele começou a me ensinar matemática quando eu tinha uns 12 anos. E aí ele me convenceu a ir para a França. Mas primeiro vem à mente aquele sentimento de comunhão muito grande com meu pai. Quando eu vejo minhas fotos de criança, eu estou sempre no colo dele. Havia um carinho imenso que foi recuperado depois quando eu ia saindo da adolescência. Foi quase quando eu fui embora que a gente se reencontrou.

Unifor Notícias: Para a reconciliação, teve também um episódio em Israel, não foi?
João Candido: Quando eu tinha 17 anos, a gente foi para Israel e aquilo teve um impacto transformador na minha vida. Aquela vida de garoto de praia acabou ali. Quando eu vi aqueles jovens construindo uma nação e transformando um deserto em plantações, aquilo me tocou e eu mudei a tal ponto que passei a fechar a persiana da minha janela de frente à praia e usar uma luzinha de cabeceira para estudar. Logo depois fui para a França.

Unifor Notícias: Em fevereiro de 1962, quando seu pai faleceu, o senhor já havia se conciliado com ele, mas como era exatamente a relação?
João Candido: A gente se via praticamente uma vez por ano. Ou ele ia à Europa me visitar, ou eu ia ao Brasil. E aí nesse pouquíssimo espaço de tempo se fortaleceu uma admiração mútua porque ele tinha uma visão até um pouco mística sobre a ciência. E o fato de ter um filho candidato a cientista, digamos assim, ele se orgulhava muito disso. Ele falava para os amigos: 'Meu filho está estudando matemática, está estudando na França...' E a gente se aproximou. Eu me lembro que, numa das últimas vezes que vi meu pai, eu o levei para o planetário em Paris. E foi uma experiência muito emocionante. No planetário, a gente está sentado, e eles vão apagando as luzes, vão aparacendo as estrelas, e ele sempre teve uma paixão pelas estrelas como eu tenho também. E a música que ia tocando era o prelúdio de Lorenzo, de Wagner, que tem aqueles violinos todos, foi muito emocionante. Lembro que o levei para jantar num restaurante italiano em Montparnasse [cidade francesa] e tive a sensação de que eu o estava vendo pela última vez. E foi realmente a última vez. Pouco tempo depois, eu morava na casa do Brasil, na cidade universitária, e estava assistindo a uma peça de teatro quando me chamaram para atender o telefone. Era minha mãe, muito aflita, chorando. Ela disse: 'João, pega o primeiro avião que você puder porque seu pai está muito mal'. Peguei dinheiro emprestado com o diretor da cidade universitária e peguei o avião naquela noite mesmo. Chegando ao Rio, quando fui apresentar meu passaporte na imigração, o policial me disse: 'Meus pêsames'. Já estava nos jornais. Não havia possibilidade de você viver ali um sentimento de intimidade porque o país já estava tomando conta daquilo. O caixão saiu no carro dos Bombeiros. Nas ruas, tinha uma multidão. Aquilo por um lado me ajudou a suportar o golpe pessoal porque se transformou num golpe coletivo.

Unifor Notícias: O senhor tem três filhos. Algum dos três integra a equipe do Projeto Portinari?
João Candido: Minha filha mais velha, Denise, é psicanalista e trabalha no Departamento de Artes da PUC. Ela é muito bem-sucedida, é praticamente vice-reitora, mas não se envolve com o Projeto Portinari nem com Portinari. Ela tem um pouco a atitude que eu tinha de não me envolver com Portinari para criar meu próprio caminho. E meu filho, João Carlos, mais ainda. Ele é um autodidata que se tornou um grande técnico na área dos computadores da linha Apple. O celular dele não para, ele tem milhares de clientes. Meu investimento, nesse sentido que você está falando, é na Maria Candida, que tem 16 anos, mas eu jamais tentaria trazê-la ou influenciá-la. Isso tem de partir dela. Essa questão da sucessão está entrando na pauta com muita frequência, mas não está resolvida, não está nem sequer encaminhada. Meus dois filhos são do meu primeiro casamento. Estou casado com a Maria há 30 anos, e a gente teve a Maria Candida.

Unifor Notícias: Gostaria que o senhor fizesse um convite para as pessoas visitarem a exposição Guerra e Paz.
João Candido: Eu diria que nós estamos diante de uma grande mensagem humanista e ética que é Guerra e Paz e que está no centro das preocupações mundiais de hoje. A gente está vendo todos os dias tragédias em todos os lugares e violência em nossas cidades. Guerra e Paz é um chamado para um mundo diferente, um mundo de paz e fraternidade. Eu acho que as pessoas vão ficar muito sensibilizadas.


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 224

 


 

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