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Saúde vocal e as sutilezas de gênero: um enfoque sobre os docentes

por Christina Cesar Praça Brasil* e Tiago José Nunes de Aguiar**

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A maior parte da população brasileira é constituída por mulheres que têm conquistado espaços antes exclusivos do universo masculino. Se, por um lado, elas estão realizando sonhos, rompendo barreiras e contribuindo com a economia e o desenvolvimento do nosso país; por outro, uma sobrecarga de responsabilidades passou a disputar espaço na sua vida pessoal, social e profissional, gerando condições que podem contribuir para alterações de saúde, se não forem tomados os cuidados necessários.

 

Este artigo enfoca a saúde vocal das mulheres, uma vez que as políticas de saúde não contemplam programas de promoção da saúde vocal voltados ao público feminino, o que seria importante para favorecer o cuidado integral à mulher e preservar seu principal instrumento de comunicação. Não obstante, os cuidados com a saúde vocal são de fundamental importância para todos os profissionais da voz, sejam homens ou mulheres.

 

Historicamente, os problemas vocais mais relacionados à saúde da mulher estavam associados às alterações hormonais, ao período pré-menstrual, ao climatério e às intervenções cirúrgicas na tireoide. Nos dias atuais, a voz da mulher tem enfrentado outros desafios, como a adoção de hábitos de vida que envolvem o uso de álcool, fumo e drogas; profissões que demandam postura de liderança, estresse, uso intensivo da voz e contato com substâncias tóxicas; uso de medicamentos que podem interferir na fisiologia vocal; aumento da longevidade, dentre outros.

 

Na diversidade de contextos em que a mulher utiliza a voz, estão as professoras. No Brasil, as mulheres constituem a maior parte do público docente, sendo a Universidade de Fortaleza um exemplo, onde elas constituem 53% do corpo docente.

 

A voz é resultante da passagem do ar expiratório pelas pregas vocais, que vibram e produzem um som harmônico. Esse som passa pelas estruturas do aparelho fonador, é amplificado e “moldado” pela fala. Para que a produção vocal aconteça de forma saudável é necessário haver integridade anatômica e fisiológica.

 

Uma voz clara e saudável favorece uma melhor comunicação em sala de aula, fortalecendo vínculos, transmitindo segurança, além de motivar o aprendizado. Por outro lado, uma voz alterada pode causar nos alunos impressões indesejáveis, que podem prejudicar a imagem do professor e seu desempenho profissional. Os aspectos corporais aliados à voz não podem ser esquecidos, pois são recursos facilitadores que apoiam e ilustram a dinâmica vocal. As mulheres, ao possuírem maior facilidade para usar as expressões faciais e corporais, devem explorá-las a favor de seu desempenho profissional.

 

A educação de qualidade requer do professor uma preparação técnica que inclui fatores extrínsecos e intrínsecos. Os fatores extrínsecos incluem as metodologias de ensino, o material didático, o ambiente, as estratégias de avaliação, entre outros, para cuja aplicação a maioria dos professores passa por treinamento. Os fatores intrínsecos incluem aspectos de atitude, de  comportamento e de saúde. Dentre os fatores intrínsecos, merece atenção especial a voz, esse instrumento fundamental de trabalho que tem sido timidamente abordado nos programas de formação docente do nosso país, o que tem gerado problemas que podem culminar com o afastamento do professor da sala de aula ou com a diminuição da qualidade de ensino.

 

A realização de oficinas, cursos, campanhas e triagens vocais, bem como o incentivo para que o professor inclua no seu check up anual visitas ao fonoaudiólogo e ao otorrinolaringologista para acompanhamento da saúde vocal são estratégias interessantes que podem e devem ser implementadas em todos os serviços de educação. Na Unifor, já temos experiências que valorizam essa questão e oferecem aos professores e funcionários cursos e campanhas para a melhoria das condições vocais. Essas ações estão sendo sistematizadas ao longo dos anos e são muito bem avaliadas por todos os participantes.

 

Nesse contexto, é muito importante que professoras e professores mantenham uma rotina de cuidados para a manutenção da longevidade vocal. Dicas simples porém úteis incluem:

 

  • Levar uma garrafinha de água para a sala de aula para manter a hidratação vocal;
  • Usar roupas leves para facilitar a movimentação do pescoço e do abdômen durante as aulas, assim você evita que tensões indesejáveis prejudiquem a respiração e a dinâmica vocal;
  • Articular bem as palavras ao falar, assim você não precisa falar muito alto para ser compreendido;
  • Evite gritar ou falar muito alto durante a aula. Tente organizar a turma de forma que você se mantenha eqüidistante de todos. Caso não seja possível (em turmas numerosas), desloque-se durante a aula e mantenha-se sempre voltado de frente para os seus alunos;
  • Evite competir com o ruído ambiental. Lembre-se que a sua voz, muitas vezes, não consegue ultrapassar a intensidade de várias vozes ou outros sons mais fortes;
  • Evite falar debaixo do ventilador, pois ele dissipa as ondas sonoras da sua voz e pode causar maior esforço para a transmissão da mensagem;
  • Faça exercícios de aquecimento, antes, e desaquecimento, ao final, dos turnos de trabalho. Esses exercícios devem ser personalizados e melhoram bastante a performance vocal;
  • Se estiver em período gripal ou alérgico, evite muito esforço vocal. Utilize metodologias de ensino favoreçam uma maior participação do aluno;
  • As mulheres devem ficar atentas à sua qualidade vocal durante os períodos pré-menstrual e menstrual, quando pode surgir desconforto ao falar. Aumentar a hidratação e reforçar os exercícios de aquecimento e desaquecimento vocal pode auxiliar na melhoria desses sintomas;
  • Evite consumir alimentação pesada e indigesta antes de ministrar aula. Um processo digestivo complicado pode prejudicar a dinâmica respiratória e conseqüentemente a sua voz;
  • Nos períodos de maior cansaço vocal, não adianta falar baixo, pois isso gera tanto esforço quanto falar alto ou gritar;
  • Mantenha uma rotina de vida saudável, com boa alimentação e exercícios físicos freqüentes;
  • Fumo e álcool são grandes inimigos da sua voz. Evite-os;
  • Sprays e pastilhas só mascaram os desconfortos na garganta, portanto, se estiver com algum incômodo ou alteração na voz, procure um otorrinolaringologista ou fonoaudiólogo.

 

Há quem diga que a voz é o espelho da alma. De fato, a cultura popular tem toda razão, pois é possível decifrar o estado emocional ou de saúde de uma pessoa pela qualidade vocal. Portanto, é de fundamental importância para os professores conhecer bem esse instrumento de trabalho para que possam sempre refletir o melhor de si.



* Christina Cesar Praça Brasil é doutoranda do programa de pós-graduação em Saúde Coletiva em associação ampla UECE, UFC e Unifor. Possui mestrado em Distúrbios da Comunicação Humana pela Universidade Federal de São Paulo, especialização em Linguagem pela Unifor e em Ativação da Mudança na Formação pela Fundação Oswaldo Cruz. Christina é fonoaudióloga, professora titular da Unifor e chefe de gabinete da Reitoria desta Universidade.

** Tiago José Nunes de Aguiar é especialista em Voz e graduado em Fonoaudiologia pela Universidade de Fortaleza. É fonoaudiólogo clínico e responsável técnico do serviço de Fonoaudiologia do Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami). Ministra cursos e palestras sobre saúde vocal periodicamente.

 

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 223

 

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