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“Eleazar é insubstituível”

com Sônia Muniz de Carvalho

 

221_interna-sonia-munizSônia Muniz de Carvalho é uma grande musicista brasileira. Tem experiência como recitalista, camerista e solista de orquestra, tendo se apresentado em concertos e festivais de diversos países. Foi colega de artistas famosos como Jacques Klein, Jorg Demus, Arthur Moreira Lima, Eric Friedman, Sydney Hath, Frank Morelli, entre outros. É pianista formada pela Academia de Viena na classe de Dieter Weber e pela Universidade de Hartford, classe Paul Rutman, nos Estados Unidos. Seu nome é ainda mais conhecido quando vinculado ao do renomado maestro Eleazar de Carvalho, com quem foi casada por 25 anos. Sônia, juntamente com seu marido, criou e organizou os festivais de Campos do Jordão, Itu e Fortaleza. Desde 1999, dirige o Festival Internacional de Música Eleazar de Carvalho em Fortaleza. Para ela, uma questão de honra: “foi a última coisa que o Eleazar me pediu”. Sônia concedeu, em meados de julho, entrevista exclusiva ao Unifor Notícias, na qual fala sobre o Festival, música, talento e, claro, o companheiro, que ela diz ser insubstituível.

 

Unifor Notícias: O Festival Eleazar de Carvalho nasceu em Tanglewood, nos Estados Unidos. Como foi essa história?

Sônia: Eleazar, quando foi para os Estados Unidos, achou que fosse reger grandes orquestras. Ele tinha regido uma ópera importante e estava com muito cartaz, mas ele não sabia bem como era nos Estados Unidos. E viu a necessidade de estudar. Foi quando ele viu esse curso em Tanglewood. As inscrições já estavam encerradas, mas ele queria a todo custo ser aluno do Koussevitzky. Ele inventou que trazia uma mensagem do governo brasileiro. ‘Qual é a mensagem?’, perguntou Koussevitzky. ‘O meu governo pede que o senhor me dê cinco minutos do seu tempo. Se o senhor vir que eu não tenho talento, eu volto para o Brasil e vou viver da caça e da pesca’. Koussevitzky deu-lhe os cinco minutos. Eleazar teve tanta sorte que o maestro deu uma música, A Grande Páscoa Russa, de Nikolai Korsakov, que ele já tinha regido no Rio de Janeiro e sabia de memória. Quando ele terminou de reger, Koussevitzky disse ao seu assistente: ‘ponha o nome dele na lista de alunos do curso’. E assim ele ficou como aluno no Festival de Tanglewood. Eleazar foi aluno, depois assistente de Koussevitzky e substituiu Koussevitzky quando ele morreu. Ficou durante 17 anos como diretor do Festival de Tanglewood e aí trouxe para Campos do Jordão esse modelo. Vários anos depois, ele se afastou porque veio um político, queriam colocar música popular... e ele achou melhor se afastar. Depois nós fizemos o Festival na cidade de Itu, em São Paulo. O Eleazar fez quatro festivais, e eu fiz mais dois lá após a morte dele. Depois trouxemos para o Ceará.

 

Unifor Notícias: O Festival veio em 1999. Por quê?

Sônia: Eu faço o Festival Eleazar de Carvalho porque foi a última coisa que ele me pediu. Eu prometi que ia dar continuidade ao Festival. ‘E os meus meninos no Nordeste?’, ele indagava. A gente sempre tinha cem passagens aéreas. O presidente da Transbrasil, Omar Fontana, amava o Eleazar. Ele dava cem passagens em plena alta estação para os meninos irem para Campos do Jordão. O doutor Omar depois faleceu. ‘E como é que eu vou fazer? Vou levar o Festival para o Nordeste’. E tive uma receptividade muito boa. Eu já perdi muito dinheiro no Festival porque eu não ganho nada com isso. E se falta dinheiro eu tiro do meu. É uma loucura. Eu faço porque ele tinha tamanho entusiasmo por esse Festival.

 

Unifor Notícias: Já no Ceará, onde o festival ocorreu nos primeiros anos?

Sônia: Em Maracanaú. Eu tinha um alojamento fantástico, mas era muito caro e muito longe. Os professores reclamavam porque tinham que ir até Maracanaú. E, como o pagamento não é muita coisa, o que os atrai é a praia, ficar de frente para o mar. Para eles, isso dá uma vontade de vir. Eu não posso colocar os professores em Maracanaú, eu teria que pagar dez vezes mais. É uma coisa psicológica.

 

Unifor Notícias: E quando ele veio para a Unifor?

Sônia: O doutor Airton Queiroz [chanceler da Unifor] gosta muito de arte. Ele sabia que eu estava procurando um local para trazer o Festival para Fortaleza e ofereceu a Universidade. Fiquei muito feliz. O campus é muito bonito, tem uma excelente infraestrutura.

 

Unifor Notícias: Esses jovens instrumentistas passam por uma seleção para participar do Festival. Eles vêm de toda parte do Brasil?

Sônia: Tenho aluno do Chile, da Argentina, do Canadá, dos Estados Unidos. Quando eles vêm, eu falo assim: ‘é muito simples’. Tem aluno de São Paulo, de Minas. Ao total, são 150. Dormindo e comendo no alojamento, 100.

 

Unifor Notícias: Além de proporcionar aula com grandes musicistas, há o estímulo à arte. Como a senhora vê a importância do Festival?

Sônia: Cada ano eu estou seguindo esses meninos aqui no Ceará. O filho dessa senhora [uma senhora cumprimentou Sônia durante nossa entrevista] já está na Espanha, um outro está fazendo doutorado nos EUA. Então o Festival está abrindo portas para muita gente.

 

Unifor Notícias: Quando foi que a senhora descobriu que queria seguir a carreira da música?

Sônia: Eu morava numa cidade perto de São Paulo e com dez anos comecei a estudar. Então me entusiasmei e resolvi me dedicar ao piano. Fiquei muito feliz com o convite do Eleazar porque minha carreira começou quando eu toquei na orquestra. Tocava em audições, mas concerto importante foi esse. Foi um concerto à noite. Eu me lembro das feiras do colégio Sacrecré, conseguiram uma permissão para eu ir ao concerto à noite. No colégio, quando eu entrei, todo mundo bateu palma. E aos 14 anos você ser tudo isso é estimulante.

 

Unifor Notícias: Como foi essa experiência de ter sido casada com um grande maestro?

Sônia: Maravilhosa, eu aprendi muito. Eu vi muita coisa ao lado dele que não se vê normalmente. A maneira de ser dele foi uma escola de vida. Ele foi um pai maravilhoso.

 

Unifor Notícias: Como vocês se conheceram?

Sônia: Aos 14 anos eu toquei com ele pela primeira vez. Depois toquei com ele algumas vezes em São Paulo, no Rio de Janeiro, mas nunca imaginei casar com ele. Eu tinha aquela idolatria pela figura musical que ele era, pelo que ele fazia pela juventude no Brasil na parte da música. Sempre tive certo contato com ele. Conheci a primeira mulher dele, foi minha vizinha em São Paulo. Tinha um carinho todo especial, uma admiração pelo que ele fazia. Ele subia degrau por degrau. Dizem que ninguém é insubstituível, mas acho que o Eleazar é insubstituível. Desconheço alguém que tenha essa capacidade de subir degrau por degrau e de não se prostituir. Ele não era louco por dinheiro, ele ajudava muito os pobres, os seus alunos. Tinha um coração muito grande. Ele demonstrava ser muito durão, mas não era.

 

Unifor Notícias: E o namoro?

Sônia: Eu sou viúva duas vezes. Eu me separei do primeiro marido porque ele bebia muito. Existe uma coisa que ninguém sabe. Eleazar se separou da primeira mulher dele no mesmo dia em que eu me separei do meu primeiro marido, sem termos nada a ver um com o outro. Podia ser na mesma semana, no mesmo mês... foi no mesmo dia! Não é arrepiante isso? A gente namorou no Festival de Campos do Jordão, em 1972. E eu pensei na época: ‘nossa, que felicidade encontrar o maestro aqui’. ‘O que o senhor está fazendo aqui?’ ‘Eu vim implantar em Campos do Jordão a parte acadêmica do Festival de Tanglewood’. Fiquei muito feliz e disse: ‘maestro, quero ajudar você’. Eu tinha acabado de chegar de Viena, fiquei encantada. E o maestro planejou. Ele sabia que eu conhecia a primeira mulher dele e só veio falar comigo depois que eu vi que ele não tinha mais nada com a mulher dele. Ele sabia que se fosse investir em mim antes eu ia dizer não. O Eleazar planejava todas as coisas.

 

Unifor Notícias: É possível ter uma boa formação em música no Brasil?

Sônia: Você pode não sair do Brasil e ter uma carreira em música. Mas a complementação no exterior faz parte. Eu lembro que toquei com Jacques Klein, que é também cearense, em um concerto. Eu toquei com ele a dois pianos, e sabe aqueles momentos felizes em que você sabe que tocou bem? Porque às vezes você toca mal não porque você é um mau pianista. Um dia você toca bem, outro dia toca mal, outro dia toca maravilhosamente bem. Depende. E esse concerto saiu lindo. E saiu uma crítica no jornal assim: ‘pétalas de rosa desfilaram sobre os teclados’. E o Jacques disse: ‘realmente precisamos de uma formação de fora’. A gente tem que sair do país porque isso é o clímax da coisa.

 

Unifor Notícias: O que dizer a um jovem aspirante a musicista?

Sônia: Estude e mostre seu talento, que uma hora alguém há de reconhecer. O Eleazar sempre dizia: ‘estudar, estudar, estudar’. Tem que ter a disciplina do estudo. Quem tem talento e estudo ninguém bate. Às vezes, a pessoa não tem talento e estuda e chega lá, mas não ultrapassa. O talento é isso: você tem que levar a ideia do compositor para o público. Você é o intermediário. Se você não tem o talento, você não passa aquilo do compositor. A música é como a linguagem. Ela vai crescendo, diminuindo... você tem que dar uma interpretação.

 

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