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Investigações sobre o ócio

por Clerton Martins *

 

221_interna-ocioNa sociedade voltada para os valores do trabalho, o ócio assumiu uma conotação negativa, pois estaria pressupondo a negação ao trabalho, repercutindo em um dos principais pilares do sistema capitalista: a produção de bens de consumo. Porém, ócio não é o “não fazer nada”, pelo contrário, é parte essencial da vida, e vida é atividade, não necessariamente produtiva para o sistema, mas sim para o sujeito que se elabora a cada momento no processo de ser e existir em suas possibilidades de vivência em experiências festivas, criadoras, solidárias, ambientais e lúdicas. A percepção sobre o ócio na sociedade contemporânea tem como base a retomada de seu sentido autotélico (fim em si mesmo) no qual se pode pensar a valorização de sua vivência como potencialmente geradora de cultura e identidade.

 

Ócio e trabalho, ao longo da história, sempre figuraram como atividades fundamentais para o ser humano. Mais recentemente, em função da forte influência da cultura laboral na modernidade, o ócio foi visto com menor relevância na vida das pessoas, numa perspectiva secundária em relação ao trabalho. No entanto, neste momento em que a família, a religião, a ação pública e o trabalho são questionados em seus respectivos traços hegemônicos na constituição da ordem social, como ocorreu em distintas etapas históricas, o ócio aponta ser, na contemporaneidade, elemento de destaque para a manutenção da coesão social.

 

A discussão, amparada por diversos grupos de pesquisas cadastrados no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), se coaduna com os interesses do Laboratório de Estudos sobre Ócio, Trabalho e Tempo Livre do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Unifor (Otium/Fortaleza). A ideia é direcionar a reflexão e a discussão a partir de experiências e estudos que tomam como base de observação a sociedade em suas construções sobre esse tema, assim como as consequências advindas de tais elaborações.

 

Os eixos dos debates são: as mudanças na concepção e compreensão da categoria Tempo Livre, que nos afeta em questões como; como enfrentamos e enfrentaremos o modelo econômico baseado na mercantilização, não apenas de produtos mas também de experiências; as mudanças nos sistemas políticos, as quais estamos convivendo e conviveremos em todos os âmbitos desde o global ao local; e como a forma de compreender o ócio se relaciona com as elaborações das subjetividades e estilos de vida.

 

O diálogo que se propõe atualmente sobre as temáticas do ócio, do tempo livre e do lazer, de acordo com as aproximações conceituais diversas, está caracterizado pela interlocução com outros centros de pesquisa e através da participação nos mais variados fóruns de discussão. Entre as articulações, podemos elencar: a Asociación Iberoamericana de Estudios de Ocio – Otium, (Espanha, Portugal e América Latina), o Núcleo de Estudos do Trabalho da Universidade Federal do Ceará, a Universidad Michoacana de S. Nicolau de Hidalgo (México), a Universidade do Estado de São Paulo (USP/Leste) e a Universidad Politécnica del Ecuador.

 

Recentemente, de 14 a 16 de junho, o Laboratório Otium/Unifor participou da 7ª edição do Fórum de Investigação, Pensamento e Reflexão sobre o Fenômeno do Ócio (OCIOGUNE 2012) na Universidade de Deusto, Espanha. O evento se constitui em um dos mais importantes para os estudiosos sobre o fenômeno do ócio na contemporaneidade. E podemos afirmar, a partir dos diálogos e pesquisas elaborados pelos grupos de pesquisas sobre ócio, que o Grupo Otium/Unifor-Fortaleza-Brasil, vem suprir uma necessidade de diálogo que há muito se convoca no âmbito brasileiro, pois busca investigar as representações sociais do ócio no contexto do país, assim como suas funções e práticas no referido âmbito.

 

A partir de uma abordagem multidisciplinar, os teóricos e pesquisadores dos estudos do tema possuem uma preocupação permanente com a aplicabilidade dos conceitos, com o retorno da pesquisa para a sociedade em busca da superação das limitações impostas ao indivíduo e à coletividade. Almeja-se ampliar e difundir os diálogos e reflexões sobre o ócio como fator essencial para o desenvolvimento humano e potencial transformador dos valores sociais.

 

* José Clerton de Oliveira Martins possui pós-doutorado pela Universidade de Deusto, Espanha, e é doutor em Psicologia e mestre em Recursos Humanos e Organizações pela Universidade de Barcelona, Espanha. É professor do programa de pós-graduação em Psicologia da Unifor, onde coordena o Laboratório Otium de estudos sobre ócio, trabalho e tempo livre. É também membro fundador da Asociación Iberoamericana de Estudios de Ocio (Otium), com sede em Bilbao, Espanha.

 

 

 

 

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 221

 

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