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A moda educa?

por Carlos Velázquez Rueda*

 

Reconquistar a terra santa foi a fantasia motivadora, invariavelmente frustrada, para os exércitos cruzados dos séculos XI a XIII. O que talvez ninguém suspeitava era que o avanço das cruzadas abriria rotas praticáveis entre feudos europeus e entre Europa e Ásia. Rotas estas que balizaram a prosperidade comercial das classes servidoras do sistema feudal. A burguesia, outrora a classe produtora de insumos básicos, desafi aria a ordem monárquica desde a posição empreendedora da nova ordem capital.

 

O estabelecimento de um sistema virtual de trocas, através de transações bancárias, em pouco tempo garantiu à burguesia o controle da nova economia, no entanto faltava à classe em ascensão o que a nobreza melhor ostentava: uma imagem condizente com esse poder. Não é de surpreender que as artes plásticas tenham passado, justamente nessa época, a ocupar um plano de importância nunca antes experimentado, uma vez que em grande medida se devotaram a enaltecer as imagens de seus financiadores. A figura do mecenas surgiu nesse contexto, da mesma forma que uma dinâmica de desafi os imagéticos entre burguesia e nobreza: a primeira, a assimilar (e tentar superar) acessoriamente os trejeitos da respeitabilidade; a última, a defender obstinadamente a imagem respeitável lavrada por longa tradição.

 

No século XVIII, Gottlieb Alexander von Baumgarten desenvolveu sua filosofi a da educação: a Estética. Nela, o filósofo procurou demonstrar que o conhecimento se obtém na conjunção das faculdades perceptivas e intuitivas, e não pelo exercício da lógica, como pretendia seu mestre Wolff . O Belo, na acepção de Baumgarten, tanto na arte quanto na ciência, corresponderia à aproximação perceptiva do ser com o mundo objetivo. No entanto, a disputa pela notabilidade, ainda hoje, entende a beleza como atributo acessório, e não como resultado de um processo educativo. A fi losofi a estética foi logo assimilada, no senso comum, como uma pseudofi losofi a do “bom gosto”.

 

Eis a moda: burguesia e nobreza disputam notoriedade com ostentosos vestidos, acessórios, títulos e liceus de boas maneiras, enquanto se tecem soporíferos discursos na intenção de outorgar legitimidade “estética” à sucessão de extravagâncias. Quando Gilles Lipovetsky afi rmou que não se pode pensar na moda como constante histórica, certamente pensava nas condições únicas de frivolidade e egolatria que defi nem a modernidade e os seus desdobramentos. A indústria pós-guerra dos grandes conflitos mundiais massifi cou a dinâmica da moda com o prêt à porter e consagrou seus princípios como fundamento da mais nova forma de economia capital: o consumo.

 

Consuma para ser notável; mas não queira notabilizar-se por que não consome. O investimento do desejo em acessórios que prometem “notável felicidade”, mas que, sem tê-la alcançado, tornam-se obsoletos perante novas promessas é a lógica da moda, que é a lógica do consumo. E a moda como estrutura de pensamento não se restringe ao vestuário: atitudes, formas de comunicação, gestos, movimentos sociais, políticas também respondem a ela. Aliás, por que na ciência há autores, temas doutrinas ou jargões que de alguma forma garantem concursos, participações em congressos ou fi nanciamentos de pesquisa? Por que na arte existem críticos, curadores, galerias ou circuitos a nos indicar o que é próprio apreciar no embalo das tendências? Não sei você, mas eu acho que também são modas.

 

A moda educa? A questão é simples: educar compõe-se de duas palavras latinas ex (fora) + ducere (conduzir), literalmente “conduzir para fora”. Para fora de quê? Para fora de si, da subjetividade para o mundo objetivo. Educar é preparar para o mundo, e esse preparo implica longos processos de experimentação e consumação de experiências. Como educar numa torrente de estímulos que se sobrepõem e atropelam, a despeito de qualquer consumação, no intuito único de manter a dinâmica de consumo? Como esperar que a moda eduque se seu poder de sedução foca o enaltecimento do indivíduo a despeito da organicidade da espécie perante o mundo? Mas é possível ser feliz fora da moda? São grandes obras científi cas ou artísticas possíveis a despeito da moda? Realizar-se como pessoa fora da moda? Acredito que sim. É preciso apenas ter sido educado.

 

* Carlos Velázquez Rueda é coordenador e professor do curso de Belas Artes da Unifor. Também ministra aulas no curso de especialização em Comunicação e Moda da Unifor. É doutor e mestre em Música Antiga pelo Concervatoire National de Musique du Raincy, França, e possui graduação em Música pela Universidad de Guadalajara, México, de onde é originário.

 

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 218

 

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