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“Só sei fazer se for assim”

com Lino Villaventura

 

218-lilo-venturaLino Villaventura é considerado um dos maiores estilistas brasileiros da atualidade. Tem renome internacional, mas diz não dar muita bola para isso. “A gente tem que valorizar o que é nosso. Sempre”, afirma.

 

É paraense, mas radicou-se no Ceará, onde trocou seu nome de batismo: Antônio Marques dos Santos Neto. Virou Lino Villaventura sob a “nomeação” do colunista social Lúcio Brasileiro. O nome, a princípio não bem aceito, foi depois registradoem cartório. Sua carreira começou por acaso, em 1975, quando fez um colete bordado para presentear Inez Villaventura, sua namorada na época. Depois choveram encomendas.

 

Lino ficou famoso por criar novas texturas, nervuras e patchworks em suas criações. Xuxa e Hebe Camargo são algumas de suas clientes famosas. Em sua loja em Fortaleza, um dia após seu desfile no Dragão Fashion Brasil 2012, Lino concedeu entrevista exclusiva ao Unifor Notícias.

 

Unifor Notícias: Você é um autodidata. Um curso superior em moda teria feito a diferença para você?

Lino: Eu não sei. Eu nunca fui disciplinado, eu nunca fui um bom aluno. E não tenho nenhum orgulho disso. Eu fiz Unifor, Engenharia Civil, e abandonei porque não ia dar certo nessa profissão. Mas eu acho que é importante fazer um curso universitário para ter mais conhecimentos técnicos. O grande cuidado que você tem que ter quando entra no ensino de maneira catedrática em um trabalho que precisa de tanta liberdade criativa e segurança é conseguir captar tudo que estão lhe passando e digerir de uma maneira muito própria, sem perder a identidade, a maneira de ver as coisas, mantendo a personalidade do olhar próprio. Eu não tive nenhuma formação e acho que para mim foi até bacana porque eu aprendi a fazer minha própria técnica, meu próprio jeito de modelar e montar uma roupa. Eu não sinto falta disso.

 

Unifor Notícias: Você faz pesquisa para as coleções?

Lino: Não. Eu sou curioso, gosto de ver aquelas coisas que me despertam a atenção, mas não tenho nenhuma obrigação de pesquisar sobre o império romano, por exemplo, para me inspirar nisso.

 

Unifor Notícias: No livro Lino Villaventura, da Coleção Moda Brasileira (editora Cosac Naify), algumas de suas coleções são ligadas a nomes famosos da arte e da filosofia como Francis Bacon.

Lino: Eu gosto de arte em geral: cinema, teatro, escultura, pintura. Gosto de saber o que acontece no mundo. Isso é diferente. Eu não vou fazer pesquisa para desenvolver um trabalho, eu aprecio arte para o meu prazer. Eu amo o trabalho de Francis Bacon. Eu homenageio alguns artistas, mas eu não fui atrás do quadro do Bacon para tentar captar alguma coisa do trabalho dele. Depois da minha coleção feita é que eu olho e digo ‘mas está a cara do Francis Bacon’ (risos).

 

Unifor Notícias: Então o processo é espontâneo?

Lino: Muito natural, muito espontâneo. Tenho a obrigação de fazer um trabalho, tenho que puxar pela cabeça, mas me dou muita liberdade, tempo, e as coisas vão aparecendo. Vou embalado por ideias variadas e depois vou fazendo a seleção dessas ideias.

 

Unifor Notícias: Alguns de seus trabalhos já foram parar em museu. Como é sua relação com a arte?

Lino: Eu não sei qual é a relação do meu trabalho com a arte. As pessoas é que acham. É um trabalho com uma identidade muito forte, de forma muito expressiva, e arte é expressão de sentimento e provocador de emoção – deve ser mais ou menos por isso. Mas teve uma época em que eu achei que o meu trabalho estava indo por um outro caminho. Nessa época me convidavam muito para umas exposições na Alemanha, e eu dei uma segurada. Porque eu quero que o meu trabalho seja de moda, não quero tentar vender o meu trabalho em galeria de arte, não é esse o foco. Mas as pessoas compram o trabalho e colocam em moldura, acontece sempre isso. Elas guardam, põem em caixa de acrílico. Tem pessoas que compram não para usar, mas para guardar, colecionar. E eu não tenho nenhuma pretensão nisso nem acho que deva ter. Meu trabalho é moda e ponto.

 

Unifor Notícias: Dizem os especialistas que você produz moda sem medo de ter de atender a uma demanda.

Lino: Eu tenho um mercado que atinjo, senão não conseguiria viver desse trabalho. Eu até provo para as pessoas que essas coisas têm um mercado aberto para se fazer um trabalho com identidade. Meu trabalho não é essa estapafúrdia que as pessoas falam, que a pessoa vai parecer um ET andando na rua. Pelo contrário, tenho uma forma bem elegante de mostrar um trabalho diferenciado. Eu acho até que parte do meu trabalho é meio clássico. Ontem [12 de abril, após o desfile no Dragão Fashion Brasil 2012] as pessoas estavam me dizendo ‘a sua coleção parece uma coisa irlandesa, renascentista, futurista’. Pode ser, tudo pode ser. Eu não situo a coleção e não gosto de situá-la porque eu acho que dá uma limitada no pensamento e no olhar das pessoas.

 

Unifor Notícias: Você é do Pará e se radicou no Ceará. Você sentiu preconceito ao expor seus trabalhos no Sudeste?

Lino: Senti, mas eu não presto atenção a isso. Sempre achei que eu devia ser bem melhor para poder me igualar e também sempre achei que eu não ia sair daqui radicalmente para provar que não importa onde você esteja. É uma grande vantagem para mim ter nascido no Norte e ter vindo para o Nordeste, que é incrível, com um trabalho manual incrível e que complementou muito a minha linha de pensamento.

 

218-lilo-ventura-3Unifor Notícias: É necessário mostrar o trabalho internacionalmente para ser reconhecido nacionalmente?

Lino: Na verdade também, mas nunca dei bola para isso. Alguns profissionais provocam isso: ‘ah, vou vender em consignação em loja tal no exterior para dizer que eu vendo lá’. Eu não, eu não faço nada por fazer. Se eu recebo uma proposta ‘manda para cá umas peças, que eu vou colocar na loja’. ‘E com isso eu vou ganhar o quê?’ ‘Ah, porque a loja quer colocar você na lista dela, mas só se vender a gente te paga’. Não, não faço. Já tive propostas incríveis que por não ter aceitado acabaram revertendo em venda. E não faço isso para tirar vantagem do mercado brasileiro, não gosto dessa postura. Devemos valorizar o que é nosso. Sempre. É assim no mundo todo. Na Itália, por exemplo, os italianos têm orgulho do que os italianos fazem, das bolsas, das roupas italianas. Não falo nem nos franceses. Imagina se vou falar dos franceses, né?

 

Unifor Notícias: Que dica você daria a um jovem que quer ser estilista?

Lino: Eu caí nessa história de ser estilista por uma coisa da vida mesmo. Eu dei um presente para a Inez [Villaventura, parceira de Lino desde 1972] quando eu namorava com ela. O presente fez sucesso. Todo mundo gostou, eu comecei a vender e as pessoas começaram a encomendar. Eu gostei, era uma forma de ganhar dinheiro. Eu estudava na época e meu pai estava no Rio de Janeiro. As coisas foram crescendo. Nunca imaginei que era isso que eu ia fazer da vida. E acabou dando supercerto. O nome foi se transformando num nome forte, a gente foi trabalhando uma marca. Eu não sei que conselho dar para essas coisas. Acho que você deve saber do que gosta, ter segurança. É difícil saber, mas a vida te dá uma resposta com isso, sabe? Se você é jornalista, por exemplo, você tem que ter uma identidade na sua maneira de escrever.

 

Unifor Notícias: E no caso de um estilista de moda?

Lino: Trabalhar como um estilista de moda é diferente. O que é fazer isso? É trabalhar numa empresa, numa indústria e ver quais as tendências do mundo, do mercado? Fazer uma pesquisa sobre o que o mercado está querendo, fazer umas roupas supercomerciais, direcionadas para um público jovem? Aí é uma história. Tem a outra parte, que é aquele que desenvolve um trabalho que é um conceito novo, uma nova maneira de surpreender as pessoas e tentar atingir o mercado, que é um grande risco também. Você precisa ter paciência, e nada é fácil. Eu fiz isso nos anos 80, quando não existia moda brasileira, era tudo cópia. Ninguém fazia um trabalho autoral, e eu fi z e disse: ‘só sei fazer se for assim. Se não for assim, não faço’ (risos). E estamos aí até hoje.

 

Unifor Notícias: Xuxa e Hebe compram suas roupas. É elegante quem é rico?

Lino: Não, na verdade depende do tipo de elegância. Tem a pessoa que é elegante na sua maneira de ser, que sabe escutar, falar. Há pessoas superelegantes que se vestem superbem. Elas são ricas e compram as melhores marcas. Mas também acho ridículo aquela que só compra marca. A mulher elegante é aquela que mistura tudo, que compra coisas que não têm marca também. E tem aquela pessoa que não é rica e sabe escolher as peças básicas mais bacanas que ela possa usar. Cada caso é um caso. Aquela pessoa que se preocupa em ser elegante deixa de ser. Elegante é aquela pessoa que é verdadeira, tem personalidade e é interessante.

 

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 218

 

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