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Saliva que beneficia

O projeto Saliva Artificial atende desde 2002 pessoas carentes que tiveram a diminuição parcial ou total da saliva devido, principalmente, ao tratamento radioterápico contra câncer na região da cabeça e pescoço. O programa gera melhorias na vida de quem está com sérios problemas, como na fala e deglutição, em decorrência da falta de saliva, além de proporcionar atendimento odontológico. É uma parceria entre os cursos de Odontologia e Farmácia da Unifor com o HGF.

 

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Atendimento odontológico regular faz parte
do projeto Saliva Artificial.

Pessoas que tiveram câncer na região da cabeça e pescoço e precisaram se submeter a um procedimento cirúrgico e a um tratamento de quimioterapia ou, principalmente, de radioterapia são vítimas de sequelas que deixam marcas e provocam dor. Uma delas é a xerostomia, que é a diminuição parcial ou total do fluxo salivar devido ao atrofiamento das glândulas salivares. Outra sequela, e a mais grave delas, é a osteorradionecrose, que promove perdas substanciais da estrutura óssea dos maxilares.

 

A osteorradionecrose é uma sequela de tratamento caro e difícil, mas a xerostomia não – e pode com o tempo ser aliviada. Foi pensando nisso que o professor do curso de Odontologia da Universidade de Fortaleza Eliardo Silveira Santos teve a iniciativa de criar o projeto Saliva Artificial, que consiste em proporcionar saliva sintética a pacientes com o perfil descrito acima, além de acompanhá-los no tratamento constante de seus dentes. A falta da saliva acarreta sérios problemas à saúde do indivíduo, entre eles a dificuldade de falar, de deglutir, e a mudança do pH da boca, o que aumenta a incidência de cáries. “A cárie pode acarretar a perda do dente, criando a comunicação do meio bucal com o osso, o que é uma porta aberta para a instalação de osteorradionecrose. O osso irradiado é de difícil cicatrização”, explica o professor.

 

Ele convidou a professora Roxeane Teles, do curso de Farmácia, para juntos elaborarem o projeto de criação da saliva sintética. “No Brasil, eu não conhecia uma sistemática de parâmetro de uso da quantidade de saliva. Não tínhamos onde nos basear. Começamos com 500ml e com a observação dissemos ao paciente que ele usasse a saliva quando estivesse com a boca seca. Agora temos o parâmetro que um paciente usa em média 250ml por semana. Quando nós trouxemos a ideia, a Universidade nos atendeu e apoiou de pronto”, conta Eliardo.

 

“A grande questão foi encontrar uma fórmula estável e adequada para esses pacientes. Fomos fazendo adaptações na viscosidade e pH até chegar à melhor fórmula”, acrescenta Roxeane.

 

Além dos professores Eliardo e Roxeane, o projeto envolve quatro alunos voluntários, sendo três da Odontologia e um da Farmácia. O projeto funciona desde 2002 e atualmente cerca de 40 pessoas estão sendo atendidas através dele no setor de odontologia do HGF. Mais de 200 pacientes já passaram pelo programa.

 

“Os pacientes vão para receber a saliva e fazer o tratamento odontológico. A salivação tende a melhorar, mas o acompanhamento da boca é permanente. Na maioria das vezes, eles não têm condições nem de ir ao hospital. A saliva artificial não cura a pessoa, mas propicia melhoras ao paciente, inclusive aumenta a autoestima. Quando vejo um paciente começar a se reanimar a viver em razão disso, é a melhor coisa. A satisfação de vê-los voltar ao convívio social é imensa”, comenta Eliardo.

 

A saliva sintética é produzida nos Laboratórios de Controle de Qualidade Microbiológica e Físico-Química e no de Tecnologia Farmacêutica, ambos da Unifor. Todos os insumos e frascos são adquiridos para o projeto. A saliva artificial tem prazo de validade de três meses. “Temos o maior cuidado com a questão da qualidade. A saliva não é um produto estéril, ela contém alguns micro-organismos. As farmácias de manipulação são obrigadas a fazer o controle físico-químico e não microbiológico. Esse é o diferencial do projeto. Depois que a gente produz a saliva, o material passa pelo controle de qualidade microbiológico. Estamos lidando com pacientes imunossuprimidos. Se eles ingerem uma medicação contaminada, agrava em muito suas condições de saúde. Nós fazemos inclusive a análise das embalagens, com contagem de micro-organismos viáveis permitidos pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] e identificação de patógenos”, afirma Roxeane.

 

O diretor do Centro de Ciências da Saúde, prof. Flávio Ibiapina, destaca a produção autoral do programa.“É um projeto cujo produto foi feito a partir das pesquisas de professores e alunos da Universidade. É também uma produção científica que tem impacto real, que já nasceu com aplicabilidade. Hoje no Brasil são poucos os locais que produzem saliva artificial. Nós a disponibilizamos para outras instituições de ensino e também para a promoção de pesquisas acadêmicas”, avalia.

 

“A importância do projeto não está na quantidade de pacientes atendidos. Ela está na benfeitoria feita aos que estão sendo atendidos por ele. O projeto também vem fortalecer a missão do hospital na produção de conhecimento. A parceria com a Unifor enriquece a troca de saberes, que é muito importante, e faz com que os profissionais tornem-se cada vez melhores”, ressalta o diretor geral do HGF, Dr. Zózimo Medeiros.

 

Projeto Saliva Artificial. Acompanhamento dentário e entrega gratuita de saliva artificial para quem tem xerostomia em decorrência de tratamento de câncer na região do pescoço e cabeça. Informações: 3101 3249.

 

DEPOIMENTOS 

 

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“Fiz uma cirurgia na garganta para a retirada de um tumor na laringe no final de 2003 e depois fiz radioterapia. Fiquei sem falar. O meu lábio pipocava, o céu da minha boca também. Não sentia o gosto da comida, mas com a saliva melhorei, me senti melhor. Sou beneficiado pelo projeto desde 2004. No começo, quando estava mais necessitado, colocava de três a cinco vezes a saliva por dia e vinha a cada quinze dias. Eles cuidam dos meus dentes, às vezes raspam a minha língua com gaze. Todos me tratam muito bem. Hoje eu coloco a saliva de uma a duas vezes por dia e venho uma vez por mês para cá.”

Assis Diogo de Araújo, aposentado, beneficiado pelo projeto Saliva Artificial da Unifor.

 

 

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“Em 2010, tirei um câncer da região do pescoço. Perdi a saliva por causa da radioterapia. Aqui fiz todo o tratamento dos dentes. Eu não poderia ter feito a radioterapia se os meus dentes não estivessem sadios. Estive à beira da morte, não estava nem conseguindo me alimentar. A saliva artificial é essencial, alivia muito. Sou muito grato ao que fizeram e continuam fazendo por mim. Todos me tratam muito bem. Coloco a saliva de cinco a seis vezes por dia e também quando acordo durante à noite. Faço acompanhamento de duas a três vezes no mês para tratar os dentes.”

Antônio Gomes Marques, aposentado, beneficiado pelo projeto Saliva Artificial da Unifor.

 

 

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“Os pacientes que fazem quimioterapia ou radioterapia chegam muito sequelados. Eles apresentam falta de saliva e de gosto pelos alimentos. A saliva evita cáries e outras doenças como mucosite e queilite. Venho uma vez por semana ao HGF. E a gente, além de dar a saliva, faz o acompanhamento para diminuir a dor que eles sentem e para que eles não precisem extrair dentes, o que acarretaria outros problemas. Já faz quase um ano que faço parte da equipe. Além de prazeroso pelo benefício social, o estágio me faz crescer academicamente. É tirar a teoria de sala de aula e passá-la para a prática.”

Carla Welch, aluna do 8º semestre do curso de Odontologia e estagiária do projeto Saliva Artificial.

 

 

 

SAIBA MAIS


• A saliva é constituída pelas secreções das glândulas salivares maiores e menores.

• As glândulas salivares menores estão dispersas em toda a camada de epitélio que reveste o palato, os lábios, as bochechas, as tonsilas e a língua. Cerca de 30% do volume da saliva é produzido por elas.

• As glândulas salivares maiores estão localizadas fora das paredes da cavidade oral e são constituídas pelas glândulas parótidas, submandibulares e sublinguais. São responsáveis por cerca de 70% do volume da saliva.

• A saliva atua na mastigação, gustação e deglutição dos alimentos. Ela umidifica e lubrifica a mucosa orofaríngea, impedindo seu ressecamento, e dos alimentos, o que facilita a mastigação e a transformação do bolus alimentar a ser deglutido.

• A saliva humana contém a imunoglobulina secretória A(IgA), cuja função é proteger o organismo contra os vírus que invadem os tratos respiratório e digestivo. A saliva também diminui a acidez bucal, prevenindo a cárie.

• A saliva é secretada de forma contínua e em pequenas quantidades. Uma pessoa adulta chega a produzir de 1 a 2 litros de saliva por dia.

• Xerostomia é a diminuição parcial ou total do fluxo salivar. Ela pode ser decorrente de diversos fatores, entre eles: radioterapia na região da cabeça e pescoço, alguns medicamentos e deficiência de vitaminas do complexo B.

• Câncer na região da cabeça e pescoço tem relação direta com o fumo. Em 99% dos casos, pesquisas apontam que as vítimas são ex-fumantes ou fumantes.

 

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 217

 

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