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O Núcleo Guel Arraes: um sopro de humor inteligente na televisão brasileira

por Jáder Santana e Marcio Acselrad*

 

217-artigo-tvNa década de 80, a grande maioria dos teóricos da comunicação brasileiros considerava a televisão, o grande veículo de comunicação de massas da época, como sendo um meio padronizado e imbecilizante, em que se primavam um humor de mau gosto e uma estética grotesca. Seguindo a tradição crítica importada da Escola de Frankfurt, poucos eram aqueles que acreditavam que a televisão brasileira, devido a seu forte apelo comercial (diferentemente do modelo público britânico), fosse capaz de produzir inovação e criatividade. Os programas de humor, em sua grande maioria importados do rádio (Balança Mas Não Cai, Chico City, A Praça da Alegria) ou do circo (Os Trapalhões, A Buzina do Chacrinha), eram considerados clichês pouco criativos e de forte apelo popularesco. Era o que Muniz Sodré apelidou de “o império do grotesco”.

 

Nesta mesma época, uma grande e inesperada mudança estava por ocorrer quando um jovem pernambucano, retornando de uma temporada de estudos em Paris, começou a trabalhar para a maior empresa de telecomunicações do Brasil, a Rede Globo de Televisão. Em torno dele, rapidamente se juntaram outros jovens que, já trabalhando em mídias de menor alcance como o jornal e o teatro, acreditaram ser possível transformar e renovar um espaço considerado por demais formatado e repetitivo. Consideramos tal mudança de fundamental importância para a formação do novo audiovisual brasileiro, bem como para a forma como o humor passaria a ser encarado. A pesquisa que ora se apresenta, “O audiovisual brasileiro de Guel Arraes”, foi elaborada na tentativa de mostrar que a televisão, como qualquer outra mídia, está em constante transformação. E que quem não arrisca não petisca.

 

No início dos anos 80, ainda sem usar o nome pelo qual se tornaria conhecido, o Núcleo Guel Arraes começa a se formar a partir da reunião de profissionais oriundos de mídias e movimentos artísticos alternativos. São personagens que já haviam iniciado suas carreiras em projetos independentes de literatura, teatro, vídeo e jornalismo, e que iriam introduzir na Rede Globo a lógica e os formatos próprios de do país servia de inspiração para esse conjunto de intelectuais e artistas que buscava a valorização de sua experiência recém-adquirida de liberdade de expressão e pensamento. Foi nesse ambiente de pós-censura que surgiram os distintos grupos teatrais, jornalísticos, literários e de vídeo que mais tarde seriam conjugados num núcleo maior. Em suas demonstrações artísticas, não se intimidavam ao criticar qualquer forma de censura e propor novidades em seus respectivos campos da atuação. Para alcançar esse objetivo, a principal ferramenta utilizada foi o humor, que poderia ser irônico e cáustico ou infantil e escatológico, de acordo com os fins almejados.

 

Tal disposição acabou conformando a junção dessas pessoas em um grupo marcado por um ethos específi co, iconoclasta e metalinguístico, fundado numa irreverência e rebeldia em relação à própria TV. Foi assim que integrantes do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, do teatro besteirol, da produção de vídeo independente e dos jornais Planeta Diário e Casseta Popular se encontraram sob o comando de Arraes e, nos corredores e estúdios da Rede Globo, desenvolveram o convívio que seria de fundamental importância para a sintonia demonstrada entre toda a equipe desde o primeiro programa por ela produzido, o Armação Ilimitada, de 1985, que parodiava a vida da classe média da zona sul carioca e incorporava em sua estrutura elementos da cultura pop, dos videoclipes e das histórias em quadrinhos.

 

Essa sintonia se tornaria referência para o trabalho do Núcleo na medida em que boa parte do seu processo de produção estava construída sobre as noções de experiência coletiva, sobretudo no Teatro de Grupo, que pregava a participação colaborativa de todos os envolvidos no processo de criação do espetáculo. Essa prática, adaptada de forma inédita à realidade da produção televisiva, resultou em um modelo democrático que solucionava boa parte dos problemas e bloqueios criativos que pudessem surgir no decorrer da concepção e realização do material. As influências trazidas por esse caldeirão de movimentos artísticos alternativos ajudou a romper com o padrão realista-naturalista da televisão naqueles anos, difundido sobretudo pelas telenovelas, cuja linguagem o próprio Arraes ajudou a transformar antes de assumir o posto de mentor do Núcleo.

 

Na década de 90, a partir do programa Brasil Legal, o Núcleo passou a assumir um lado mais politizado em suas produções, embora não tenha abandonado seu caráter experimentalista de criação e adaptação. O equilíbrio entre os dois fatores ganhou força na primeira década dos anos 2000, com programas como o Brasil Total, de 2003, e o Central da Periferia, de 2006, dirigidos por Regina Casé. A consolidação e a legitimação do Núcleo na Rede Globo tornaram patente o respaldo que aquele grupo possuía e ainda possui junto à emissora e junto ao público, que doravante passa a ter contato com um humor elaborado e inteligente sem contudo perder o apelo popular.

 

> O artigo se insere em uma pesquisa em fase de conclusão. O objetivo do estudo é comparar o Núcleo Guel Arraes ao Grupo Bloomsbury, surgido na Inglaterra na era vitoriana.

 

* Jáder Santana é aluno do curso de Jornalismo da Unifor e bolsista de Iniciação Científica da Funcap. Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

* Marcio Acselrad é doutor e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e graduado em Psicologia. Marcio é professor titular da Unifor das disciplinas de Teoria da Comunicação, de Psicologia Social e de Estética; coordenador do Cineclube Unifor e do Laboratório de Estudos do Humor e do Riso. Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

 

 

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 217

 

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