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Gestão de museus como negócio

com Maria Ignez Mantovani Franco

216_entrevistaignezmantovani_Quem disse que cultura não pode ser um ramo de empreendimento? E que lidar com exposições museológicas não pode ser fonte de renda? Essas e outras questões perpassam a conversa com Maria Ignez Mantovani Franco, que aos 27 anos criou a primeira empresa brasileira de exposições, museus e projetos culturais, a Expomus.

A empresa em questão é responsável pela implementação da concepção museológica da mostra Pioneiros & Empreendedores e já atuou em cerca de outros 200 projetos de arte e cultura em diversos países.

Maria Ignez é doutora em Museologia pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa, Portugal. Em entrevista exclusiva ao Unifor Notícias, a museóloga e empresária mostra que para empreender basta querer e, claro, inovar. Confira.

Unifor Notícias: A senhora fundou a Expomus muito jovem. Como aconteceu?
Maria Ignez: Meu primeiro emprego foi na Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo, em São Paulo. No momento em que eu ingressei nesse trabalho, essa secretaria foi desmembrada. Todos os outros funcionários queriam muito ir para a área de turismo, que era uma área mais jovem. E eu fiquei na cultura para atender o secretário no gabinete (José Mindlin). A partir daí, eu descobri de uma forma muito mais intensa o que era arte. Depois que fiz uma especialização em Museologia, continuei trabalhando na mesma secretaria, mas me atrelei à área de museus. Em seguida coordenei a área técnica de todos os museus do estado de São Paulo. Eu me apaixonei pela noção de projeto, e aí foi o grande empreendedorismo, porque aos 27 anos eu fundei a primeira empresa de museologia do Brasil. Eu tive o insight: da mesma forma que existiam os escritórios de arquitetura, por que não um de museologia?

Unifor Notícias: Qual é a contribuição que a cultura brasileira pode dar a eventos turísticos como a Copa?
Maria Ignez: A nossa cultura é material e imaterial. Ela vai estar exposta na nossa forma de acolher e de nos comunicar com esse público estrangeiro que virá. Mas temos que nos preparar para isso. Os museus, por exemplo, têm uma oportunidade muito grande de exercer um papel social relevante num momento desses. Por quê? Porque quando nós vamos à França queremos conhecer o Louvre. Então os estrangeiros não querem ver apenas a Copa do Mundo, as Olimpíadas, eles querem conhecer o país. E, no momento de conhecer nossa cultura, os museus são os carros-chefes; é onde essa memória social está contida, e nós precisamos estar habilitados para isso. Quando eu digo ‘habilitados’, me refiro a pensar uma programação de ponta, estar com os nossos museus bilíngues, trilíngues, em horários estendidos, e com as cadeias turísticas os contemplando.

Unifor Notícias: E as expectativas são boas?
Maria Ignez: Nós vamos receber a Conferência Mundial de Museus em 2013. Isso é um mote fundamental para 2014, 2015, 2016. Vamos receber 4 mil profissionais dos principais museus do mundo. Esses profissionais vão se deslocar em roteiros culturais para ver cidades brasileiras. Isso nos antecipa uma missão.

Unifor Notícias: Como a senhora avalia a relação entre a economia e os museus em geral?
Maria Ignez: Nós estamos hoje num momento da discussão da economia criativa, em seus diferentes formatos, concepções e nas suas pluralidades de responsabilidades. Olhamos muitas vezes o museu como uma coisa empoeirada, uma coisa do passado, quando na verdade o museu hoje é a catedral do século 21. Quer dizer, não há um arquiteto que não queira projetar um museu. Os principais monumentos edificados no mundo hoje estão em museus, os grandes arquitetos internacionais têm as suas obras magnas em museus. Eu avalio que a própria economia precise desses símbolos, como símbolos de inovação, de transformação. A área de cultura é também um grande empreendimento social. Ela tem a missão de formar as futuras gerações, e não há nada de mais empreendedor do que isso.

Unifor Notícias: O que a senhora acha dos museus cearenses?
Maria Ignez: Eu acho que é muito comum as pessoas não valorizarem aquilo em que estão imersas. Quando penso no Ceará, eu penso na figura do Régis Lopes, diretor do Museu do Ceará, que é uma das grandes cabeças da museologia brasileira. Há lacunas? Claro que há. Mas assim como temos lacunas em outros estados.

Unifor Notícias: Qual a importância de um espaço cultural dentro de uma universidade?
Maria Ignez: Embora não seja um museu especificamente, o Espaço Cultural Unifor é um lugar de experimentação, e isso em uma universidade é fundamental. Todas as linguagens são interessantes para uma formação ampla. Minha recomendação para quem estiver aqui dentro é que se abra para outras áreas. Poder assistir a uma aula numa área que não tenha nada a ver com a sua é tão fundamental quanto assistir ao melhor professor da sua área. Só assim é que a gente consegue ter olhos, ouvidos e cérebro abertos para outros conhecimentos. O outro ponto é que eu queria incentivar que os jovens tivessem atitudes pioneiras. Aos 27 anos, eu escrevi o estatuto de uma empresa que não existia, e esse estatuto é vigente até hoje. As pessoas não podem não se julgar preparadas. Claro que precisa haver o preparo, mas quando se ousa empreender é porque já há uma solidez minimamente estruturada. A gente não empreende só quando cria a empresa, a gente empreende a cada dia que a empresa existe. O que faz da Expomus uma diferença no mercado é inovação. Eu digo ao jovem: não tenha medo desse desejo de inovação. É a única coisa que garante que você está sempre à frente.


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 216

 

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