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“Plágio vem em função da pergunta ruim”

com Claudio de Moura Castro

210_claudiodemouracastroClaudio de Moura Castro, 73, é economista, mas tem na educação o assunto de seu maior interesse. Possui dezenas de livros e artigos científicos publicados na área e já foi professor em diversas universidades brasileiras e estrangeiras.


É didático, mas duro ao fazer críticas. Os universitários brasileiros são “ruins”, plágio é “culpa dos professores”, as IES “subestimam a experiência profissional” na hora da contratação dos docentes – são algumas de suas afirmações. Ele esteve na Universidade de Fortaleza em meados de agosto, onde proferiu palestra em um evento do curso de Contábeis. Confira a entrevista exclusiva.

Unifor Notícias: Em sua palestra, o senhor comentou sobre o exagero na exigência de diplomas que as IES fazem ao professor universitário, subestimando por vezes a experiência profissional de um potencial docente. Mas as IES que obtêm maior nível de pontuação junto ao Ministério da Educação (MEC) são as que possuem o maior número de professores com mestrado e doutorado. Não seria então um problema proveniente do MEC?
Claudio Castro: A lei não diz que tem que ter no mínimo mestrado e/ou doutorado. A avaliação é um pouquinho afetada por isso. Claro que o MEC quer ver diploma. O problema é que as faculdades obedecem cegamente o MEC. Ninguém briga por isso. Eu acho que sou a única pessoa no Brasil que briga por isso há anos. Tem que se respeitar a exigência da experiência profissional também.

Unifor Notícias: E qual seria uma boa lei de incentivo à contratação dos diferentes tipos de professores?
Claudio Castro: É muito simples. Matéria teórica: ter especialização é o mínimo. Se tiver mestrado, é bom e, se tiver doutorado, é melhor ainda. Matéria aplicada: tem que ter muitos anos de experiência. A IES deveria ser prejudicada se nas matérias aplicadas os professores não tiverem experiência. É preciso valorizar diferencialmente as disciplinas. Nas disciplinas aplicadas, os professores devem ter experiência; nas disciplinas teóricas, os professores devem ter qualificação acadêmica.

Unifor Notícias: Como o senhor avalia a criação de cursos universitários conforme as tendências de mercado. Será que não seria melhor investir em cursos já existentes?
Claudio Castro: Isso é um assunto de economista. O mecanismo de ajuste entre oferta e demanda nunca é perfeito. A fábrica produz camisa verde, aí as pessoas resolvem que querem camisa roxa. Aí sobra camisa verde naquele ano. Esse processo de ajustamento é permanente. As áreas novas têm claramente uma demanda. Por exemplo, o mercado de jornalismo de hoje não é jornal, é empresa. As empresas descobriram que precisam de gente para fazer os releases, para fazer o marketing. Então, quando as universidades descobrem o mercado, elas correm atrás. Normal. Agora o que é que faz com que esse processo não seja tão penoso? É que o número de pessoas que exercem a profissão torna-se cada vez menor, e quatro anos de educação superior são quatro anos de educação. Em geral, menos da metade das pessoas exerce sua atividade de formação. E, na área de formação social, e o jornalismo está dentro dela, é menos de um quarto dos graduados exercendo a profissão. São pessoas que passaram quatro anos estudando e que vão fazer qualquer coisa muito melhor do que fariam se não tivessem estudado esses quatro anos. Essa angústia não existe.

Unifor Notícias: Como você avalia de uma forma geral o ensino superior no Brasil?
Claudio Castro: De todos os ensinos do Brasil, o superior é o segundo melhor. O primeiro melhor é a pós-graduação. A única coisa que realmente se pode dizer de boa qualidade no país é a pós-graduação. Nosso ensino superior é razoavelmente bom porque nós temos uma quantidade muito grande de mestres e doutores. Temos um enorme capital humano que se preparou nos últimos 20 anos. Temos um parque universitário muito bem instalado comparado com o resto da América Latina. Temos um parque de computadores muito bom e bons laboratórios. Desse ponto de vista, nosso ensino superior é muito bom. Nosso ensino superior só tem um probleminha: os alunos são ruins. Esse é o drama do nosso ensino superior.

Unifor Notícias: E como mudar isso?
Claudio Castro: A grande reforma do ensino superior é no ensino primário. A revolução do ensino superior acontece no fundamental. Hoje um aluno brasileiro chega no ensino superior com um atraso de quatro anos em relação ao que sabe um aluno europeu. O aluno brasileiro sabe o mesmo tanto, de compreensão de leitura, de ciência, que sabe um estudante europeu com menos quatro anos de escolaridade.

Unifor Notícias: É muito comum ouvir os professores se queixando de que os alunos de graduação, principalmente, estão se utilizando da internet para comprar ou copiar monografias ou trabalhos de pesquisa...
Claudio Castro: Isso é culpa de quem? Do professor. Outro dia eu ouvi esse exemplo. Todo francês a partir de 1800 faz uma redação sobre a revolução francesa. Hoje não se pode mais mandar fazer uma redação sobre a revolução francesa porque ela está no Google pronta. Então o professor tem que saber disso. E, quando o professor for pedir um trabalho para o aluno, tem que dizer: compare a revolução francesa com a revolução da China, compare-a com o movimento de independência africana, etc. Aí pronto. Acabou. Cadê o plágio? Plágio vem em função da pergunta ruim. Se a pergunta é boa, as chances de plágio são muito menores. O plágio é a pergunta factual, é a pergunta cuja resposta está no livro ou está no Google.

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 210

 

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