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Acessando o leque da vida

com Augusto Cury

211_augustocuryAugusto Jorge Cury é psiquiatra, psicoterapeuta e escritor. Principalmente escritor. Já publicou 28 livros e vendeu mais de 10 milhões de exemplares somente no Brasil. Suas obras também foram publicadas em outros 50 países. Refuta ser rotulado como escritor de autoajuda, mas escreveu títulos como “Você é insubstituível” e “Seja líder de si mesmo”. “O vendedor de sonhos” e “Pais brilhantes, professores fascinantes” são dois de seus livros que viraram best-sellers. Cury desenvolveu a teoria da inteligência multifocal, que estuda os processos da mente humana como a construção de pensamentos, a formação da consciência e dos alicerces do “eu” e dos papéis da memória. A teoria virou curso de pós-graduação em algumas instituições de ensino como no Centro Universitário Filadélfia (Unifil), no Paraná, e na Universidade Master, na Espanha. Fundamentado em sua teoria, o médico criou o programa Escola de Inteligência, projeto psicopedagógico e multidisciplinar voltado para crianças e adolescentes com o objetivo de ensina  funções intelectuais e emocionais, como o pensar antes de reagir e a proteção da emoção. De fala mansa e de linguagem simples, faz uso constante de metáforas. No início do semestre, Cury concedeu palestra na Universidade de Fortaleza em um evento do curso de Ciências Contábeis. Confira agora a entrevista ao Unifor Notícias.

Unifor Notícias*: Como a educação pode transformar a vida de uma pessoa?
Augusto Cury: A educação é fundamental porque o capital de ideias é o que pode levar o ser humano a deixar de ser vítima para ser protagonista da sua própria história. Sem educação nós não conseguimos abrir o leque da nossa mente para dar respostas inteligentes nas mais diversas situações em que nos encontramos. Portanto, para uma pessoa transcender os seus obstáculos, superar crises, perdas, frustrações, para transformar o caos em oportunidades criativas e escrever os capítulos mais importantes da nossa história dos dias mais tristes da nossa vida, a educação é fundamental.

Unifor Notícias*: Que dicas o senhor dá a um profissional que pretende alcançar o sucesso?
Augusto Cury: Existem alguns princípios ou ferramentas que são fundamentais para uma pessoa deixar a mesmice, o cárcere do tédio e da rotina e se tornar um empreendedor, um construtor de sonhos. Em primeiro lugar, quem quer ter o sucesso, quem quer ter o pódio deve aprender a lidar com os riscos, porque sucesso sem riscos é triunfo sem glória. Em segundo lugar, deve aprender a conhecer as armadilhas da sua própria mente. Muitas vezes nós não conseguimos brilhar no mundo de fora porque somos opacos no mundo de dentro. Devemos lidar com nossas angústias, timidez, com a nossa insegurança. Devemos aprender a criticar cada pensamento perturbador e o sentimento de impotência. Se o nosso eu, que representa a nossa capacidade de escolha, que é o gerente da psiquê, não atuar desarmando essas armadilhas, provavelmente os obstáculos de dentro vão tornar os obstáculos de fora dantescos. Há pessoas que poderiam ter uma capacidade criativa e uma capacidade de realização enormes, mas infelizmente eles são amordaçados pelos conflitos que estão represados em sua própria psiquê. Em terceiro lugar, é necessário e é fundamental unir sonhos com disciplina. Sonhos são projetos de vida. Desejos não resistem aos problemas que acontecem na segunda-feira. Portanto, devemos substituir nossos desejos superficiais por projetos bem elaborados. Porém, é insuficiente apenas sonhar. É necessário trabalhar a disciplina, ter garra, determinação, transformar lágrimas em sabedoria e entender que ninguém é digno do pódio se não utilizar seus fracassos para conquistá-lo. Portanto, sonho sem disciplina produz pessoas frustradas, e disciplina sem sonho produz pessoas autófagas, que só obedecem ordens.

Unifor Notícias*: Isso que o senhor comentou é um exemplo da história da sua vida, não é mesmo?
Augusto Cury: É o exemplo da minha vida. Hoje a imprensa me considera o autor mais lido do Brasil nesta última década, mas eu me sinto um eterno aprendiz. Estou sempre lidando com obstáculos e procurando com humildade contemplar o belo, fazer das pequenas coisas um espetáculo aos olhos. Quando estava no colegial, que hoje é ensino médio, eu era a segunda nota da classe de baixo para cima. Ninguém apostava em mim. Mas eu tive o sonho de ser médico, o sonho de ser cientista, de ser escritor e lutei por eles. Usei lágrimas, perdas, dificuldades, e quantos obstáculos eu enfrentei. Tive que estudar 12, 14 horas por dia. Muitas vezes enfrentei perdas, rejeições e contrariedades, mas aprendi que podemos e devemos escrever os capítulos mais importantes da nossa história nos momentos mais difíceis da nossa existência. Aí a vida tem outro sabor.

Unifor Notícias*: De que forma o universitário no Brasil pode se sentir motivado a sempre adquirir conhecimento?
Augusto Cury: Em primeiro lugar, a educação mundial está doente. Formando para um sistema doente, para uma sociedade doente. A educação é formada pelos profissionais mais relevantes, que são os professores. Eles são relevantes, mas o sistema está doente porque nós acreditamos que bombardear o córtex cerebral com milhões de dados é suficiente para formar pensadores, com as funções mais complexas como pensar antes de reagir, expor e impor ideias, trabalhar perdas e frustrações, resiliência, proteger a emoção. E isso é impossível. É tão impossível que, usando uma metáfora, se você pegar tintas, pincéis e colocar numa máquina, você esperaria que uma obra-prima saísse como a Guernica de Picasso ou mesmo a Monalisa de Da Vinci? Não é possível. As obras são trabalhadas de uma maneira rica, fina, criativa. Mas a educação faz isso. Ela bombardeia o córtex cerebral com milhões de dados, esperando que as funções complexas sejam trabalhadas, como altruísmo, solidariedade, liberdade criativa, capacidade de lidar com perda e frustrações, gerenciar pensamentos que determinam a formação de um pensador, a formação de um ser humano que faz a diferença no teatro social. Nós estamos propondo nos mais de 50 países em que eu sou publicado que possamos ter uma academia de inteligência, ou seja, que dentro da grade curricular essas funções nobilíssimas da psiquê sejam trabalhadas e incorporadas. Vou dar um site aqui para vocês acessarem: www.academiadainteligencia.com.br.

Unifor Notícias*: O que é mais importante: ter conhecimento sobre uma área específica ou ser um profissional generalista?
Augusto Cury: É fundamental que os médicos, os psicólogos, os contabilistas, os engenheiros não tenham conhecimento apenas da sua área. Se você só tem conhecimento na sua própria área, você não tem liberto o imaginário. Eu vou pedir uma coisa para vocês universitários: leiam jornais. Muitos universitários acham que a Faixa de Gaza é um sanduíche, não sabem que os conflitos entre palestinos e judeus têm se tornado um dos centros dos conflitos humanos, não entendem a primavera árabe, não entendem as crises financeiras que o mundo está atravessando. É muito importante ler jornal, ter conhecimento de áreas que não são da nossa especialidade para libertar o eu como autor da história e construtor de novas ideias.

Unifor Notícias: O senhor dá muitos ensinamentos de como devemos agir com nós mesmos e com a família enquanto pais. Existe um ditado que diz “casa de ferreiro, espeto de pau”. Ele se aplica na sua vida?
Augusto Cury: Tenho três filhas e sou apaixonado por elas. A Camila de 23 anos, a Carol de 18 e a Cláudia de 17. Elas me dão muito orgulho porque eu as ensinei que a grandeza de um ser humano está na sua capacidade de fazer pequeno para tornar os pequenos grandes. Eu não tive medo de falar das minhas lágrimas com elas porque meu desejo é que elas aprendessem a chorar as delas com maturidade. E nem receio de falar das minhas derrotas para que elas entendam que ninguém é digno do sucesso se não utilizá-las para alcançar o sucesso. Então elas são jovens como outras. Têm seus defeitos, suas dificuldades, mas são extremamente generosas, afetivas.

Elas são capazes de estar diante de um político, de um presidente da república e de considerá-lo uma pessoa tão importante quanto um mendigo, embora valorizando sua posição. São capazes de estar diante de uma celebridade de Hollywood e considerá-la uma pessoa tão importante quanto uma pessoa com depressão. E não é a grandeza de um pai. É a maneira como nós educamos os filhos e o potencial criativo que está represado em nós. Nós podemos, dependendo das atitudes e das sementes que nós plantamos, levá-los à maturidade, à generosidade, ao altruísmo, à solidariedade. Eu acho que fui feliz. Mas também tive erros, tive que pedir desculpas muitas vezes, reconheci que exagerei, outras me corrigi. Mas pedir desculpas e reconhecer nossos erros são outras sementes. Pessoa sábia não é aquela que não erra, mas aquela que sabe o que fazer com seus erros.

Unifor Notícias: Então, no caso, o ditado não se tornou realidade na sua casa?
Augusto Cury: Felizmente, não. Tanto assim que as três falam: 'papai, você vai educar as minhas filhas, os meus filhos'. Elas sempre dizem isso (risos).

Unifor Notícias: Em 2008, foi criado o Centro de Estudos Augusto Cury em Portugal. Por que essa relação com Portugal?
Augusto Cury: Eu não sei. Eu nunca fui ao Centro de Estudos em Portugal. Eu sei que quem fez o centro foram grandes pensadores, Ricardo Monteiro e Nelson Lima. Mas eu nunca fui lá, nem mesmo nas aulas magnas da pós-graduação na minha teoria [inteligência multifocal]. Eu raramente dou aula magna. E tem gente que diz que eu sou escritor de autoajuda porque não percebe que eu democratizei o conhecimento. E isso não é autoajuda. Tem toda uma teoria por detrás do que eu abordo. Por isso com muita humildade eu vou dizer que sou um dos poucos teóricos vivos que têm pós-graduação na sua teoria.

Unifor Notícias: Mas o que o senhor prega não deixa de ser uma ajuda para as pessoas, não é?
Augusto Cury: Não deixa de ser uma ajuda.

Unifor Notícias: E por que o senhor refuta essa denominação de autoajuda?
Augusto Cury: Por causa do jargão segundo o qual autoajuda são apenas frases positivas e que não têm eficácia. E eu tenho reservas quanto às frases positivas que são ditas como conselho. Na verdade, é fundamental que a pessoa tenha autoconhecimento, tenha autoconsciência, desenvolva as funções mais complexas, manipule ferramentas para que deixe de ser vítima e se torne protagonista da sua própria história.

Unifor Notícias: Com tantos livros escritos, com tantas ideias já disseminadas, ainda há muito o que dizer?
Augusto Cury: Eu espero que Deus me dê mais algumas décadas para poder escrever tudo que eu quero, para poder publicar tudo que eu escrevi – as duas, três mil páginas inéditas. Então eu tenho algumas dezenas de livros ainda para escrever. Por isso eu raramente aceito dar conferências, não tenho tempo. Hoje à tarde eu vou escrever. A mídia toda está esperando e está até me pressionando.


* Perguntas feitas para o Canal Unifor por Raquel Holanda.


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 211

 

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