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“Vou deixar um sinal nas artes”

com Bruno Pedrosa

212_brunopedrosaBruno Pedrosa é artista plástico de renome internacional. Cearense de Lavras da Mangabeira, foi ao Rio de Janeiro ainda jovem para se “inteirar do mundo das artes”. No início dos anos 90, mudou-se com a família para o norte da Itália, radicando-se no país europeu. A opção de ficar “foi casual desde o início”, afirma. O artista vende seus trabalhos – desenhos, pinturas e esculturas – a países do mundo todo e conta com mais de uma centena de exposições individuais e coletivas realizadas no Brasil e no exterior.

Presságios comemora os 40 anos da primeira exposição de Bruno na Europa. A ideia e a curadoria da mostra são de Maurício Vanni, a quem Bruno define como “um dos grandes críticos da Itália”. Composta por 13 telas e 20 desenhos, fica em cartaz no Espaço Cultural Unifor Anexo até o dia 22 de dezembro. Fortaleza é a primeira cidade a receber a mostra, que segue depois para Rio de Janeiro, Argentina, Uruguai, Chile e países da Europa. Bem humorado, o artista concedeu entrevista exclusiva ao Unifor Notícias em meio à montagem de sua exposição, uma semana antes da abertura, em meados do mês passado.

Unifor Notícias: O senhor estava contemplando as suas obras... [Bruno estava observando um quadro antes de iniciarmos a entrevista]
Bruno Pedrosa: Não, não. Eu estava olhando muito mais para ver a parte técnica da montagem do que o quadro (risos).

Unifor Notícias: Mas o senhor é do tipo que não quer nem ver seus trabalhos depois de prontos?
Bruno Pedrosa: Não, pelo contrário. Eu não só descubro sempre qualquer coisa de novo, como tenho até a vontade de interferir no trabalho mesmo depois de pronto. Não sou exagerado igual aos impressionistas. Alguns que entravam para o Louvre e tinham trabalhos expostos na parede e iam lá, olhavam se não tinha ninguém olhando, pegavam o pincel e davam uma pinceladinha. Mas eu sempre vejo que poderia dar mais uma pincelada.

Unifor Notícias: Mas isso é de todo artista ou é o jeito do Bruno Pedrosa?
Bruno Pedrosa: Deve ser a minha personalidade. Não é visto que todos os artistas façam isso. Conheço casos de artistas que, uma vez terminado o trabalho, não sentem a menor necessidade de alterá-lo. Eu sempre vejo que poderia ter feito algo a mais. Eu sempre tenho crítica para melhorar um trabalho.

Unifor Notícias: O fato de a exposição estar numa universidade tem uma simbologia diferente?
Bruno Pedrosa: Para mim, é melhor até que um ambiente público de museu, no sentido de que eu me preocupo muitíssimo que meu trabalho seja visto, divulgado o máximo possível entre estudantes. Eu gosto e fico feliz que o meu trabalho seja visto por estudantes universitários. E aqui [no Espaço Cultural Unifor Anexo] é a passagem de todos os alunos. Eu não me preocupo muito com a parte comercial, eu me preocupo muito com a parte de divulgação e de perenização do meu trabalho. Eu procuro sempre me comunicar com os jovens que estão começando, com as pessoas que estão ligadas ao ensino, de maneira que a mostra ser numa universidade é mais interessante do que se fosse num espaço de museu qualquer aonde não vai ninguém.

Unifor Notícias: Que dicas o senhor dá para o jovem artista que está começando?
Bruno Pedrosa: Antes de tudo, que ninguém nasce sabendo fazer nada. Para fazer, tem que aprender e, para aprender, tem que ir a uma escola. Não é que um artista não possa ser autoditada. Não é que você é mais artista porque frequentou uma escola. Não tem nada a ver. Mas você precisa ter um domínio do métier, quer dizer, do material e do que você propõe e apresenta às pessoas. O artista precisa ter, antes de tudo, muita força e perseverança. Não é uma luta de seis meses ou seis anos. É uma luta da vida inteira. Tem que matar um leão por dia até o dia que morrer.

Unifor Notícias: Ser artista é um estilo de vida?
Bruno Pedrosa: É mais do que um estilo de vida. É um estilo de vida apaixonante. Se você não tem a paixão pela arte, você não pode ser um artista. Eu decidi ser artista. Sou do sertão, sou sertanejo, como origem, eu sou vaqueiro. Até os doze anos, pensava em ser vaqueiro, e dos 12 anos em diante eu comecei a vislumbrar a possibilidade de ser um artista, e foi por isso que eu fui para o Rio de Janeiro aos dezoito anos, para me inteirar no mundo da arte. Vivo exclusivamente do meu trabalho, e acho que um verdadeiro artista deve se orgulhar muito disso. Não é fácil. Não digo que um artista que não vive do seu trabalho deixa de ser um artista, mas eu me orgulho do fato de viver de fazer arte. Sempre fui muito independente. No meu trabalho, não sigo uma orientação crítica, um movimento. Tenho certeza de que vou deixar um sinal nas artes. Não me preocupo com o mercado, com as tendências. Eu acho que a arte tem que ser feita com criatividade e seriedade. Feita com seriedade, não interessa o que é. Você pode fazer tudo. Ser artista é justamente ter essa liberdade. Você pode fazer aquilo que você quiser. Uma liberdade total. Mas deve e tem que fazer com seriedade e o mais próximo possível da perfeição.

Unifor Notícias: O senhor passou cinco anos em um mosteiro. Como foi esse momento da sua vida?
Bruno Pedrosa: Foram cinco anos muito felizes para mim. Quando eu entrei para o mosteiro, já era um homem, 25 anos, já tinha três faculdades, com mostras no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. Essa pergunta que você está me fazendo é uma pergunta que me acompanha desde sempre. E eu poderia muito bem criar uma história... mas não. Foi uma série de circunstâncias em que achei que naquele momento para mim o melhor era entrar para um mosteiro. Fui apresentado ao mosteiro como um sistema de vida. Um monge é um cristão que decide ter uma vida de clausura. Num mosteiro, todo mundo trabalha, tem uma estrutura de vida socialista e o patrimônio é de todos, e você tem o necessário para viver bem. É um ideal de vida que sempre me fascinou. É um ideal socialista dentro da filosofia cristã. Naquele momento, eu achei que era muito válido. No final do quinto ano, eu decidi que não valia mais a pena, que eu poderia ter uma vida aqui fora dentro do meu conceito de vida mais ou menos semelhante e eu queria constituir família.

Unifor Notícias: E artisticamente foi importante o período no mosteiro?
Bruno Pedrosa: Artisticamente, foi um hiato. Eu tinha uma carreira toda estruturada e cortei quando entrei no mosteiro. Eu não fiz exposições, eu não trabalhei plenamente porque tinha limites para o trabalho. Eu produzi desenhos porque era mais fácil e exigia menos espaço e produzi algumas coisas de pintura. Mas foi um hiato que realmente me desligou, digamos assim, do mercado de arte. Quando eu saí do mosteiro, eu praticamente tive que recomeçar a minha vida como artista a partir de 1981.

Unifor Notícias: O senhor tem três cursos universitários: Belas Artes, Arqueologia e Filosofia. O fato de ter essas três formações influencia o seu trabalho em que sentido?
Bruno Pedrosa: Um quadro é fruto de tudo aquilo que você armazenou de informações visuais, em leitura, de estudos e de prática, de maneira que todos os três cursos influenciaram no meu trabalho. Eu tive fases em que se via muito a presença da minha formação e da minha cultura arqueológica. Outras fases, da minha formação filosófica. Sem sombra de dúvida, as três formações tiveram uma importância muito grande.

Unifor Notícias: O senhor já pensou em ser professor?
Bruno Pedrosa: Não. Eu estudei para aumentar e criar o meu cabedal de informação. Para aprender. O professor, para mim, é uma coisa muito séria. O professor forma pessoas, forma opinião, tem que ter alma de educador, e eu não tenho a alma de um educador. Eu não tenho a pretensão de dar lição a ninguém. Eu bato papo, eu converso, faço conferências, mas não como professor. Eu aprendo quando falo, aprendo quando escuto. Ser professor é algo muito sério.

Unifor Notícias: Existe alguma coisa especial que o senhor gostaria que as pessoas apreendessem da exposição?
Bruno Pedrosa: Não. Através do meu trabalho, eu não procuro passar nenhuma mensagem. Meu trabalho é uma expressão do sentimento que estou vivendo no momento que estou criando. Quando um poeta faz uma poesia, ninguém pergunta a ele ‘o que é que significa essa poesia?'. Ninguém! É uma poesia. Então, é uma expressão do meu sentimento. Eu procuro transmitir aquilo, perenizar, botar para fora no papel ou na tela aquele sentimento que estou vivendo. Não gosto de dar explicações sobre o meu trabalho. Eu prefiro que as pessoas vejam.


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 212

 

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