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“As pessoas precisam manter as suas convicções”

com Lobão

212_lobaoLobão é o nome artístico de João Luiz Woerdenbag Filho. O carioca de 54 anos é um músico completo: compositor, instrumentista e cantor. É autor de vários sucessos como Me Chama, Vida Bandida e Corações Psicodélicos.

Saiu de casa aos 17 anos para tocar bateria profissionalmente. No início de sua carreira, integrou o grupo Vímana, a banda Blitz, entre outras. Mas seu negócio era ser solo, no vocal e na produção. No fim da década de 1990, lançou seu disco A Vida é Doce nas bancas de jornal em todo o Brasil. Lobão enveredou como produtor de revista (Outra Coisa) e como apresentador de TV (programas na Play TV e na Mtv). Seu CD/DVD Acústico Mtv (2007) foi premiado com o Grammy Latino na categoria melhor disco de rock. No ano passado, o músico publicou sua biografia 50 Anos a Mil com coautoria do jornalista Cláudio Tognolli.

Lobão chama atenção por sua autenticidade. Com ele não existe meia palavra nem meia modéstia. É sempre intenso em suas respostas e crítico em seu discurso. Confira a entrevista exclusiva dada ao Unifor Notícias por telefone quatro dias antes do show na Unifor.

Unifor Notícias: No seu site, é destacado que você ganhou sua primeira bateria de brinquedo aos seis anos e que aos 13, o instrumento musical. Que significado esses fatos realmente tiveram para sua vida profissional?
Lobão: Foi tudo. Na verdade, eu fui um cara que passou parte da infância, da adolescência na ditadura militar. Aí teve aquela reforma de ensino, e eu não conseguia me ajustar e aprender as coisas do colégio. A única coisa que me deu alguma qualificação foi a coisa que eu vinha tocando desde os 13 anos de idade, que foi a bateria. Desde os 13, eu recebia convite para tocar em bandas profissionais. Secos e Molhados, por exemplo, me convidaram a tocar com 14 anos, mas a minha mãe não deixava. Com 17 anos de idade, eu ainda era menor. Nessa época, eu já tinha repetido o ano no colégio e não sabia o que ia fazer da vida. Tinha medo de ser músico, muito mais de ser baterista, mas na verdade isso foi o que me levou a ser um músico profissional. Era tido como um menino prodígio. Apesar de eu não querer tocar bateria, foi a única coisa que me abriu a porta para ser alguma coisa. Na verdade, eu me julgo um baterista até hoje. Então talvez seja por isso que eu deixe bem claro que eu seja um baterista antes de qualquer coisa.

Unifor Notícias: E por que o medo de ser músico, de ser baterista? Era da época?
Lobão: Hoje talvez as pessoas sejam mais chegadas a essas coisas de celebridade, de querer descolar um BBB, e as mães e os pais acharem isso legal. Mas naquela época não. Minha mãe queria que eu fosse funcionário público como qualquer pessoa de classe média. Ela dizia: 'A gente tem algumas influências. Você entra de pistolão'. Essa coisa bem brasileira. Essa era e é, eu continuo achando, a mentalidade do brasileiro de classe média. A minha mãe não queria que eu fosse músico porque músico era sinônimo de marginal, maconheiro, maluco. E o que era digno era ser um come-quieto, um funcionário público.

Unifor Notícias: Mas independente do medo você saiu muito cedo de casa para ser músico.
Lobão: É, mas eu não tive escolha. Você pode achar que eu fui um cara corajoso, mas eu sinceramente tenho que admitir que eu não fui. Eu estava morrendo de medo e eu só fui porque eu sabia que minha vida estava muito enrolada lá em casa. Eu estava tentando me enganar, que eu queria ser maestro, mas eu não sabia nem ler música. Eu tinha um embasamento mínimo para ser músico e muito menor para ser maestro. Mas era aquela síndrome de dignidade intelectual. 'Pô, eu tenho que mostrar alguma coisa para os meus pais. Vou ser artista, mas vou ser maestro. Se eu não for funcionário público, se eu não for médico, tenho que ser maestro para dar alguma dignidade aos meus pais'. Isso eu relato no meu livro não só como uma síndrome minha, mas como uma síndrome da classe média do Brasil que vigora até hoje também.

Unifor Notícias: Que dicas você dá para um jovem que está querendo ser cantor e sofre certa resistência em casa para ser músico?
Lobão: Primeiro, eu nunca quis ser cantor. Inclusive, quando alguém se refere a mim como cantor, eu acho até muito jocoso. Eu sou compositor, sou baterista, toco guitarra e, eventualmente, interpreto minhas músicas, mas dizer 'o cantor Lobão' (risos) é engraçado. Mas olha, eu não tenho fórmula nenhuma para dar a ninguém. Eu mesmo, como você está constatando, não fui fruto de nenhuma fórmula. Eu fui fruto do caos. Eu fui improvisando como eu estou improvisando até hoje. Seria muito sonso da minha parte dizer 'vocês deveriam fazer isso', principalmente acreditando que o cenário profissional para o músico hoje em dia está muito pior do que já era, por incrível que pareça.

Unifor Notícias: Por que pior?
Lobão: Porque as cartas já estão todas marcadas e não existe mais ninguém que goste de música dentro do business de música. Não tem jornalista, nem radialista, nem produtor musical que goste. É tudo jabá. Eu não sei por que cargas d'água eu sobrevivi, mas ao sobreviver eu digo: 'cara, você é única coisa verdadeira que eu conheço'. As pessoas precisam manter as suas convicções, mas eu não vejo isso acontecendo nem na minha geração, nem nas gerações subsequentes. Quem acaba tendo alguma visibilidade é incorrigivelmente um artista, se é que se pode dizer artista, são coisas medíocres, passivas... Hoje em dia quem faz sucesso tem um produtor, um empresário, um compositor que é a iminência parda daquele artista. Não é artista, é um monte de fantochinho. Eu mando esses caras se f..., sabe.

Unifor Notícias: Existe algum lugar, algum país onde você ache que um outro esquema existe?
Lobão: É lógico que sim. Nós estamos em um paradigma muito medíocre no mundo todo, mas você pega, por exemplo, a Inglaterra. Tem um monte de banda boa. Lá já faz parte da cultura. Na Alemanha, nos Estados Unidos também, e tem banda boa no Brasil também. O problema é que aqui você não tem revista para falar delas, não tem rádio para tocar elas. Você não tem palco para tocar elas. O Brasil é uma monotonia sertaneja. O Brasil só pensa em forró, sertanejo...

Unifor Notícias: Quem é o público do Lobão?
Lobão: É um público raro que consegue se impor perante uma pressão social terrível. As pessoas que não gostam de mim têm um ódio avassalador de mim. Não é de graça que minha carreira é desse jeito. Eu sou seletivo. Quer coisa medíocre? Quer moleza? Senta no colo do Lulu Santos, vai ouvir o Ray Charles. Eu não facilito nada para as pessoas que gostam de mim, porque a minha maior manifestação de amar é não dar trela para ninguém. Eu não sou nenhum demagogo. Ser sonso é a forma canalha de ser o mais psicopatamente desamorizado possível.

Unifor Notícias: Então, é difícil ser um produtor do Lobão?
Lobão: Eu sou o produtor, eu toco todos os instrumentos, eu escrevo minhas letras, eu canto, eu componho minhas músicas, eu sou um engenheiro de som de mim mesmo. Sou o editor e sou também o diretor artístico de mim mesmo, não deixo ninguém fazer mais. A cada ano que foi passando na minha vida, eu fui aniquilando a possibilidade de ter parcerias. Eu atingi um nível de proficiência comigo mesmo que eu não consigo com mais ninguém. O baixo que eu toco é o baixo que eu quero ouvir. A bateria que eu toco é aquela que eu quero ouvir... Eu aprendi a tocar de uma maneira que é a minha linguagem. Eu não só não preciso de mais ninguém, como hoje em dia eu não aturo mais ninguém.

Unifor Notícias: O Lobão é músico, mas já foi apresentador de televisão, produtor de revista, coautor de livro...
Lobão: Fora do reino musical, é tudo esporte, saúde, Rede Globo de Televisão e uma necessidade de não ser ejaculado do mundo musical como os meus inimigos assim o querem. Se eu fui editor de revista, se eu fui apresentador de televisão, foi tudo porque neguinho queria me f...

Unifor Notícias: Sua discografia teve uma variação grande. A que você atribui isso?
Lobão: Na venda, não teve variação nenhuma, foi sempre horrível. Eu sou um desastre de vendas. Mesmo quando eu vendi 350 mil cópias com Vida Bandida, era para ter vendido dois milhões. Eu sempre fui logrado, roubado, por isso eu fui brigar pela numeração dos discos. Até meu último disco, que já tinha numeração, teve um beneplácito da crítica de dizer que eu fui vendido para a MTV. Aí foi um vexame histórico, depois deles terem afundado o disco e eu ter vendido 23 mil cópias, eu ir lá e ganhar o Grammy Latino de melhor disco do ano. Eu convivo com essa idiossincrasia por toda a minha vida. Ainda mais agora, com 54 anos, eu tenho moral para dizer que não tenho paciência com idiota. Aí eu sou mais grosso ainda. Eu já logo decapito (risos).


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 212

 

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