Banner

“Saúde é o entusiasmo de viver”

com Nuno Cobra

212_nunocobraO nome de Nuno Cobra está muito associado ao de seus alunos. Nuno foi preparador físico e mentor de atletas famosos como Ayrton Senna, Christian Fittipaldi, Rubens Barrichello, Patrícia Medrado e de empresários como Abílio Diniz e André Lara Rezende. Mas seu pioneirismo como personal training ocorre desde os anos 1950. Nuno é graduado e pós-graduado em Educação Física, mas também estudou fisiologia, psicologia e sociologia. Atualmente é professor de qualidade de vida em curso de MBA na USP, faz palestras, promove treinamentos empresariais e atende em seu consultório.

No livro “A semente da vitória”, em sua 101ª edição, ele propõe chegar “ao cérebro pelo músculo e ao espírito pelo corpo”. O fisiologista afirma ter sofrido, no passado, agressões por invocar essa nova metodologia. Com uma energia vigorante, mesmo após sua palestra, Nuno respondeu a perguntas em estado alerta: “minha adrenalina está a mil”, relatou aos vários presentes no camarim. A entrevista foi repleta de respostas – e ações – inusitadas.

Unifor Notícias: O senhor é exemplo de pessoa estudiosa. Formou-se e se pós-graduou em Educação Física e estudou muitas outras áreas, como fisiologia, sociologia, psicologia. O senhor acha que os estudantes da área da saúde devem buscar a interdisciplinaridade?
Nuno Cobra: O que é necessário é que os médicos parem de fazer faculdade de Medicina, porque a faculdade de Medicina é muito retrógrada. Os meus melhores amigos são médicos, mas praticamente foram autodidatas porque refutam tudo aquilo que aprenderam em sala de aula. Eles conseguiram superar essa forma pesada da medicina e se tornaram excelentes profissionais da saúde, porque até então eles eram profissionais da doença, eles não sabiam lidar com o paciente que não tinha doença. Nós temos, por exemplo, essa parede. Vamos dizer que lá no chão está o zero e lá em cima está o dez. Temos vários níveis: um, dois, três, quatro... até o dez. Um levantamento estatístico mostrou que as pessoas em torno de 40 a 55 anos se encontram no nível 1,5 de saúde. Então, a pessoa não está doente e não podemos dizer que essa pessoa tem saúde porque ela está num nível muito baixo de saúde. Mas o médico estruturado nesse ramo pesado da universidade não se adequou a essa situação. A universidade ainda não descobriu realmente o profissional da saúde. Como é que na faculdade de saúde se estudam matérias sobre doenças? Como é que se vai fazer saúde? Então, é aquele lema básico que faz 40 anos que eu digo: não há necessidade de ficar doente para começar a cuidar da saúde. Tem que ver os níveis de saúde, coisa que os médicos não fazem.

Unifor Notícias: O senhor pode dar um exemplo?
Nuno Cobra: Na semana retrasada, apareceu lá no meu consultório um senhor, um baita empresário, que chegou lá muito expandido, tipo italiano, falando com as mãos, balançando os braços. 'Professor, o senhor tem que dar um jeito. Você é a minha última esperança. Eu fui a três especialistas muito bons e todos eles me disseram que eu não tenho nada, que eu não estou doente, mas eu estou doente, professor, estou muito doente'. Aí ele jogou lá na mesa os exames. E aí eu perguntei: 'por que você acha que está doente?' 'Professor, quando eu acordo, eu já estou com sono, eu já estou cansado'. Eu pensei: 'poxa, o cara está mal mesmo'. Imagina, você está dormindo, acorda e já está cansado. Não pode! [O paciente continua] 'À tarde, eu estou morrendo de sono. No meu trabalho, eu começo a ler e quando vejo estou cochilando. À noite, eu estou morto. Eu chego em casa, minha mulher quer ir ao teatro, ao cinema, mas eu não aguento'. Aí, depois de ver todos os exames dele, falei assim: 'garotão, você realmente não está doente, o grande problema é que você não tem saúde'. Por alguns segundos, foi aquele silêncio tétrico na sala. Aí ele deu aquela risada e disse: 'eu não estou entendendo mais nada. Eu não estou doente e não tenho saúde?'. Mas é o que acontece com 90% da população do nosso país: eles não estão doentes, mas eles não têm saúde.

Unifor Notícias: E o que é saúde, afinal de contas?
Nuno Cobra: Saúde não é o estado da não doença, saúde é o encantamento com a vida, é o entusiasmo de viver. Saúde é energia, vitalidade, disposição. Então, saúde é higidez, é você estar perto de um monte de pessoas tuberculosas, mas você não adquirir. Isso é saúde. Se você sente que a garganta está arranhando, se você sente que qualquer coisa está diferente, você vai para a cama às 9 horas da noite e no dia seguinte você não vai ter mais nada porque o sono é onde você vai fazer esse upgrade. O sono é a hora em que a hipófise lança na corrente sanguínea os famosos hormônios do crescimento. Quando você dorme, você fabrica bilhões de células que vão fazer o reparo do teu baço, fígado, pâncreas, vesícula, intestino, estômago, coração, neurônios... Quando você acordar, você estará novinho de novo.

Unifor Notícias*: Em que consiste esse seu método chamado de tratamento humano personalizado, que alia corpo, mente, espírito e emoção?
Nuno Cobra: Esse método foi algo que aconteceu. Eu não estudei, eu não li em nenhum lugar e hoje esse método bate muito com os preceitos que acabaram chegando ao Brasil da China, da Índia, mas que há dez, quinze anos não existia por aqui. Não existia esse lado oriental. Eu tive esse acesso, não quero ser esotérico, mas foi uma vivência minha particular, ocorreu comigo. Eu era um cara tão deficiente, tão fraco, tão covarde, tão doente, tão frágil e me tornei tão forte, tão vigoroso, tão poderoso, mudei o temperamento. Na hora, te dá o estalo de que você descobriu uma coisa nova. O que existia era essa terapia de conversar e conversar, mas só conversar e conversar não resolve nada porque pelo intelecto você nunca vai resolver sua vida, porque a sua vida está no seu inconsciente, e nós não temos acesso ao nosso inconsciente. Então, como é meu método afinal? Que mágica é essa? É mágica nenhuma, é a vida. Só que eu aprendi a utilizar aquilo que utilizei comigo. São ferramentas que fazem você trabalhar o corpo da pessoa e, através das conquistas que ela vai fazendo com o corpo dela, ela vai se tornando vitoriosa com ela. Quando você vence você, você vence o mundo. A princípio, eu era louco. Chegar ao cérebro pelo músculo e desenvolver o cérebro ou chegar ao espírito pelo corpo e desenvolver o corpo – isso não era uma coisa científica ou acadêmica, então eu era louco. Como é que eu provava que ocorre a neurogênese no cérebro adulto? Eu cheguei à conclusão de que, para eu sobreviver numa atmosfera tão ingrata comigo, tão maldosa, tão agressiva, eu tinha que ter forças interiores muito grandes. Os resultados com os meus alunos iam me dando essa força. (Nuno se aproximou de uma das jornalistas presentes na entrevista assim que a viu dizendo que ela estava precisando de ajuda.)

Unifor Notícias: A que você atribui ter sentido essa diferença de sintonia da nossa colega? Isso faz parte do método também?
Nuno Cobra: Isto é o que eu tento fazer com meus discípulos: eles se desenvolverem como pessoas. Quando você cresce, primeiro você descobre Deus, porque ele está dentro de você. Aí você se espiritualiza. Eu sou extremamente espiritualizado, eu só não tenho religião. Se estou tão feliz, evidentemente eu me preocupo com o próximo. Se eu irradio uma coisa gostosa, é porque eu estou gostoso. Se você se espiritualiza, você cria sentimentos e sensações. Essa coisa de chegar aqui na sala e sentir que ela tem um potencial que precisa ser desenvolvido, e vejo que você está bem desenvolta em relação a ela, eu tenho que fazer alguma coisa com ela. Isso é uma coisa minha. Acho que isso se chama amor, é espiritual. Isso foi desenvolvido através do meu corpo. O método que eu passo para os meus discípulos é que eles aprendam a utilizar o corpo. Põe a mão no meu braço (risos). Eu faço exercícios. As pessoas da sua idade ficam absortas. O triste foi um rapaz que foi lá em casa outro dia e disse: 'Santo Deus, como é que você faz um negócio desses e com essa idade?' Eu queria ter dado uma porrada no cara, porque não tem idade. A idade está na sua estrutura cultural. Quer saber meu método? São ferramentas. Ferramenta é fazer barra, é ficar de cabeça para baixo, fazer exercícios que jamais passaram na sua cabeça que você pudesse fazer.

(Nuno convoca uma outra jornalista a levantar-se. Pede a ela que coloque as mãos apoiadas no chão. Depois, segura suas pernas fazendo-a plantar bananeira.)

Nuno Cobra: Não é fantástico? Você fez algo inusitado [falando para a jornalista]. Sua cabeça passou por uma experiência inusitada. Sabe o que aconteceu com ela? Superação, conquista, vitória. Ela superou o medo do desconhecido, do novo. Então, ela vai dormir com outro cérebro. Agora conta o que você fez. Você não foi a proprietária da sua conquista? Sabe no que é baseado o meu método? A gradatividade. Tudo é gradativo. Outra coisa: quando ela está tentando fazer algo novo, ela está fazendo uma coisa que o cérebro não sabe. Como você está tentando fazer uma coisa que você não sabe, você está exigindo do cérebro, e ele está criando novas conexões interneurais.

Unifor Notícias: Você já trabalhou e trabalha com diferentes grupos: empresários, presidiários, atletas. O que o senhor desenvolve com empresários é diferente do que desenvolve com atletas, por exemplo?
Nuno Cobra: Nada, só a intensidade. Quando o cara chega no consultório, eu não quero saber muito o que que ele quer, se foi infartado, se tem síndrome do pânico ou se é muito depressivo ou diabético. Ele vai ficar bom porque toda doença adquirida pode ser desadquirida. Existem as doenças hereditárias e as congênitas – essas são doenças. Essas cabem ao médico tratar porque são doenças. Agora essa doença adquirida pode ser desadquirida, mas a primeira coisa é parar os medicamentos. Por que parar os medicamentos? Porque o médico, pela própria criação na faculdade de Medicina, vai atacar sempre os efeitos e não as causas. Se você está doente, se você está com dor, é uma defesa do organismo. Se a perna está doendo, tem que saber o que foi que você fez: bateu, correu de forma errada... Tem que saber o porquê. A criança está com febre, e a mãe dá logo um antifebril. Loucura! Põe a criança num banho morno, molha a fraldinha e põe no peito... É o que eu falo para os meus filhos fazerem. Mas não dá a porcaria do remédio, que já vai estropiar o fígado do coitadinho.

Unifor Notícias: Na sua palestra, o senhor falou muito da influência negativa das mães e dos pais na criação dos filhos. Como foi a criação dos seus filhos?
Nuno Cobra: Eu tive quatro filhos. A Rosane, que está com 47 anos; o Wagner, com 46; o Nuno, com 44. O Renato, o caçula, está com 33 ou 32. Eles foram criados com a minha filosofia da não intervenção. A criança está correndo, ela tropeça e cai. Você olha rápido e faz uma análise se a queda oferece risco de vida. Se não oferece, na hora em que a criança olhar para você, você diz: 'Meu Deus, filho, que legal!' Aí ele está querendo chorar, mas limpa a roupa e continua correndo. Ele sente a dor, mas ela é relativa. Se ele não acha apoio, ele não chora. Eu eduquei assim e hoje eu colho os resultados. Claro que ninguém cria um filho sozinho, tem que ter a mulher. Não deu para fazer a educação do jeito que eu queria. Ela não tinha os estudos que eu tinha. Eu estudei muito, minha linha era a de Summerhill [em referência à escola inglesa de Summerhill, fundada por A. S. Neill, que propõe uma educação liberal], que ficou muito famosa na década de 1960 ao propor a não intervenção frequente na criança. Eu tive meus erros, meus acertos, mas no fritar dos ovos a metodologia gerou pessoas com personalidades fortíssimas. Você vê a Rosane com o carro na rua, antigamente a gente falava 'parece um homem', mas é assim, ela tem o pensamento do 'eu posso'. Para criar um filho assim, o pai sofre, mas vale porque esse filho vai ser seguro, vai ser líder. É incrível.

* Perguntas feitas por Raquel Holanda, jornalista do Canal Unifor.


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 212

 

Unifor Notícias | Portal Unifor | Fundação Edson Queiroz
Estude na Unifor | Central de Atendimento | Twitter
Fundação Edson Queiroz todos os direitos reservados