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“Inovação é a mudança do comportamento”

com Silvio Meira

212_silviomeiraSilvio Meira é um dos maiores nomes da pesquisa na área de engenharia de software do país.Já foi assessor da Secretaria de Política de Informática do Ministério da Ciência e Tecnologia, presidente da Sociedade Brasileira de Computação e consultor do Banco Mundial e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Recebeu da Presidência da República as comendas da Ordem Nacional do Mérito Científico. Formado em Engenharia Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), é mestre em informática pela Universidade Federal de Pernambuco e doutor em Computação pela University of Kent at Canterbury, na Inglaterra. É paraibano, mas reside em Recife (PE), de onde escreve seus contínuos textos sobre tecnologia da informação e seu impacto na sociedade, publicados em cadernos científicos, na imprensa e em seu blog pessoal. Silvio veio sem assessor de imprensa, com mochila nas costas e usando jeans e tênis. Com estilo jovial e tom de voz esbanjando energia, ele concedeu entrevista ao Unifor Notícias um pouco antes de sua palestra no quarto dia de programação do Mundo Unifor.

Unifor Notícias*: Você acha importante o aluno da área de computação buscar a tecnologia associada a outras ciências?
Silvio Meira: Na vida real, a gente não usa uma ciência só, uma tecnologia só. A vida real não tem perguntas e respostas, ela tem problemas e soluções. Os problemas não são de física, nem de química, nem são de informática ou de tecnologia. Eles são problemas na vida real que envolvem um multifacetamento muito grande, que envolvem uma multidisciplinaridade nata dos problemas. Eles acontecem nas empresas, nos sistemas, nas instituições de uma forma em que no mínimo há pessoas envolvidas. Então você tem que entender de gente. Há pressupostos de negócios: há preços, há custos, há tempo, há performance, há qualidade, há segurança. Então você tem que entender do negócio. E seja lá qual for a tecnologia que você estiver usando, se for médica, se for de informação, se for de engenharia civil, ou o que for, você tem que usar a tecnologia dentro de um contexto de negócios e pessoas. Então, não tem como evitar a multidisciplinaridade e não tem como se concentrar numa ciência ou numa tecnologia só. Os problemas da vida real são, intrinsecamente, transdisciplinares.

Unifor Notícias*: Qual o papel da universidade no avanço tecnológico?
Silvio Meira: A universidade tem como seu principal papel educar pessoas de uma maneira sofisticada. Essa sofisticação envolve você se concentrar em fundamentos para a evolução das pessoas no longo prazo. Tipicamente, um aluno que sai de uma universidade de boa qualidade devia aprender um certo conjunto de coisas que vão possibilitar que ele continue aprendendo no correr da sua vida profissional e depois quando ele se aposentar. Mas a universidade também tem o papel de fazer pesquisa, de participar dos processos de inovação na sociedade e nas empresas. E esse papel da descoberta, da pergunta, da questão do problema é fundamental para manter acesas as mentes na universidade. Se a gente simplesmente se transformar em replicador do conhecimento estabelecido, a gente não está educando para o presente, a gente está educando para o passado, porque a evolução dos problemas nas economias e na sociedade se dá hoje numa velocidade tão grande que você não tem que se preocupar com o presente, mas sim com o futuro. Com a combinação da capacidade de educar de forma sofisticada e complexa, a capacidade de fazer perguntas sobre os problemas reais que a sociedade enfrenta é o que faz uma universidade de qualidade.

Unifor Notícias*: O que é mais importante: a inovação dos produtos tecnológicos ou a infraestrutura para que esses equipamentos funcionem bem?
Silvio Meira: Nenhum dos dois é mais importante. Inovação é a mudança do comportamento e de agentes no mercado com fornecedores e consumidores de qualquer coisa. Então, para você oferecer um novo serviço, tem que aparecer quem esteja fornecendo uma infraestrutura para que aquele serviço exista. E essa infraestrutura tem que ser de qualidade, tem que estar amplamente disponível, tem que ter um preço que seja acessível para a população que você quer atingir, e por aí vai. As grandes inovações sempre são sociais. Sociais no sentido de que elas são proposições para o todo da sociedade. Eventualmente, atingem só um nicho, mas, quando você pensa em PCs, celulares, smartphones, você está falando em coisas que foram propostas para todo mundo em uma escala muito grande. E aí é difícil diferenciar se a infraestrutura é mais importante do que algum resultado particular que funcione sobre elas. Se não fossem essas proposições para agregar valor como resultados, as infraestruturas seriam desnecessárias. Se não houvesse as infraestruturas, seria impossível agregar valor como resultado. E eventualmente você só cria infraestrutura quando tem as proposições de valor, como é o caso da infraestrutura de mobilidade do Brasil. O serviço, temporariamente, é uma porcaria, ou seja, a infraestrutura não aguenta os serviços que estão propostos sobre ela.

Unifor Notícias: Como é que você avalia o uso da informática, das tecnologias nas universidades brasileiras. Estamos aquém do esperado?
Silvio Meira: Em tese, nós não estamos aquém. Os currículos brasileiros são currículos bons. Existe um currículo de referência na Sociedade Brasileira de Computação que é adotado inclusive aqui na Unifor e nas principais universidades do Brasil inteiro. A gente não está pegando alunos na universidade que estão preparados para fazer desse currículo uma performance que a gente poderia chamar acima da média, porque são alunos que poderiam estar preparados para fazer um curso de tecnologia, que exige uma certa profundidade de ciências exatas, de lógica, de raciocínio mais abstrato. Nem mais nem menos sofisticado do que o de história, ou de geografia, ou de matemática, ou de medicina. Mas bem mais abstrato, porque informática é um conjunto de ciências de tecnologias tipicamente da abstração – como é que a gente tira coisas do real e põe no virtual? Como é que a gente transforma realidade num simulacro? Informatizar uma empresa equivale a criar uma simulação dessa empresa em softwares. Você cria um mundo virtual. Então, para cada vez que você tem uma pessoa pensando em fazer informática, você devia estar olhando para pessoas que são capazes de fazer essa transposição quase de forma inata. E isso não é o que acontece. As universidades na área de tecnologia fazem no Brasil um esforço muito grande, muito acima da média para trazer as pessoas a esse ponto em que todo mundo entende que o que a gente está fazendo é a construção de mundos virtuais. E eventualmente a reinserção desse virtual no real. Quando você faz um robô, você virtualiza um conjunto de operações e o reinsere no real de uma forma às vezes muito intrusiva. Eu acho que tem muito para a gente fazer, mas nós estamos num patamar mundial muito bom.

Unifor Notícias: Você tem um filho de 10 anos. Como você avalia o uso de jogos eletrônicos pelas crianças?
Silvio Meira: Fantástico. É muito melhor do que bola de gude, bola de meia, atirar de badaleira em passarinho ou aprender a atirar de rifle, como eu aprendi lá em Recife. Certamente, jogos eletrônicos por mais violentos que sejam são bem menos violentos do que um menino de 10 anos, como foi o meu caso, com uma baladeira matando gato e qualquer coisa que passava na minha frente.

Unifor Notícias: Mas há toda uma crítica que se faz ao uso dos jogos...
Silvio Meira: A crítica é insubstanciada. Não há nenhuma evidência científica que demonstre que o uso de jogos violentos por crianças e adolescentes os torne violentos fora do seu ambiente familiar. É claro que há incidentes aqui e ali, mas esses já existiam sem os jogos. Crimes seriais, homens-bomba, pessoas que atiram dentro de escolas não surgiram por causa de jogos. Não que eu vá querer que meu filho que só tem 10 anos passe o dia jogando um jogo em que se atropelem pessoas no meio da rua ou explodam coisas o tempo todo. Na realidade, eles nem gostam disso o mais das vezes. Se você for ver o que as pessoas mais jovens gostam de jogar hoje, são jogos comunitários, sociais, em que eles participam junto com outras pessoas na construção desses simulacros, desses universos virtuais. Eles não estão querendo o tempo todo jogar o GTA [Grand Theft Auto], que é o jogo protótipo usado pelos críticos de jogos como se fosse o jogo que iria acabar o mundo.

Unifor Notícias: Se o Silvio Meira fosse um jovem que vai iniciar a carreira, haveria mudança na sua formação profissional?
Silvio Meira: Olha, eu mudaria porque fiz Engenharia Eletrônica porque na época não tinha Informática. Na verdade, eu começaria por Robótica. Aprender como as coisas se mexem, isso tem de novo aquela questão da transdisciplinaridade... Para fazer, por exemplo, robôs que nadam, tem que se entender de água, de ecossistemas, etc. Eu começaria por aí. Certamente, jogos eletrônicos, por mais violentos que sejam, são bem menos violentos do que um menino de 10 anos, como foi o meu caso, com uma baladeira matando gato e qualquer coisa que passava na minha frente.”

* Perguntas feitas por Raquel Holanda, jornalista do Canal Unifor.


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 212

 

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