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“Sou a favor do profissional generalista”

com Max Gehringer

212_maxgehringerMax Gehringer é administrador e escritor. Ficou conhecido nacionalmente por suas colunas sobre empregabilidade, comportamento profissional e motivação no trabalho em revistas nacionais como Época e Você S.A., na rádio CBN e no programa Fantástico da TV Globo. Gehringer teve seu primeiro emprego aos doze anos como auxiliar de faxina. Sua ascensão profissional chegou ao topo de uma carreira de executivo em grandes empresas, como Pepsi-Cola e Pullman, onde foi presidente. Mas aos 49 anos deixou a carreira bem-sucedida e foi ser escritor. Entre seus livros, estão: Não Aborde seu Chefe no Banheiro, Relações Desumanas no Trabalho e Emprego de A a Z. Pós-graduado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), apoia a ideia de um profissional generalista, e inclusive define-se como tal. “A diferença de uma área para a outra é nenhuma porque todas são compostas por pessoas que precisam ser entendidas”, diz. Falante e bem humorado, Gehringer concedeu entrevista ao Unifor Notícias antes de subir ao palco como primeiro palestrante do Mundo Unifor.


Unifor Notícias*: Qual a importância de uma universidade na construção de uma carreira de sucesso?
Max Gehringer: Hoje é fundamental. Nós tivemos uma época no Brasil, que deve ter acabado há uns trinta anos aproximadamente, em que um diploma de nível superior era um diferencial. O Brasil na época ainda não tinha classe média, existiam os muitos pobres e os muito ricos. Nesse caso, quem tinha o curso superior tinha uma garantia absoluta de sucesso profissional. A partir da década de 90 no Brasil, começamos a ver um aumento do número de faculdades, um aumento do número de pessoas que podiam cursar uma faculdade, os preços ficaram mais acessíveis, a quantidade de cursos aumentou muito, a quantidade de vagas aumentou muito. Então, chegamos a um ponto em que quem não tem um curso vai ficar muito para trás. Se houve uma época em que ter um curso superior era sair na frente, hoje é preciso ter um curso superior para não ficar para trás.

Unifor Notícias*: Como o senhor avalia o fato de que mestres e doutores cada vez mais estão sendo absorvidos pelas empresas?
Max Gehringer: Diria que mestres e doutores estão entrando em empresas porque eles estão procurando emprego em empresas. Não acho que asempresas estão necessariamente procurando mestres e doutores. Talvez porque pesquisador neste país não ganhe o suficiente para a pessoa se sentir feliz. A empresa recebe de muito bom grado uma pessoa que tem um doutorado e se disponha a fazer algo que é diferente ao mundo de pesquisa. O mundo da pesquisa é, como eu poderia dizer sem ofender ninguém, mais lento. Você pode esperar muito tempo até obter um resultado, fazer o mesmo experimento cinco, seis vezes até ter certeza absoluta de que aquilo vai funcionar. E na empresa, como se sabe, é preciso tomar uma decisão com 30% de dados e acertar em 99% dos casos. Essa é a vida do executivo. Mas ter alguém com tremendo conhecimento que se disponha a se encaixar na vida corporativa é uma maravilha. Eu imagino também que, se existe essa migração de mestres e doutores no mundo corporativo, é porque o que está sendo oferecido é bastante atrativo. Isso é bom ou é ruim? É bom. Significa que do lado de lá, na parte de pesquisa, precisa se pagar um pouco mais para manter esse pessoal.

Unifor Notícias*: O que tem mais peso no mercado: ser um profissional generalista ou ser focado em uma área específica?
Max Gehringer: Eu sou a favor do profissional generalista, eu sou um profissional generalista. Eu trabalhei em três ou quatro áreas diferentes e quando pulei de uma para outra não tomei nenhum susto. Eu sempre achei que a diferença de uma área para outra é nenhuma porque todas são compostas por pessoas que precisam ser entendidas e, se a gente conseguir entender as necessidades das pessoas e fazer com que elas se sintam bem, o mundo funciona muito bem. O conhecimento específico para desempenhar uma função não é muito complicado. ‘Para onde eu vou agora?’ ‘O que eu preciso estudar?’ ‘O que eu preciso fazer?’ Hoje nós temos alguns setores onde nós precisamos desesperadamente de especialistas. O setor de informática, por exemplo, não pode ter generalistas. A gente precisa cada vez mais de especialistas nessa área. Então, nós abrimos o mercado de trabalho em duas frentes: a frente dos generalistas, que se dá muito bem, e a frente dos especialistas, que também se dá muito bem. A pessoa só precisa se decidir o que ela é. Se ela funciona melhor aprendendo uma coisa só, se aprofundando cada vez mais naquilo até saber tudo sobre uma coisa o suficiente para ela ganhar uma fortuna porque ninguém sabe tudo quanto ela. Ou se é uma pessoa que se sente bem pulando de uma empresa para outra, de um ramo para outro, de uma atividade para outra. A pessoa precisa se entender e não procurar a resposta no que o mercado está querendo, precisa saber o que ela quer.

Unifor Notícias*: Que dicas o senhor pode dar a um jovem que está procurando o primeiro emprego?
Max Gehringer: Faça um curso técnico antes de fazer uma faculdade. O índice de empregabilidade em um curso técnico é de 92%. Para quem faz uma faculdade, supondo que a pessoa nunca trabalhou na vida, o índice de desemprego é altíssimo. Isso porque nós pulamos o curso técnico no Brasil de uns tempos para cá. E com isso nós criamos um enorme vácuo para técnicos; nós não temos mais marceneiro, pintor, pedreiro, mecânico, está faltando tudo. Quem consegue fazer isso vai conseguir emprego mais fácil. Muitos jovens dizem assim: 'Ah, mas será?'. A opção aqui não é entre curso técnico ou superior. Não existe essa opção. A opção são as duas. Faça as duas. Você faz o técnico e depois você faz o superior. O que acontece é que, quando o jovem faz um curso técnico, está trabalhando há um ano, dois anos em uma empresa, ele tem uma visão muito melhor das diversas áreas para escolher o curso que vai fazer. Como é que eu posso optar para o curso superior? Preciso conhecer as áreas. Se eu quero fazer Administração, o que é a malha administrativa? Essa é uma dica. Não deixe de fazer o curso superior e todos os cursos que vêm depois. A cada ano que passa, como mais gente completa o curso superior, tem que fazer o próximo, que é uma pós-graduação. Quando todo mundo tiver uma pós, eu tenho que fazer um MBA. Isso não para nunca. Mas, ao pular o curso técnico, nós criamos uma situação estranhíssima no mercado em que técnicos conseguem ganhar mais do que bacharéis. E algo está errado. Eles conseguem emprego ganhando mais exatamente porque não existe oferta de mão-de-obra. Imagina que a torneira da sua casa está pingando, aí você liga para um mecânico, que já não está fácil de se achar, aí é muito provável que ele vai dizer que vai na semana que vem, porque a agenda dele está lotada. Agora, se você precisar de um advogado, você consegue um amanhã cedo porque está sobrando. Os jovens estão ignorando esse fato.

Unifor Notícias: Aos 49 anos, o senhor saiu de um emprego como presidente de uma empresa e foi se dedicar à carreira de escritor. Por quê?
Max Gehringer: Porque nós temos duas estatísticas no Brasil que estão indo em direções opostas. Uma delas é que a velhice nas empresas chega muito rápido. Aos 45 anos, as pessoas já são velhas nas empresas, só que a expectativa de vida útil do brasileiro está aumentando muito. Eu já tinha na cabeça desde os meus 30 anos de idade que em algum momento eu tinha que sair, e eu tinha que sair antes que alguém achasse que eu tinha que sair, tinha que fazer o meu plano. A grande dúvida era: eu trabalhei a minha vida inteira em empresas, então o que eu vou fazer, o que eu posso fazer? Também não adianta parar e não fazer mais nada. Das coisas que eu achava que eu podia fazer, uma delas era escrever, então eu passei dez anos escrevendo para mim mesmo. Dos 35 anos em diante, eu escrevia. Às vezes, eu escrevia a mesma história umas 20 ou 30 vezes, lia, rasgava. Ninguém leu durante esses dez anos nada do que eu escrevi, mas quando eu comecei eu tinha um estilo pronto que eu tenho até hoje. Então, eu me preparei muito bem para dar esse salto depois. Obviamente, eu não esperava o que aconteceu depois – eu queria ser escritor, eu não pensei trabalhar em rádio, televisão, esse tipo de coisa que eu faço hoje, mas aconteceu e foi maravilhoso. A dica é: prepare-se porque a sua vida útil numa empresa está cada vez menor, com tanto jovem inteligente, bonito, bem formado, ambicioso entrando em empresas. As pessoas daqui a dez anos vão ser muito velhas aos 40 anos para as empresas, mas muito jovens para a vida. Elas vão ter 30 anos de vida social útil pela frente. Elas precisam achar uma coisa para preencher, e muito provavelmente as empresas não vão dar essa possibilidade. Eu sempre digo que é possível ter uma boa qualidade de vida e uma carreira de sucesso, mas não as duas coisas ao mesmo tempo. Você escolhe qual a que você quer. Se você quiser qualidade de vida, você vai ser pobre. Se quiser o sucesso, você acumula dinheiro suficiente para ter a qualidade de vida que você pode definir. Muita gente me fala: 'Ah, eu acordo às 5 da manhã para correr, eu tenho qualidade de vida'. Aí eu digo: 'Isso é falta de qualidade de vida. Qualidade de vida é decidir que horas você vai acordar, onde e por quanto tempo você vai correr'.

Unifor Notícias: E o Max Gehringer tem uma boa qualidade de vida?
Max Gehringer: Ah, eu tenho. Eu trabalho dois dias por semana. Eu tiro dias inteiros para simplesmente ficar olhando para o céu conversando com passarinhos Não adianta eu entrar num ritmo mais maluco do que eu já tinha. Eu parei por isso mesmo. Eu posso escrever, aí eu dou uma parada, aí eu vou fazer outra coisa, vou ler um livro... Eu sou do interior e me sinto estupidamente bem sendo do interior. Eu adaptei o que faço ao que eu sou. Mas antes disso eu tive que trabalhar em empresas grandes que ficavam nas capitais. Pegava o meu carrinho, um Fiat 147, e ia dirigindo 80 quilômetros de manhã e 80 quilômetros à tarde. Mas nunca saí do ambiente em que eu nasci.

Unifor Notícias: Se o senhor estivesse numa entrevista de trabalho, como é que o senhor responderia à pergunta: quem é Max Gehringer?
Max Gehringer: Eu não me lembro se algum dia eu tive que responder a essa pergunta porque não é uma pergunta que se faz em entrevista. Os entrevistadores e as empresas estão muito pouco preocupados com quem você é. Eles estão muito mais preocupados com o que você pode dar, qual vai ser a sua contribuição. Então, a resposta que eu daria seria a seguinte: 'Max Gehringer é uma pessoa que vai fazer o possível para contribuir com tudo que a empresa precisar dele'. Essa é a resposta. Não adianta dizer essas autodefinições, autoelogios que não se tem como comprovar. O que a empresa precisa de mim? Na hora em que eu souber isso, eu vou fazer um pouco mais do que ela espera que eu faça. Eu tinha uma frase muito bonita quando eu trabalhava com o meu chefe e sempre dizia para ele: 'chefe, eu ganho muito mais do que eu preciso e muito menos do que eu mereço'. Enquanto a gente pensar assim na vida, nós ainda temos para onde ir.

Unifor Notícias*: Qual a importância de eventos como o Mundo Unifor, que mudam a dinâmica do espaço universitário?
Max Gehringer: A definição de escola que meus pais tinham era a seguinte: é um local onde você vai aprender, vai ter lição, vai decorar, vai tirar uma nota, e aquela nota determina se você é um bom ou mau aluno. Aí a gente vai estudando, estudando, estudando e muito depois cai a ficha. Na verdade, decorar um ponto e tirar uma nota talvez fossem o suficiente para passar de ano, mas não são a essência da escola. A essência da escola consiste em: que experiências eu tive, que pessoas eu conheci, que professores eu guardei o nome, aqueles que um dia, se eu precisasse de ajuda, eu iria pedir a eles. A grande experiência que nós levamos das escolas e dos cursos que nós fazemos está muito pouco ligada ao que nós aprendemos. Se a gente estuda quatro anos para qualquer coisa e se a gente pergunta a alguém que se formou há cinco anos, por exemplo, ele não lembra mais de 5% do conteúdo curricular que ele aprendeu, mas se lembra de professores, de alunos, das boas experiências, das cacetadas que levou, momentos de emoção, de nervosismo, de raiva. Isso é que constrói a vida, não o curso em si.

* Perguntas feitas por Raquel Holanda, jornalista do Canal Unifor.


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 212

 

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