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Quando o alimento torna-se vilão

Programa de extensão trata pacientes com transtornos alimentares e obesidade sob uma abordagem transdisciplinar e a custo zero. Fundado em 2005, o projeto agrega profissionais e alunos de Nutrição, Psicologia e médicos residentes em Psiquiatria. O objetivo é a reeducação alimentar com atenção aos problemas psicológicos atrelados ou causadores das disfunções alimentares.

212_alimentacaoLuiz Orlando Abreu Júnior possui compulsão alimentar há muito tempo. Com o sobrepeso, veio a diabetes, a pressão alta e o colesterol acima do nível normal. “Nunca me preocupei com nada. Não me preocupava com os demais da minha família, minha esposa e filhos”, resume sobre o problema. Em junho do ano passado, no entanto, Luiz iniciou um tratamento para o seu transtorno e diz que o cenário mudou. “O programa só tem me dado prazer. Aprendi a viver novamente. Aqui o pessoal absorve a gente. A nutricionista diz para mim 'não quero que você emagreça, quero conhecer você'. A nutricionista não me proíbe de comer nada. Ela me deixa bem à vontade”, avalia o atendimento recebido do Programa Interdisciplinar de Nutrição aos Transtornos Alimentares e Obesidade (Pronutra), da Universidade de Fortaleza.

Fundado em 2005, o Pronutra oferece como diferencial a interdisciplinariedade da assistência profissional e um novo conceito em como lidar com dietas e como abordar o paciente. “Aqui no Pronutra, não existe a preocupação excessiva com dieta. É um atendimento peculiar, com autoavaliação. O tratamento é através da reeducação alimentar, da educação nutricional. Cada paciente é atendido e esclarecido de acordo com o seu perfil. A forma como a gente vai trabalhar o conteúdo pode até incluir atividades lúdicas, fantoche, objetos plásticos. A gente se aproxima da realidade do paciente, principalmente porque a maioria dos que passam por aqui já experimentaram todos os remédios e programas de emagrecimento, e sempre chegam com a sensação de fracasso”, explica a coordenadora do programa, Myriam Fragoso.

TRANSTORNOS
De acordo com a coordenadora, a maioria dos transtornos alimentares acomete adolescentes e adultos jovens do sexo feminino. Dos cerca de 20 pacientes do Pronutra, atualmente apenas dois são do sexo masculino. “Um transtorno alimentar é algo que não tem um processo etiológico-patológico definido e pode ser desencadeado por vários fatores – sociais, psíquicos, genéticos, culturais, familiares – combinados em maior ou menor grau. O caso mais comum é a compulsão alimentar periódica, no qual a pessoa tem a sensação de descontrole sobre o que come, fica com sentimentos negativos em relação a si própria, mas não utiliza métodos compensatórios, como o uso de diuréticos, laxantes, o vômito autoinduzido, etc.”, acrescenta Myriam.

Anorexia, bulimia são outros exemplos de transtornos alimentares. Para mais ou para menos, as pessoas com um transtorno têm no peso, ou na variação deste, o ponto nevrálgico.

Diferentemente dos demais programas do Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami) da Universidade, para participar do Pronutra, basta ter cadastro no Sistema Único de Saúde (SUS). “Há um subdiagnóstico na ponta. Os profissionais geralmente não são capacitados para diagnosticar o transtorno alimentar. Aqui há o diagnóstico do transtorno alimentar como uma doença”, justifica Myriam a não exigência do encaminhamento a um posto de saúde.

TRIAGEM
A triagem para o programa é feita por uma equipe interdisciplinar composta por psicóloga, nutricionista e psiquiatra. “A pessoa agenda um atendimento e na triagem a gente faz um apanhado biopsicossocial desse potencial paciente. A equipe entra em consenso se ela possui ou não o transtorno alimentar. Se ela não tem, pode ser encaminhada para o ambulatório de Nutrição do Nami ou, se for constatado apenas o quadro clínico de depressão, por exemplo, ela é encaminhada para o setor de Psicologia. O paciente é contemplado de alguma forma, nunca fica sem assistência”, enfatiza Myriam.

ATENDIMENTO
Quando a pessoa tem o transtorno, é contemplada com um acompanhamento semanal. O atendimento é dividido em dois grupos: às segundas-feiras, são tratados os pacientes que possuem algum transtorno alimentar, mas que não fazem uso de métodos compensatórios; às quartas, o atendimento é dedicado aos que fazem uso de métodos compensatórios. Independente do dia, cada paciente passa por duas avaliações – a da nutrição e a da psicologia, com 50 minutos cada seção. “O paciente pode ainda passar por um médico residente em Psiquiatria, dependendo da gravidade do caso”, acrescenta Myriam.

O Pronutra é um programa de extensão vinculado ao curso de Nutrição, mas é também composto por profissionais e alunos do curso de Psicologia e médicos residentes em Psiquiatria do Hospital Mental de Messejana, parceiros do programa.

MULTIDISCIPLINAR
Às quartas, após as 17 horas, é feita uma sessão clínica entre os profissionais das três áreas do programa. “Toda a equipe discute os casos. É o pensar estratégico perante cada caso. O mais legal é que a sessão é aberta ao público, acontece na sala do primeiro andar do Nami”, ressalta Myriam. As exposições ocorrem sem a divulgação do nome dos pacientes. Para a realização das sessões, a coordenadora garante que todo semestre é feita uma capacitação para haver uma equiparação da linguagem clínica entre nutricionistas, psicólogos e psiquiatras.

LONGA DURAÇÃO
Geralmente, os tratamentos feitos no Pronutra são longos porque envolvem também questões psicológicas. “A duração do tratamento varia muito. Já teve casos em que em menos de um ano o paciente recebeu alta e já houve um outro em que a pessoa passou quatro anos conosco”, comenta Myriam. A coordenadora da área de Psicologia do Pronutra, Raquel Barsi, afirma que os pacientes chegam ao programa com relações de vida e familiares “tristes” e que primeiro é necessário lidar com os problemas de ordem psicológica. “O transtorno alimentar é um sintoma. A relação com o alimento tem um pouco a ver com essas relações sociais problemáticas. Às vezes a gente, enquanto profissional, tem que se esquecer do transtorno alimentar. A mudança de comportamento alimentar é o objetivo do programa. A mudança de peso é uma consequência disso, e isso é uma inversão do que eles estão acostumados a ter”, afirma.

Serviço

Alunos interessados em estagiar no Pronutra devem entrar em contato com o programa. O processo seletivo é através de prova escrita e oral. Alunos do curso de Nutrição precisam estar cursando a disciplina de Formação Profissional V, e os de Psicologia precisam estar matriculados na disciplina de Psicologia Clínica.

Saiba Mais

  • Transtorno alimentar pode causar severos danos à saúde de um indivíduo. Geralmente apresenta suas primeiras manifestações na infância e na adolescência. A grande maioria dos casos, estima-se em 90%, ocorre em mulheres jovens.
  • Anorexia nervosa é um transtorno alimentar caracterizado por uma insuficiente dieta alimentar autodeterminada pela pessoa, desencadeando peso corporal abaixo do normal (85% ou inferior ao nível normal). Em mulheres, a anorexia é determinada também pela ausência de ao menos três ou mais menstruações.
  • Bulimia é outra disfunção alimentar. É caracterizada pela compulsão alimentar – a pessoa ingere uma grande quantidade de alimentos em um curto período de tempo, sente sensação de desconforto ou descontentamento sobre o que come e em seguida faz uso de métodos compensatórios, como jejuns, vômitos autoinduzidos, laxantes e diuréticos, para evitar o ganho de peso. Para se designar um caso de bulimia, é necessário que os atos tenham ocorrido pelo menos duas vezes por semana nos últimos três meses.
  • Fortaleza é a quarta capital brasileira em obesidade no Brasil. 47% da população está acima do peso considerável saudável. (Fonte: Ministério da Saúde)
  • Para saber o peso ideal em adultos, é usada em geral a fórmula do índice de massa corporal (IMC): peso dividido pela altura ao quadrado (peso/altura²). Se o resultado ficar entre 18,5 e 24,9kg/m², a pessoa está com estado nutricional considerado saudável; entre 25 e 29,9kg/m², a pessoa está com sobrepeso; de 30 a 34,9kg/m², com obesidade; de 35 a 39,9kg/ m², obesidade grau 2; igual ou maior que 40kg/m², obesidade grau 3.

 

Depoimentos

212_geraldomagelaGeraldo Magela de Carvalho tem uma filha de 19 anos com anorexia nervosa há mais de seis anos que está sendo tratada no Pronutra há pouco mais de um ano. Ela já fez tratamento com psicólogos particulares e de convênio. “O tratamento é muito bom e ela já teve uma melhora. Quando chegou aqui, o caso já estava mais estabilizado, mas ela passou quase três anos sem vida, só dormia. Parou de estudar na 7a série, mas agora está cursando a 9a série, fazendo supletivo e um curso de informática”, enumera as mudanças efetivas do quadro.



212_raissarabeloRaíssa Rabelo Marques está no 11º semestre do curso de Psicologia e é uma das dez extensionistas do Pronutra. Ela diz que procurou o estágio no programa por ter interesse forte na temática. Segundo ela, a troca de informações entre profissionais enriquece muito o conteúdo e a experiência apreendida. “Acho a proposta do programa ótima por ser interdisciplinar. A interdisciplinariedade é boa para mim, por ter contato com outros profissionais, e para os pacientes, por serem vistos sob diversos olhares”, afirma.

212_anacristina



Ana Cristina Lima de Castro está cursando o 7º semestre do curso de Nutrição e desde maio deste ano está estagiando no Pronutra. “Eu sempre quis trabalhar com transtorno alimentar. Aqui temos uma visão diferenciada. Há um grande apoio para as discussões e análises dos casos clínicos. Apesar de serem casos complicados, por termos uma equipe multidisciplinar, acho que obtemos um resultado bem significativo. E, apesar de lento, o tratamento aqui é mais amplo”, avalia.



Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 212

 

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