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Considerações sobre o professor palhaço

por Márcio Acselrad*

213_palhacoHá seis anos o Laboratório de Estudos do Humor e do Riso (Labgraça) se propõe a estudar o humor em suas variadas vertentes, tentando desvendar os mistérios desta intrigante característica humana: a capacidade de rir. Acreditamos que a função do riso seja bem maior do que o mero entretenimento, a diversão inconsequente, a gargalhada inocente. Nossas pesquisas buscam interpretar o riso como poderosa ferramenta crítica, como aliado da razão esclarecida e como prova de que não somos afinal tão especiais e privilegiados como nossa presunção de seres racionais faz crer.

Nos últimos anos temos nos dedicado mais especificamente a tentar compreender o papel do palhaço neste cenário. Com sua ingenuidade e incoerência, o palhaço nos ajuda a, se não compreender, ao menos aceitar o absurdo de nossa condição mortal. É pelas mãos deste professor tão inusitado que tentamos interpretar o mundo que nos cerca e em particular as instituições educacionais. Acreditamos que a educação em geral e a universidade em particular têm muito a aprender com esta figura que aparentemente é a antítese do pensamento, ao menos do pensamento sério que a academia vive a defender.

Nos últimos tempos vem crescendo o interesse pelos estudos sobre o humor em geral e sobre o palhaço em particular. Uma série de trabalhos acadêmicos realizados em várias partes do mundo visa recuperar esta vertente fundamental do ser humano, recolocando-a em seu devido lugar. Vem da filosofia, da psicanálise e da arte um conjunto de reflexões acerca do cômico. E, já o sabemos bem, sempre que um assunto torna-se a pauta do dia das discussões, acadêmicas ou não, isto quer dizer problemas. Talvez pensemos tanto sobre o riso porque, de alguma forma, nossa sociedade ande, mais do que nunca, carente de humor.

Adorado na antiguidade, divinizado na Grécia e depois pouco a pouco banido do terreno do pensamento, primeiro na própria Grécia clássica, posteriormente com a modernidade tão séria e científica, o humor hoje retorna com toda força. E é aí que reaparece a figura do palhaço, rindo de tudo e de todos, principalmente de si mesmo. Livre das limitações impostas pela lona e pelo picadeiro, o palhaço foi explorar outros ambientes. Já frequenta há algum tempo os hospitais e pretende ir em busca de outros espaços onde sua presença encantatória se faça necessária. O palhaço está na moda, proliferando-se como poucas vezes na história.

Está no circo, mas também no teatro, na praça, na televisão, nos sinais de trânsito e também em empresas e até em zonas de fronteira e miséria, desdobrando- se para tentar gerar encontros potentes e promover a comunicação. Se lutamos o tempo inteiro para nos ajustar, o palhaço nos mostra que este ajuste perfeito não apenas não é possível como não é mesmo desejável, não produz felicidade. O ridículo nos faz lembrar nossos próprios erros e fracassos, destitui as relações de seus níveis hierárquicos e nos deixa a todos num mesmo patamar de relações. O palhaço nos lembra que somos todos mortais, todos um tanto gauches, um tanto desajeitados.

Mas o que tem a universidade a ver com isso tudo?

Em seu livro “Pedagogia profana”, o filósofo espanhol Jorge Larrosa lançou uma provocação ao pensamento acadêmico. Acusa-o de ser demasiado sisudo, demasiado pomposo e narcisista. A academia em geral e a pedagogia em particular apresentam certa aversão ao mundo do riso, quase sempre visto como uma ameaça. Em suma, o autor dispara: ri-se pouco na universidade. A pedagogia, que deveria por excelência ser algo da ordem do lúdico, tornou-se pesada e burocrática, como a gorda bibliotecária de que falava Nietzsche, sempre se empanturrando de mais e mais informações, mas incapaz de uma sonora gargalhada.

O Labgraça foi fundado com a intenção de refutar a acusação de Larrosa. O estudo, acreditamos, não precisa ser algo maçante e chato, mas, ao contrário, pode se deixar contagiar ele também pelo riso livre, leve e solto do palhaço. Recentemente pudemos pôr em prática este ponto de vista quando, vestidos como palhaços, nosso grupo de estudos e pesquisa em Humor e Saúde, formado por professores e estudantes de Psicologia e de Comunicação, participou ativamente do Mundo Unifor, o evento acadêmico mais importante da Universidade de Fortaleza, propondo uma pedagogia lúdica em que o palhaço é o principal professor. O palhaço, não duvidem, está bem vivo. Pode ter nariz vermelho ou não, pode habitar o circo, a mídia ou a universidade. E sua mensagem de alegria, mas também de criticidade e de humildade, está cada vez mais atual. São tempos sombrios (aqueles em que o riso corre o risco de ser censurado, em que o bobo pode perder a cabeça ou Rafinha Bastos perder o emprego) que produzem, em geral, as melhores oportunidades para o riso. Chaplin, que viveu os horrores de duas guerras mundiais, que o diga.

* Marcio Acselrad é doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, professor titular de Teoria da Comunicação, de Estética e de Psicologia Social da Unifor e coordena o Cineclube Unifor, o Cineclube Gazeta e o Laboratório de Estudos do Humor e do Riso (Labgraça). E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 213

 

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