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Quando a academia empreende

com Jacques Marcovitch

Jacques Marcovitch observou uma carência editorial sobre livros que falassem sobre empresários pioneiros brasileiros e levou a feito sua ideia de dotar a sociedade com mais informação sobre o assunto. Fez a pesquisa, escreveu os três volumes de Pioneiros & Empreendedores: a Saga do Desenvolvimento no Brasil e também lançou a exposição homônima, da qual é o curador. Marcovitch foi reitor da Universidade de São Paulo (1997 a 2001), de onde é professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA). É administrador, com pósdoutorado em Administração de Empresas pela Universidade de Genebra. Escreveu centenas de artigos científicos e outros três livros, entre eles “Para mudar o futuro: mudanças climáticas, políticas públicas e estratégias empresariais”. Confira agora a entrevista exclusiva ao Unifor Notícias concedida na penúltima semana de janeiro.


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Unifor Notícias: O que o motivou a pesquisar sobre os empreendedores brasileiros?
Prof. Jacques: A pedra de toque foi um ensaio de Antonio Cândido [de Mello e Souza] sobre livros fundamentais para a compreensão do Brasil [10 livros para conhecer o Brasil, revista Teoria & Debate nº 45, setembro de 2000]. Este ensaio reforçou a motivação, latente desde o princípio das minhas atividades docentes, de investigar o pioneirismo empresarial no seu contexto histórico de forma simultaneamente analítica e biográfica. Naquela época havia uma busca por exemplos de administradores, empresários e empreendedores de referência e tínhamos que recorrer sempre a experiências de fora do Brasil. Percebi então a carência de uma história que nos ajudasse a recuperar, de Norte a Sul, a memória de pioneiros que promoveram rupturas significativas no cenário econômico e tecnológico do Brasil, desenvolvendo ações transformadoras no fim do século XIX e início do século XX. Na academia e fora dela, a bibliografia sobre o pioneirismo empresarial exigia um levantamento mais amplo. O projeto foi, portanto, iniciado para desenhar uma pesquisa mais abrangente sobre as estratégias, as rupturas e suas consequências. E resultou numa série com 24 personagens, retratados em três livros consecutivos.

Unifor Notícias: Durante a pesquisa, outros empreendedores vieram à tona? Foi difícil limitar o projeto a 24 empreendedores?
Prof. Jacques: Sim. Houve a necessidade de se definir critérios. Todos os pioneiros, sem exceção, foram empresários que tiveram um papel importante na área industrial e/ou na área comercial. Além de terem desenvolvido ações inovadoras, exerceram papel importante na geração de empregos e na promoção do desenvolvimento. Quebraram paradigmas, deixaram uma referência. Seus empreendimentos tiveram longa existência, permaneceram por várias décadas na cena econômica. Alguns deles até hoje figuram entre os maiores do país.

Unifor Notícias: Como os livros viraram exposição?
Prof. Jacques: A exposição foi uma consequência natural. Permitiu uma aproximação maior com a juventude, que passou a conviver com os personagens, suas trajetórias e suas obras. Os recursos visuais especialmente desenvolvidos no projeto museológico, idealizado pela professora Cristina Bruno, da USP, mostram 24 exemplos de vida. Enfatizam particularidades que decorrem de vários contextos econômicos e da vivência pessoal dos personagens. Espera-se que um pequeno empreendedor, nos dias de hoje, seja motivado por essas narrativas. Cabe, porém, a ele próprio identificar-se ou não com as situações expostas nos três livros. A inspiração em negócios é algo muito positivo, mas a imitação oferece riscos.

Unifor Notícias: Por quê?
Prof. Jacques: Por que o projeto do pioneirismo é um projeto que insere a percepção de oportunidades não visíveis ao outro, àquele que está de fora. Muitas vezes a imitação pode significar recolher parte do que é visível. É como olhar um iceberg: vê-se apenas a parte de cima e se tenta imitar esta parte. Mas existe toda uma parte não visível, aquela que sustenta um projeto. Nisso está o risco da imitação. Em negócios, ela se inspira na parte visível. A única exceção que vejo nessa ideia de imitação – e aí o responsável não é o pioneiro, é o empreendedor ou empresário – está no conceito de franchise. Porque este conceito, dentro de um contrato, transfere ao empreendedor que deseja imitar toda a parte não visível do projeto. Mas, geralmente, quando uma pessoa quer imitar, ela só visualiza a ponta do iceberg.

Unifor Notícias: Quais os frutos já colhidos com a exposição sob a perspectiva do ensino e da educação?
Prof. Jacques: A visita à exposição humaniza os pioneiros, oferecendo um olhar sobre o seu núcleo social de origem e as dificuldades por eles enfrentadas. Este encontro desmistifica a ideia de que os empreendedores pertenciam a famílias financeiramente privilegiadas. Na sua maioria, foram emigrantes de origem humilde que precisaram superar muitos obstáculos. Em 2010, durante a exposição realizada no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, cerca de cinco mil estudantes de todas as classes sociais participaram de oficinas refletindo sobre os problemas da sociedade atual para conceber empreendimentos que contribuem para a melhoria do seu entorno. Assim, cultivou-se uma percepção crítica da sociedade e, simultaneamente, uma atitude construtiva. Uma visão que despertasse a vontade de mudança e a viabilidade do projeto concebido. Em Fortaleza, serão novamente apresentadas figuras históricas do desenvolvimento brasileiro – entre as quais, o pioneiro Edson Queiroz –, que podem inspirar exemplos a serem seguidos pelo seu trabalho e perseverança. A construção de narrativas individuais, em paralelo à narrativa histórica do Brasil e do Ceará, poderá despertar o interesse de descobrir as características dos pioneiros e o desejo de ser um pioneiro.

Unifor Notícias: Os livros são fáceis de ler, estão distantes da linguagem acadêmica. Foi difícil escrever algo, digamos, mais leve?
Prof. Jacques: Olha, evidente que houve nesse trabalho várias revisões. A preocupação foi exatamente adotar, depois de coletar os dados, um estilo mais fluido para facilitar a leitura.

Unifor Notícias: O senhor recentemente publicou Gestão da Amazônia – Ações Empresariais, Políticas Públicas, Estudos e Propostas (Edusp, 2011), que fala sobre o desenvolvimento sustentado na Região Norte. Nesse livro são destacados novos pioneiros. Qual é próximo passo: desvendar outros pioneiros em outras regiões geográficas?
Prof. Jacques: É muito difícil olhar para o longo prazo. O interesse pela região Norte reflete a preocupação com um dos grandes patrimônios da humanidade. Quando falamos da Amazônia, sua floresta e seus rios, estamos falando de uma região da qual depende todo o nosso hemisfério e em alguma escala o planeta. Este grande bioma tem grande influência no clima global e na regulação das chuvas. Quando foram estudados os desafios da região Norte, procuramos identificar pioneiros que estavam fazendo a diferença no local da pesquisa. Vários casos descritos no livro sublinham o trabalho de empreendedores e instituições na direção da sustentabilidade. Expõem-se dez experiências de empresas que estão adotando estratégias diferenciadas. Não houve, portanto, o mesmo enfoque dos três livros sobre Pioneiros & Empreendedores. A pesquisa sobre a Amazônia não conferiu ênfase às histórias pessoais, mas às ações de empresas, políticas públicas e propostas para a região. O conceito orientador da trilogia foi o de que as pessoas somente ganham evidência histórica quando conquistam, na mente coletiva, uma segunda vida. Ou seja, ao desaparecerem da vida real, deixam um legado para a posteridade.


Leia a edição completa do Unifor Notícias Nº 215

 

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