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Cobertura Especial Mundo Unifor | Entrevista com Fritjof Capra

“Nós estamos no meio de uma mudança muito importante de paradigmas”.

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Autor de best-sellers como “O Tao da Física”, “A Teia da Vida” e “O Ponto de Mutação”, Fritjof Capra é um dos físicos e ativistas ambientais mais conhecidos da atualidade. Doutor em Física, cientista, educador e ambientalista, Capra é austríaco e colabora com diversas entidades ambientais e universidades do mundo, como o programa de gestão avançada Amana-Key, em São Paulo, e o centro Schumacher College, no Reino Unido. Defensor da interdependência e diversidade entre meios, Fritjof Capra destaca a importância das estruturas presentes em sociedades urbanas e ecossistemas para a constituição de equilíbrio sustentável. Essas estruturas, que de acordo com o cientista compõem conexões em rede, foram tema constante na entrevista que concedeu ao Unifor Notícias um pouco antes de iniciar a palestra “A Grande Síntese – Os Complexos Sistemas da Vida das Pessoas e das Organizações”, que lotou a praça da Biblioteca durante o Mundo Unifor. A seguir, você pode ler a entrevista completa, que também revela detalhes da carreira do físico.

 

Unifor Notícias: Às vezes não é possível explicar alguns fenômenos do universo através de métodos cristalizados de investigação. Por que o senhor considera que é importante levar o misticismo, especialmente o oriental em consideração? Como a física e a metafísica podem andar juntas para explicar esses fenômenos?

Fritjof Capra: Bem, deixe-me colocar isso em um contexto pessoal da minha própria biografia. Eu não iniciei com misticismos. Sou da Áustria e estudei Física na Universidade de Viena, fiz meu phD lá também. Desde o início, já como estudante, eu era interessado na filosofia da física e no que ela implementa na maneira como entendemos e vemos o mundo. Especialmente, eu estava interessado na filosofia imposta pela física quântica e pela teoria da relatividade, as teorias da física moderna. E eu aprendi que a mudança-chave uma verdadeira revolução na época, nos anos 20, era que não poderíamos entender o mundo a um nível atômico e subatômico, em termos de objetos isolados, mas sim em termos de uma rede de relacionamentos, que são inseparáveis. Isso foi nos anos 50 e início dos anos 60 – consegui meu PhD em 1965. Descobri as filosofias orientais em 1967/68 e vi que era o mesmo tipo de visão de mundo que vê o mundo como uma rede interconectada de relacionamentos e de uma forma intrinsecamente dinâmica. Depois, conheci um dos melhores físicos, Werner Heisenberg, um dos fundadores da teoria quântica, e eu o contei a respeito das similaridades com a filosofia indiana. Ele disse que já sabia disso, porque esteve na Índia e conheceu alguns filósofos indianos e concordou comigo que haviam esses paralelos muito fortes. Achei isso um assunto fascinante e comecei a explorá-lo. Então escrevi meu primeiro livro, “O Tao da Física”.

 

Unifor Notícias: O sr. aponta que as relações entre as partes são necessárias para entender as características do todo. Todas as coisas estão conectadas em uma estrutura tipo rede. Por que o sr. acha que a sociedade ocidental, ao contrário, é tão viciada na visão cartesiana das coisas?

Fritjof Capra: Bem, essa é uma pergunta bem difícil. Primeiramente, a visão cartesiana foi muito bem-sucedida. A sua realização na ciência veio com a física de Newton, e ela nos séculos XVII-XIX era extremamente bem-sucedida. Você podia calcular balística, explicar todos os tipos de máquinas, não somente isso, poderia também explicar as marés, os movimentos dos planetas, o sistema solar, as ondas elásticas. E então no século XIX, com a termodinâmica, explicar o fenômeno do calor, que era vista como energia conectada de pequenas moléculas. Então essa visão foi tremendamente bem-sucedida. A outra razão, eu acho, é que havia uma atitude de proximidade entre esse ponto de vista cartesiano, que é a ideia de controlar a natureza, que foi proposta principalmente por Francis Bacon, na Inglaterra. Também Descartes acreditou que conhecimento é poder. Quando temos conhecimento da natureza, quando podemos explicar as coisas, então podemos controlar essas coisas. Há uma conexão muito importante aqui, quando você vê o mundo como uma máquina, então para utilizar essa máquina com sucesso, você precisa controlá-la. Se você dirige um carro e não o controla, é perigoso e você pode sofrer um acidente. Então máquinas precisam de controle e se você vê o mundo como um sistema vivo, uma rede viva, é muito diferente, porque seres vivos não podem ser controlados. Eu não posso controlar você. Eu posso tentar, mas não vou conseguir. Você não pode me controlar, pois somos seres vivos e não máquinas. Então desenvolvemos, na era do iluminismo, e por meio dele, entre os séculos XIX e XX, uma obsessão com controle, poder e controle. Essa é outra razão na qual o ponto de vista cartesiano tornou-se tão impregnado e difícil de ser superado.

 

Unifor Notícias: Como podemos ultrapassar essa visão? Seria possível?

Fritjof Capra: Nós estamos no meio de uma mudança muito importante de paradigmas e de visão de mundo e, essencialmente, é uma mudança da metáfora da máquina, de ver o mundo como uma máquina, para entendê-lo como uma rede. Eu acho que estou muito esperançoso em relação a essa mudança, e isso por conta dos jovens, porque eles entendem de redes. Todos eles entendem a respeito de redes sociais. Sou professor em Berkeley, na Califórnia, e vinte anos atrás eu dei uma palestra e expliquei aos meus estudantes sobre redes sociais e hoje isso seria ridículo, pois os jovens hoje já sabem. Eles têm esse tipo de pensamento em termos de redes que precisamos. Isso é muito novo na ciência e essa é a mudança: ver o mundo em termos de redes interconectadas.

 

Unifor Notícias: Como a questão ambiental começou a fazer parte da sua vida? 

Fritjof Capra: Eu acho que já me preocupava com ecologia e o meio ambiente quando escrevi O Tao da Física. Se você vir a última página, eu falo sobre um ponto de vista ecológico. Então, meu interesse vem de muito tempo, mas em termos de atividades, eu acho que só me tornei interessado de forma apaixonada quando minha filha nasceu, em 1986. Quando isso aconteceu, eu fiquei preocupado com o futuro dela de uma forma bem mais direta do que, por exemplo, com o futuro de todas as outras crianças. Se tornou bem mais pessoal. E então fundei uma organização para falar sobre problemas ambientais e me tornei um ativista ambiental.

 

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Unifor Notícias: Como um ativista, como o sr.  acha que os grandes problemas da humanidade, como fome, poluição, falta de água, podem ser reduzidos através de investimentos em educação ambiental?

Fritjof Capra: Acho que a primeira coisa que precisamos reconhecer é que todos esses problemas estão interconectados. Não podemos falar somente sobre energia ou mudanças climáticas, pobreza ou economia. Estão todos conectados. Na ciência, nós dizemos que são problemas sistêmicos, que são aqueles de um sistema inteiro. Justamente por serem sistêmicos eles requerem soluções sistêmicas. Esse tipo de solução não resolve o problema isoladamente e sim de uma forma que esteja conectada com outros problemas. É por isso que soluções sistêmicas geralmente resolvem problemas diversos ao mesmo tempo. Um exemplo rápido é que, se nós mexermos no sistema de agricultura industrial, que é centralizado em máquinas, gasta energia e utiliza químicos, se trocarmos esse sistema pela agroecologia, que é um sistema comunitário, sustentável e orgânico, isso ajudaria a resolver três dos nossos maiores problemas: pouparia muita energia, porque a agroecologia não necessita de implementações energéticas. Dois, seria muito bom para a saúde pública, porque algumas das nossas doenças estão relacionadas à nossa comida, e se produzirmos comida mais saudável e orgânica, teríamos uma população mais saudável. E três, ajudaria enormemente na luta contra mudanças climáticas, porque o solo orgânico é vivo, então consome gás carbônico. Esse tipo de agroecologia é o único método conhecido para “sugar” carbono da atmosfera. Ou seja, o que eu acabei de dizer é muito conhecimento e é isso que devemos ensinar. Não são coisas óbvias, então temos que ensinar sobre o pensamento sistemático, a natureza dos problemas sistêmicos e soluções sistêmicas. É disso que trata o meu trabalho.

 

Unifor Notícias: O sr. acha que os governos estariam interessados em implementar esse tipo de solução que não é focada no lucro? Como as comunidades podem pressionar seus governos em pensar nessas novas soluções?

Fritjof Capra: Bem, eu não posso dizer como pressionar governos, mas sei que é absolutamente essencial. E eu não sei se você estudou a encíclica ecológica escrita pelo Papa recentemente, em que fala como problemas variados estão interconectados e no fim diz que “a única maneira de mudar as coisas é se a sociedade civil e ONGs colocarem pressão no governo”. É isso que precisamos fazer e precisamos de muitas pessoas para fazerem isso. Eu vim aqui para falar sobre uma nova compreensão ecológica da vida, educação, sustentabilidade, redes vivas, redes sociais e crescimento econômico e como ir além dele e sobre como podemos como lidar com problemas nesses campos.

 
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