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Cobertura Especial Mundo Unifor | Entrevista com Augusto Cury

“Você só é feliz se tiver um romance, primeiramente, com a sua própria história”.


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Médico psiquiatra, psicoterapeuta e escritor. Esses são alguns atributos de Augusto Cury, apontado pela Folha de S. Paulo como o autor brasileiro mais lido da década, com obras publicadas em mais de 60 países e destaque constante entre os mais vendidos do país. Esses créditos e o imenso currículo não afetam a humildade de Augusto Cury, que na área de pesquisas é o desenvolvedor da Teoria da Inteligência Multifocal, cujas análises vêm sendo aplicadas em diversas instituições de ensino, contribuindo para estudos acerca da construção de pensamentos e gestão de emoções. Augusto Cury trouxe para o Mundo Unifor a palestra “Gerenciando a Emoção para Ser Feliz”, em que expôs maneiras possíveis para que possamos ser protagonistas da nossa história. Antes de apresentá-la ao vasto público que lotou a praça da Biblioteca, o autor conversou com o Unifor e contou sobre a sua carreira e visões da sociedade moderna. Confira a seguir.

 

Unifor Notícias: O sr. é médico psiquiatra. Em que momento da vida decidiu dedicar-se à área da pesquisa?

Augusto Cury: Toda história tem um começo e alguns começos iniciam-se pelo caos, o que foi o meu caso. Tive um caos emocional quando atravessei um conflito muito grande do segundo para o terceiro ano da faculdade de Medicina. A partir daí comecei a fazer uma série de perguntas. “Quem sou? O que sou? Por que não gerencio meus pensamentos? Como surgem as ideias perturbadoras? Por que sofro por antecipação? Por que não consigo dirigir o veículo da minha mente?”. Perguntas que todo ser humano deveria se fazer ao longo de sua história. Eu comecei a analisar, questionar, duvidar e querer explorar esse pequeno e infinito universo chamado mente humana. Em destaque, como nós construímos pensamentos e como devemos gerenciá-los e como se forma o “eu” gestor da mente humana. Essas perguntas me levaram a um desejo quase incontrolável de escrever todas as minhas análises. Eu queria conhecer os sonhos e pesadelos das pessoas, as ideias que libertavam seu imaginário ou os pensamentos perturbadores que as tornavam reféns do passado e asfixiavam sua criatividade. As dezenas de páginas se tornaram centenas e as dezenas de perguntas se tornaram milhares de questionamentos. Quando você tem o sonho de penetrar no pequeno infinito mundo que nos tece como um sapiens, qualquer lugar para estudar é um lugar. Quatro horas por dia escrevendo e reescrevendo minhas ideias e no final eu já tinha 400 páginas de uma nova teoria, talvez uma das poucas teorias mundiais sobre o funcionamento da mente, a construção de pensamentos, os papéis do consciente e do inconsciente na memória e do “eu” como protagonista da nossa própria psiquê.

 

Unifor Notícias: O sr. é considerado o escritor brasileiro mais lido da década. Como iniciou o seu processo de escrita?

Augusto Cury: A escrita para mim iniciou-se durante a faculdade de Medicina e eu procurei uma editora para publicar meus livros. É incrível, raramente uma editora no Brasil está disposta a publicar autores brasileiros, em destaque publicar uma teoria, ainda mais uma teoria sobre a mente humana. Parece que é inalcançável, na atualidade, um indivíduo produzir uma nova teoria. As editoras que eu procurei não bancaram o projeto e então me tornei rapidamente consultor em jornais e revistas, por desenvolver a arte da pergunta. Facilmente encontrei espaço na mídia e me tornei consultor de diferentes meios de comunicação. No auge da fama, me recolhi para atender meus pacientes e escrever durante os fins de semana e feriados.

 

Unifor Notícias: Em que se baseia a teoria da Inteligência Multifocal?

Augusto Cury: Nos intervalos das consultas, passaram-se 25 anos, e escrevi mais três mil páginas sobre a teoria da Inteligência Multifocal, que estuda cinco grandes áreas: os processos que constroem cadeias de pensamentos; o processo de formação do ‘eu’ como diretor do script de nossa própria história; os papéis conscientes e inconscientes da memória; as “janelas” da memória; e a gestão da emoção e o processo da formação de pensadores. De acordo com a teoria da Inteligência Multifocal, quando somos ofendidos, rejeitados, criticados, pressionados, entramos numa janela traumática e o volume de tensão bloqueia milhares de outras janelas, o homo sapiens se torna um homo bios. Por isso, todos os psicólogos deveriam estudar a teoria das janelas da memória, pois sem conhecê-la não vamos nem entender por que a nossa espécie tem baixo nível de viabilidade, causando guerras e outros tipos de violência. É quase inacreditável como o ser humano, a única espécie que pensa conscientemente, nunca honrou adequadamente a arte de pensar, porque nunca estudou o próprio pensamento. A educação mundial ensina aos alunos as matérias técnicas e as suas competências, mas não trabalha os papeis do ‘eu’ como gestor da mente humana. Existe uma série de variáveis vitais que se nãoforem trabalhadas nas universidades, elas vão continuar produzindo frequentemente repetidores de dados e não pensadores que libertam seu imaginário e são capazes de construir novas ideias.

 

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Unifor Notícias: Falando processos educativos, o que é a Escola da Inteligência e por que o senhor considera que é tão importante ter o ensino das habilidades socioemocionais como método de aprendizagem?

Augusto Cury: Embora os professores sejam os profissionais mais importantes do teatro social, pois sem eles não haveriam outros profissionais das mais diversas áreas, o sistema educacional está doente, formando pessoas doentes para uma sociedade doente. Estudamos, por exemplo, a matemática numérica, mas não a emocional. Quem aprende a dividir a sua dor e seus fracassos com os seus filhos, vai ensiná-los a entender que ninguém é digno do pódio se não utilizar suas derrotas para alcançá-lo. Infelizmente, passamos quinze ou vinte anos nas escolas e não falamos dos dias mais tristes das nossas vidas. Alunos de engenharia se calam, falam de edifícios, mas não os da sua mente. Alunos de medicina também. A educação mundial desenvolveu bilhões de dados, só que os alunos não são apenas memória, eles não são apenas um sistema cognitivo. Eles também têm o universo da emoção e de seus questionamentos e por isso suas habilidades socioemocionais são vitais. Todos os alunos deveriam aprender a pensar antes de agir, a se colocar no lugar do outro, a gerir sua emoção e administrar sua ansiedade, a dirigir o veículo da mente humana. Mas isso quase não existe no mundo todo. Por isso, em mais de setenta países em que sou publicado, a minha crítica é de que não estamos formando uma geração coletiva de pensadores, para dar respostas importantes para os desafios da humanidade. Por isso eu desenvolvi o programa de Escola da Inteligência, que entra na grade curricular do ensino infantil, do fundamental e do médio, para formar pensadores e prevenir transtornos emocionais, bem como para desenvolver inteligência para que as crianças e adolescentes tenham uma carreira mais sólida e um futuro mais promissor e não sejam alijados nesse mercado altamente competitivo e estressante. Hoje, ele já é implementado em diversas escolas.

 

Unifor Notícias: Ansiedade, estresse, depressão são alguns dos temas mais abordados por você em suas últimas obras. Por que as pessoas, especialmente as que vivem em grandes cidades sentem-se tão frustradas?

Augusto Cury: Nós estamos assombrados com as estatísticas. Esperávamos que a geração do séc. XXI fosse a mais alegre de todos os tempos, porque nunca tivemos uma indústria do lazer tão poderosa. Mas nós nunca tivemos uma geração tão triste, tão angustiada e tão depressiva. Cerca de 50%, uma em cada duas pessoas, em mais de três bilhões de indivíduos não desenvolverá apenas depressão, como também ataques de pânico, transtornos ansiosos, transtornos alimentares e doenças psicossomáticas. Quantos vão se tratar? Essa é uma grande questão. Talvez 1% se trate. Quantos vão encontrar um bom profissional de saúde mental? Talvez a minoria da minoria. Por isso, precisamos atuar preventivamente, precisamos entender as causas das doenças. Claro que existem as causas metabólicas, mas só isso não explica. As principais causas, além dos fatores endógenos são traumas da infância, o excesso de informação e do uso de smartphones, que estimulam a hiperconstrução de pensamentos, o excesso de preocupação em relação ao futuro e a autocobrança. São inúmeras as situações que esgotam o cérebro e propiciam o desenvolvimento de doenças psíquicas. Bullying, excesso de trabalho, a ditadura da beleza. Sem gestão da emoção, o céu e o inferno psíquico estão muito próximos. Você só e feliz se tiver um romance, primeiramente, com a sua própria história. A felicidade começa em você. Toda a psicoterapia deveria ter ferramentas básicas incorporadas e trabalhadas pelo ‘eu’ de cada um dos pacientes, para que construam suas próprias histórias. A felicidade começa, em destaque, no território da sua própria emoção.

 

Unifor Notícias: Por que as pessoas frequentemente ligam a obtenção de bens materiais à felicidade?

Augusto Cury: Vivemos numa sociedade de consumo e ela estimula as pessoas a projetarem sua angústia, ansiedade, irritabilidade, insatisfação e baixa autoestima consumindo produtos e serviços. Quanto mais as pessoas projetam, há um alívio imediato, seguido de um sentimento de culpa e um registro da autopunição. Consequentemente, isso fragiliza o prazer de viver e torna o ‘eu’ escravo do próprio consumismo. As pessoas têm que aprender a comprar em destaque aquilo que o dinheiro não pode pagar. Quem abraça mais e julga menos, elogia mais e critica menos está valorizando aquilo que o dinheiro não consegue comprar. Quem só consegue adquirir aquilo que os bens conseguem comprar é um miserável, ainda que more em palácio. Há muitos miseráveis em todo o teatro social, no mundo inteiro, que mendigam o pão da alegria e da tranquilidade. Existem aqueles que moram em belos apartamentos e dirigem bons carros, mas não dirigem a própria mente e nunca têm conforto. Eles não sabem contemplar o belo e gerir seus pensamentos. Unifor Notícias: Que dicas o senhor daria para que consigamos gerir melhor nossas emoções?

 

Unifor Notícias: Que dicas o senhor daria para que consigamos gerir melhor nossas emoções?

Augusto Cury: Gestão da emoção é vital. Sem gestão da emoção, ricos se tornam miseráveis, profissionais competentes sabotam sua eficiência, estudantes bloqueiam sua memória e não libertam seu imaginário. Sem ela, não conseguimos escrever os capítulos mais importantes da nossa história. Existem uma série de técnicas de gestão da emoção. Em primeiro lugar, nós temos que saber que, para desenvolver saúde psíquica, temos que renunciar a sermos perfeitos. Quem tem a necessidade neurótica de estar sempre certo ou é perfeccionista demais é um candidato a frequentar consultórios de psicologia e psiquiatria. Renuncie ser perfeito, você é um ser humano que possui defeitos e deve reconhecê-los. A segunda parte dessa técnica é mapear os seus fantasmas mentais, dialogar com seus medos, irritabilidade, impulsividade, autocobrança, autopunição. Valorizamos o trivial, mas nos calamos sobre o essencial. Por isso que o adoecimento psíquico abarcou bilhões de pessoas na atualidade. O ser humano precisa mapear esses fantasmas e depois estabelecer metas para enfrentá-los. Onde estou e onde quero chegar. Posso usar uma técnica chamada D.C.D (Duvidar, Criticar, Determinar) e duvidar do meu medo, estabelecendo metas e me tornando uma pessoa segura, para que todos os dias eu consiga avançar e me torne protagonista da minha história.

 
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