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Um Leonilson pouco ou nunca visto

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Apartir deste mês, o Espaço Cultural Unifor presta uma justa homenagem a um dos mais proeminentes artistas contemporâneos brasileiros: o cearense Leonilson. No ano em que completaria 60 anos, o artista ganha exposição inédita, além de um catálogo raisonné. Na mostra Leonilson: arquivo e memória vivos, são cerca de 120 trabalhos, pautados, claro, pelo humor e ironia de Leonilson. Mas, mais do que isso, o público vai poder ver obras do universo iconográfico do artista que permaneceram guardados por décadas em coleções particulares e institucionais, que o intenso e dedicado trabalho de pesquisa capitaneado pelo Projeto Leonilson permitiu localizar e reunir. Assim, o público estará diante de pinturas, desenhos e bordados do artista, além de trabalhos preliminares que já esboçam a obra que estaria por vir e joga luz para obras nunca expostas.

 

“UMA OBRA DILACERANTE E AFIADA COMO UMA FACA, QUE NOS ACERTA EM CHEIO. AO MESMO TEMPO QUE ELA NOS TOCA PELA SINGELEZA, DELICADEZA E SIMPLICIDADE DOS MATERIAIS UTILIZADOS, POR OUTRO LADO NOS FERE COM SUA TEMÁTICA, COMO UMA PUNHALADA COM SUAS VERDADES”

 

À frente da curadoria desse trabalho, Ricardo Resende, mestre em História da Arte pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Com carreira centrada na áreamuseológica, trabalhou de 1988 a 2002, entre o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo e o Museu de Arte Moderna de São Paulo, quando desempenhou as funções de arte-educador, produtor de exposições, museógrafo, curador assistente e curador de exposições.

 

Desde 1996, é consultor do Projeto Leonilson. De março de 2005 a março de 2007, foi diretor do Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza. De janeiro de 2009 a junho de 2010, foi diretor do Centro de Artes Visuais da Fundação Nacional das Artes, do Ministério da Cultura, e diretor geral do Centro Cultural São Paulo de 2010 a 2014. Atualmente é o curador do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, Rio de Janeiro.

 

UN: Qual a importância da exposição Leonilson: arquivo e memória vivos para as artes visuais brasileiras?

 

A exposição Leonilson: arquivo e memóriavivos é resultado da pesquisa e publicação do catálogo raisonné da obra do artista, com uma seleção que privilegiou trabalhos pouco ou nunca vistos. A mostra assume seu caráter retrospectivo e, ao mesmo tempo, celebra a realização desse catálogo, patrocinado pela Fundação Edson Queiroz, e que será lançado em maio, durante a exposição. Ela foi pensada a partir dessa organização catalográfica da obra com seleção de trabalhos pautados por seu humor e ironia característicos. Traz o universo iconográfico que marca sua poética, única entre os artistas de sua geração, revelando pinturas, desenhos e bordados que permaneceram restritos por décadas em coleções particulares e institucionais, sem que pudessem ter vindo a público. Trabalhos preliminares que já esboçam a obra que estaria por vir do artista e joga luz para trabalhos nunca expostos.

 

UN: Quais os principais diferenciais da exposição?


Foram realizadas nesta década, de 2010, duas grandes mostras do Leonilson: a mostra Sob o Peso dos Meus Amores, no Itaú Cultural, em São Paulo, em 2011, e depois na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Ambas com cerca de 300 trabalhos expostos. De longe, a maior mostra já realizada do artista. Depois tivemos a belíssima mostra Truth Fiction, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 2014. Em que foi mostrada com um olhar íntimo do curador, revelando facetas da obra como nunca antes. A mostra Leonilson: Arquivo e Memória Vivos assume um caráter retrospectivo, como a do Itaú Cultural, mas com o diferencial de trabalhar obras pouco e nunca antes vistas.

 

UN: Quais os critérios utilizados na montagem?


Seguindo um critério retrospectivo, a montagem faz o percurso inverso da obra. Começa pelos trabalhos mais recentes e vai terminar no primeiro trabalho, o mais antigo de que se tem conhecimento. A exposição está dividida em três núcleos: última fase, segunda e primeira, que é o término do percurso na exposição. Da fase inicial, a de estudante, o primeiro trabalho é uma pintura, Peixe, datada de 1971. É o trabalho mais antigo feito por Leonilson de que se tem conhecimento. Tinha apenas 14 anos de idade quando pintou.

 

A segunda fase da carreira do artista, que seria toda a década de 80, mais precisamente de 1980 a 1990, coincide com o abandono da escola e a ocasião em que participa de suas primeiras exposições em museu (Cartas a um amigo, no Museu de Arte Moderna da Bahia, e Desenho Jovem, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, ambas em 1980). Ainda neste ano, participa da tradicional mostra Panorama de Arte Atual Brasileira, organizada pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Dos anos 80, destacamos ainda a presença constante de desenhos de montanhas, que foram representadas ao longo de sua obra. Ora aparecem sozinhas, ora surgem em duplas. Os sentimentos parecem ser guardados dentro dessa representação de ‘montanhas protetoras’

 

UN: Quais os maiores desafios da curadoria na montagem?


É o de sempre ao se organizar a mostra de um artista. Conseguir dar coerência ao pressuposto da curadoria no espaço expositivo, de maneira que, na fruição, fique clara ou compreensível para o público a leitura da obra.

Dar as “chaves” para a compreensão do que nos legou o artista. É um desafio tornar uma exposição legível frente ao discurso intelectual. A conceituação do curador deve acontecer de maneira clara para os visitantes.

 

 

UN: Foi difícil montar a exposição?


Não. A nova área de exposições do Espaço Cultural Unifor é muito generosa. Um salão livre que permite com facilidade instalar uma mostra com estas características da obra do Leonilson. Trabalhos de parede. Com uma combinação de luz natural com artificial, o que cria um equilíbrio luminotécnico agradável para as exposições. Por ser um espaço amplo, ele é muito flexível. Não há interferências de colunas, nem de paredes em desníveis. Pé-direito igualmente generoso para a instalação de grandes pinturas. Portanto, pensar a museografia dessa exposição foi fácil.

 

UN: Quais as obras inéditas?

 

São várias, algo em torno de 60% dos trabalhos. Do restante, parte são de trabalhos pouco mostrados e, claro, entre eles alguns bastante vistos, como os da coleção do Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar de Arte Cultura.

Com a catalogação pronta e o catálogo raisonné editado, este trabalho se torna bastante fácil, pois na publicação encontramos todas as informações que importam de um trabalho, como as exposições de que participou, textos em que sua obra é citada ou reproduzida. Foi a partir destas informações que os trabalhos foram selecionados. Claro, a escolha desses trabalhos faz parte de um percurso temático para a exposição.

 

UN: O que o público pode esperar dessa exposição?

Surpresa. A surpresa pode ser o estado mais gratificante dessa mostra. Descobrir novos trabalhos do Leonilson. Como a primeira exposição organizada em 1995: Leonilson: São Tantas as Verdades, cerca de 100 trabalhos viraram os mais expostos, reproduzidos e comentados. Agora com o catálogo, teremos a chance de os curadores buscarem outros trabalhos.

 

UN: Quais as obras mais impactantes?


As minhas escolhas cairiam sobre dois trabalhos. Uma pintura e uma escultura. A pintura O Peão, de 1987, e o vulcão Boa Viagem, de 1986, realizado em Fortaleza, para a Exposição Esculturas Efêmeras. A pintura é a figura de homem mergulhando em um poço sem fundo, a superfície da tela em azul. Uma pintura que nos induz a um mergulho vertiginoso nas suas águas mais profundas da sua obra, como no azul que cobre a pintura

 

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UN: Qual a importância de Leonilson para as artes visuais brasileiras?

 

Leonilson nos legou uma obra que é alçada como um dos mais importantes e relevantes legados de artistas do Século XX. Uma obra autobiográfica e crucial para se pensar a arte no final do século XX. Expunha tudo nosseus trabalhos. Sentimentos, pessoas, conflitos e dúvidas. Uma “confusão” assumida de valores e emoções, de um ser curioso pelas coisas do mundo. É esta memória e arquivo vivos, o que ficou e o que se apresenta na mostra. Obra que figura nos mais importantes acervos de instituições museológicas públicas e coleções privadas do Brasil e do exterior. Não é por menos que seus trabalhos tenham sido merecedores dessa exaustiva catalogação e que agora vemos concluída e publicada em três volumes.

 

UN: Como o senhor vê a obra de Leonilson?

 

Uma obra dilacerante e afiada como uma faca, que nos acerta em cheio. Ao mesmo tempo que ela nos toca pela singeleza, delicadeza e simplicidade dos materiais utilizados, por outro lado nos fere com sua temática, como uma punhalada com suas verdades incontestes nos desenhos, figuras e palavras que expressam a ansiedade dolorosa ao deparar-se com a morte quando descobre-se doente, em 1991.

 

UN: Até que ponto as angústias de Leonilson estão representadas em suas obras? Até que ponto elas influenciaram a criação do artista?


Pintava e bordava com o que tinha em mãos (O Imperfeito, 1993). Deixava de propósito as lonas e os tecidos sem chassis para que ficassem soltas dependuradas na parede, de maneira que com o passar do tempo adquirissem a corporeidade das transformações do tempo e do peso do tecido. Esse jeito original de fazer sem chassis e expor os trabalhos deu um sentido melancólico (inconsciente) ao conjunto de sua obra. Uma melancolia que se revela na estranheza produzida por essas cores pálidas e insólitas. Podemos nos questionar a relevância do conhecimento da vida do artista para a fruição de sua obra. Ou, ainda, se a arte deva se misturar à vida privada do artista. Sim, parece nos interessar quando a vida do artista está expressa em seus trabalhos, tornando-se o espelho e impressões de sua época, na expressão de seus anseios, dúvidas e de seu fim, aqui, antevisto. Então não dá para separar.

 

UN: A exposição percorrerá outros estados depois do Ceará?

 

Não está confirmada a itinerância da mostra. Há o interesse em levá-la para o Rio de Janeiro e São Paulo, para o lançamento do catálogo nestas cidades.

 

UN: O catálogo raisonné de Leonilson é o primeiro de um artista contemporâneo brasileiro?

 

No seu formato, de dar conta de toda uma obra, sim. Temos o catálogo do Vik Muniz, mas que não se configura como um

catálogo raisonné, mas como um catálogo geral de obras de um determinado período. Uma listagem da produção do artista vivo, ainda não encerrada. Não tenho notícias de outras publicações do gênero de artistas contemporâneos.

 

UN: Como foi realizar esse trabalho?

 

Um trabalho exaustivo. O catálogo é uma descrição e enumeração do legado artístico de Leonilson e tem por objetivo revelar as circunstâncias do seu processo criativo, formação e construção de sua obra. Uma catalogação composta por mais de 3.800 registros. A publicação, por sua vez, é composta por mais de 3.500 imagens e registros, que poderia ser visto como um “museu pessoal” de imagens impressas e reunidas sob a forma de um livro, onde encontramos toda a obra reunida. Maneira de possibilitar e até mesmo garantir que os interessados tenham acesso a essa totalidade. Obra que figura nos mais importantes acervos de instituições museológicas públicas e coleções privadas do Brasil e do exterior. Não é por menos que seus trabalhos tenham sido merecedores dessa exaustiva catalogação e que agora vemos concluída e publicada em três volumes.

 

UN: Qual a sua avaliação do catálogo?

 

Vai surpreender. Pois será a chance de os interessados na obra conhecerem a enormidade da produção do Leonilson. Não só o tamanho de sua obra, mas também as qualidades e o processo de sua formação ao longo dos 22 anos que abrangem os três volumes da publicação.

 
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