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Cobertura Especial Mundo Unifor | Entrevista com Ricardo Triska

“Onde há intervenção humana, necessariamente o design vai ser preciso”

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Doutor em Engenharia de Produção, Ricardo Triska é conselheiro titular do Conselho Técnico Científico do Ensino Superior e um dos principais nomes nacionais no estudo de design, já atuando como coordenador da Área de Arquitetura, Urbanismo e Design junto à Capes. Atualmente professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Triska já desenvolveu projetos dentro da área em Ciência da Informação, como o planejamento de serviços e automação de bibliotecas digitais. Seu interesse por design sustenta-se no caráter funcional e nos benefícios dele para a sociedade, revelando pensamentos inteligentes e ligados à comunidade, como definiu na palestra “O Design Sob Uma Nova Perspectiva”, realizada no Mundo Unifor. Na entrevista a seguir, concedida ao Unifor Notícias, o profissional comenta sobre esse aspecto, opinando também sobre o papel e importância do design na modernidade.

 

Unifor Notícias: O que é o design hoje e que áreas abrange?

Ricardo Triska: O design está sendo construído de novo, em função das demandas que estão sendo apresentadas. Ele se apresenta como um parceiro natural a todas as engenharias e, particularmente na medicina, a gente vê resultados fantásticos. O design é concebido para ajudar as pessoas, desde embalagens a conteúdo de bulas e sinalizações externas, aparatos médicos. Tudo isso tem a interferência do design sob a ótica do bem-estar, tanto para quem executa determinada tarefa ou é objeto dela. Isso do ponto de vista coletivo da ordem e da harmonia entre as coisas, o que também é importante. É uma condição de saúde, porque a agressão visual é um elemento forte de intervenção. Quando você passa em uma rua e encontra uma fachada feia, uma calçada furada, uma área degradada pelo lixo, essa composição de coisas resulta numa agressão às pessoas. Uma das intervenções importantes do meio urbano é trazer de volta a condição de saúde das pessoas. O designer é um parceiro natural para essa nova composição, então o design hoje é o que ele é sempre: uma ferramenta de apoio e qualidade da reprodução das coisas e da forma como elas são representadas pela produção gráfica e do que pode ser feito, por serviços, e da interação. O importante é essa sua capacidade de adaptação por meio de sua própria gestão, que é a gestão de design.

 

Unifor Notícias: Não é só uma questão estética, mas de facilitação de trabalho, de adaptação, até de saúde?

Ricardo Triska: A condição estética é um complemento. A grande razão de se preocupar com o design é a interação entre as coisas, se tratando de espaço, desde a edificação, da sua circulação e da sua intervenção no meio das pessoas. O design, por tradução, é projeto. A condição de projeto é característica do design. Para que algo seja projetado é necessário uma reflexão muito grande e a indução à reflexão é a representação de uma demanda. Há a percepção de uma necessidade de intervenção, a análise dessa necessidade, a caracterização de um problema, a avaliação das possibilidades de solução e aí então se elencam as ferramentas, as pessoas e a dimensão do problema para que ele seja resolvido via projeto.

 

Unifor Notícias: Qual a nova perspectiva do design, tema da sua palestra no Mundo Unifor?

Ricardo Triska: Na verdade, a nova perspectiva do design é justamente trazê-lo ao que ele é na sua origem, que é uma ferramenta de intervenção pra qualidade das pessoas na relação com as suas coisas. Assim foi quando se descobriu a torradeira, um material que protegia mas não irradiava calor, então a pessoa que o manipulava não queimava mais a mão. Ou quando se projetou o protetor de tomada, para as crianças não colocarem o dedo. Essa perspectiva que a gente fala, do design, é trazê-lo de uma condição de adereço para uma de protagonismo no planejamento de futuro. É uma condição contemporânea de necessidade que traz ao design uma situação protagonista para planejar e fazer um futuro e isso tem que ser feito já, senão o futuro atropela e a gente fica fora.

 

Unifor Notícias: O sr. acredita que a arquitetura deixou de ser apenas funcional para se tornar uma forma de expressão? 

Ricardo Triska: Certamente ela é uma forma de expressão, na medida que combina as relações de dependência do ambiente, com o uso da edificação e alternativas de novos materiais. Essa capacidade de agrupamento de competências distintas para resolver problemas pequenos passa para outras condições. Hoje a gente precisa conhecer como o vento corre para evitar usar ar-condicionado e não demandar tanta dependência de energia, e assim por diante. Em todas essas combinações de dependência, ela mudou sua configuração de status e de fato não é estética, sua ordenação dentro das coisas interfere na aceitação e, por isso, por conta da harmonia, a estética também é um fator, mas não é determinante. Unifor Notícias: A tecnologia tornou o design mais acessível no cotidiano?

 

Unifor Notícias: A tecnologia tornou o design mais acessível no cotidiano?

Ricardo Triska: Acessível não, pois sempre foi. Tornou mais conhecido. Agora, quando você tem um smartphone ou um controle remoto, você tem o design interferindo na sua relação com o objeto. Ele tornou-se mais presente pelas alternativas de serviços e bens que existem hoje, de apoio às ações das pessoas. Como o design sempre foi vinculado às pessoas, ele sempre foi presente. O que acontece é que, hoje, ele interfere com mais coisas que as pessoas convivem ao mesmo tempo.

 

Unifor Notícias: Qual sua opinião a respeito do design de informações?

Ricardo Triska: É a grande chamada que a gente precisa atentar. Para nós, ela é uma fonte para a concepção de solução. E nós trabalhamos e desenvolvemos uma outra informação, que é a resposta para a nossa concepção. Esse design da informação, esse projeto, de como ela vai ser disponibilizada, de que maneira a sua estrutura vai interferir na capacidade de compreensão das pessoas, essa é a grande chamada de posicionamento. Ela transcende manuais e modelos de interação humano-computador para interferir na capacidade de entendimento das pessoas e a sua identidade com a razão de que ela buscou informações. Isso está meio perdido, pois tudo hoje está fácil, qualquer “oráculo digital” dá respostas, mas não responde de fato o problema. Três milhões de respostas para uma pergunta mas os problemas não são respondidos. A qualificação da sua pergunta traduz a sua identidade com o problema, e isso vai interferir na sua capacidade de entender a resposta.

 

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Unifor Notícias: Como coordenador da área na Capes, como se dá a pesquisa?

Ricardo Triska: A pesquisa na área de design está mudando seu foco, porque se tratando de pósgraduação. A gente investiu muito tempo no resgate histórico da intervenção do design, precisando explicar a necessidade dele. Hoje, pelo avanço e oportunidade, pela distribuição dos grupos de pesquisa e pelos programas de pós-graduação e doutorado que têm no país, já está mais perto de problemas diferentes, de diversas demandas regionais. Nossa pesquisa é tímida, em proporção ao que é feito ao largo do mundo, mas é extremamente eficiente. Nós temos casos de intervenção muito importantes na saúde, em que o design é usado na recuperação de traumas buco-maxilo-faciais, na estrutura de próteses em três dimensões, órteses. Ferramentas também, como a de descascar aipim. As pessoas acham que isso é muito trivial, mas numa colônia agrícola, isso é muito importante, porque geralmente a mulher que faz esse trabalho e as mulheres de um projeto que eu conheci tinham partes dos dedos decepados pela lâmina e pelo jeito de cortar, então foi desenvolvida uma ferramenta onde o sentido do corte foi mudado e elas não mais se ferem. Conheci uma mulher que tinha um dedo machucado e depois eu fui vê-la e ela já estava com a unha pintada. Isso traduz o conforto e autoestima dela. O design é simples, e por isso efetivo.

 

Unifor Notícias: Qual a importância do design para a sociedade?

Ricardo Triska: O design é tão importante quanto deve ser transparente. Ele é tão importante quanto a medicina ou qualquer outra área da ciência, porque ele trata dessa harmonia entre a função de um determinado objeto e a sua relação com a pessoa que o manipula. A agressão que ele exerce e o resultado que promove, isso considerando desde uma caneta a um automóvel ou avião. O projeto de um avião tem em si muitas áreas da ciência, é uma tecnologia embarcada, absurdamente moderna, e o design está presente em cada milímetro de toda a condição, quer seja pela escolha de cores à textura do assento. Onde há pessoa, há a necessidade do design. Onde há intervenção humana, necessariamente o design vai ser preciso, por conta da sua interação com alguma tarefa ou na ferramenta ou na sua própria indumentária, porque isso quer dizer saúde e proteção. O princípio de ergonomia a gente usa diuturnamente. O exemplo do aipim é um estudo de ergonomia. A indumentária para ter altura e forma para segurar o cabo de uma enxada, é questão de ergonomia. Então, são coisas que interferem muito na vida das pessoas. Imagina, uma ferramenta para descascar aipim, uma unha pintada… O que representa uma unha pintada? Significa que a mulher está satisfeita consigo e se isso ocorre, o trabalho não a está aniquilando pra vida social. Isso é uma condição de saúde.

 

Unifor Notícias: Aqui na Unifor temos o curso de Design de Produto, entre os cursos do nosso Centro de Ciências Tecnológicas. Como o sr. vê a evolução do ensino de design por região no Brasil?

Ricardo Triska: É muito importante a manutenção de um curso de design, isso revela uma visão de futuro da Instituição. Se pegarmos o caso da cidade de São Paulo, que é um centro de referência, lá temos apenas um curso de pós-graduação em design. Só um. E todas as agências trabalham lá. A condição não é geográfica, ela é de entendimento e necessidade. Na medida em que a gente consegue manter em regiões como o Nordeste, o Sul e o Sudeste, uma escola de design, você oportuniza a incorporação de demandas regionais à soluções regionais. Em Campina Grande, o curso de design da graduação fez uma intervenção no ciclo de produção de uma determinada castanha, em que a atividade de transporte machucava as costas das pessoas. E no lugar onde chegavam para moer as castanhas, não havia energia elétrica. Daí adaptaram um liquidificador na frente de uma bicicleta, para que as pedaladas moessem as castanhas e mais ninguém saísse machucado. Isso valorizou o produto, ganhou-se um ciclo da produção e já foi incorporada outra relação com os clientes. São ações pequenas, porém determinantes na vida das pessoas. Assim é o design.

 
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