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Entrevista | “A arte deve ser provocativa”

Com Adriana Varejão


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Considerada uma das principais artistas contemporâneas, a carioca Adriana Varejão encontra na pintura um grande meio de experimentar as diferentes técnicas de arte. Nascida em 1964 e com 30 anos de carreira, ela usa a história como referência, e faz dessa a sua base na criação de obras que adquirem grande reconhecimento, seja nacional ou mundo afora. Com sua primeira exposição individual realizada em Amsterdã, a artista possui trabalhos expostos em acervos de grandes museus e espaços culturais, tais como Tate Modern (Londres), Fundação Cartier (Paris) e Guggenheim (Nova York). No Brasil, o Centro de Arte Contemporânea Inhotim, em Minas Gerais, dispõe de um pavilhão inteiro com suas obras. É parte dessa grande trajetória na arte que vemos na exposição Pele do Tempo, em cartaz no Espaço Cultural Airton Queiroz. Nela, são abordados temas que mexem com a técnica barroca, religião, apropriação de culturas e a carnalidade humana. Em entrevista ao Unifor Notícias, a artista fala de sua trajetória, influências e processos criativos.

 

Unifor Notícias: Sabemos que você nasceu no Rio de Janeiro e foi cursar Engenharia na PUC. Como a arte surgiu na sua vida?

Adriana Varejão: A primeira experiência de arte que eu lembro veio de uns fascículos que se chamavam Gênios da Pintura. Vendia na banca e cada fascículo tinha um gênio: Rembrandt, Renoir. Eu tava sempre folheando essa coleção da minha mãe. Aqui no Brasil, sempre falo sobre isso, pois a gente quase nunca temacesso às originais, então aprendemos muito a história da arte através das reproduções. No meu caso foi assim e aprendi muita coisa através de livros. Eu não me lembro de nenhuma ida minha ao museu durante a infância ou adolescência. Para mim, arte e pintura eram aquilo que vendiam nas praças e feiras do Rio. Aquilo era a minha referência. Então, quando eu entrei na faculdade, não existia essa opção na minha vida, de fazer arte. Eu nem sabia que era uma opção. E então, totalmente por acaso, eu fui parar na escola de artes visuais do Parque Lage. Meu primeiro contato prático foi lá, mas como qualquer outra criança, eu sempre desenhei e fiz atividades artísticas.

 

Unifor Notícias: O Parque Lage foi palco de inúmeras referências para a arte contemporânea brasileira, como a Geração 80. Como frequentar esse espaço contribuiu no seu fazer artístico?

Adriana Varejão: A geração 80 foi uma exposição que aconteceu no Parque Lage, em 1984, quando eu entrei lá. Na época, Marcos Lontra, que era diretor do Parque Lage, fez uma exposição chamada “Como Vai Você, Geração 80?”, e tinha várias pessoas. Muitas pessoas estudaram lá. Acho que, nos anos 80, houve uma crise nas Universidades, devido à Ditadura Militar. Para tirar o poder do movimento estudantil, fizeram um sistema de créditos, que esvaziou muito o quesito intelectual. Me decepcionei muito na Universidade. Fiz algumas matérias, tentei engenharia, que não me identifiquei muito, comunicação visual, desenho industrial... Finalmente, tranquei todas e fiquei pintando em um ateliê que aluguei com pessoas que conheci no Parque Lage. Desde então não parei mais!

 

Unifor Notícias: Que artistas você diria que influenciaram seu trabalho e influenciam hoje?

Adriana Varejão: Artistas me influenciam o tempo todo! Nem poderia fazer uma lista, pois seria uma lista enorme de artistas, muito grande mesmo. Na exposição a gente até tem a presença de alguns, como o Iberê (Camargo), com a quantidade de tinta na tela. Da arte clássica, eu sempre gostei dos mais pesados, tipo Goya e Rembrandt. Conheci muitos desses pintores em livros, pois não saí do Brasil até os 22 anos, embora eu já estudasse arte. A primeira vez que eu saí foi para Nova York. Entrei no MoMA (Museu de Arte Moderna) e fiquei impressionada com os artistas. Depois, fui à Bienal de São Paulo, em 1983, e foi uma coisa muito marcante. Estava acontecendo uma cena expressionista muito forte na pintura e que me influenciou bastante.

 

Unifor Notícias: Alguns dos seus trabalhos causam impacto aos espectadores, você utiliza, por exemplo, a carne como elemento estético (cenas de canibalismo, marcas de violência e erotismo). Porque é interessante trazer de volta uma estética não tão usual nos dias de hoje?

Adriana Varejão: Acho superclássica a presença da carne na pintura. Se você pensar em Caravaggio, Goya, Rembrandt, eles pintavam carne. Rembrandt com boi esquartejado, Caravaggio com cabeças decepadas. Se você pensar numa arte contundente, há também a arte da Idade Média. Pintar carne é uma coisa que está dentro da história da arte. Como meu trabalho lida muito com referências históricas e eu revisito muito a história da arte, essa questão se faz presente. Já me perguntaram o porquê de pintar isso, se havia alguma relação com a infância ou até mesmo com o martírio dos índios por conta da colonização, mas não é nada disso. Primeiro porque a carne não representa necessariamente um sofrimento, dor ou morte. A carne pode representar comida também, sendo muito presente nos mercados. Adoro visitar mercados, pois acho que não existem lugares mais vivos e alegres. Costumava visitar e fotografar alguns no México, além dos brasileiros. E a carne é um elemento muito interessante de ser pintado, pois é muito plástico e, além disso, se refere à tradição da pintura. Quando penso na carne, penso nesse lado menos dramático, não acho provocativo. Temos o Barroco aqui no Brasil e ali está cheio de visceralidade, até nas próprias imagens do catolicismo. O coração, as flechas, as feridas expostas, etc. É toda uma exposição do corpo e nós somos um pouco disso. Nós somos carne por baixo da superfície da pele. Acho que estamos perdendo muito esse contato e temos que retomá-lo. Acho que nos afastamos dessa fisicalidade.

 

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Unifor Notícias: Seu trabalho é amplo, contempla pintura, escultura, fotografia, instalação. Como você decide por determinada técnica? E que tipos de materiais podem ser explorar no seu fazer artístico?

Adriana Varejão: A arte é um laboratório. Você pode fazer, na arte, coisas que não pode fazer na realidade. A arte opera dentro do campo da ficção. Nela você pode cortar, ferir, expor. Por ser um campo da ficção, é um campo de plena liberdade para lidar com todas as porções, das mais violentas e cruéis às mais belas. A arte é um lugar de extremos, por isso é tão necessária. Na verdade, meu filtro denominador é a pintura. Faço fotografia e desenho pelas beiradas. Às vezes, surge a oportunidade de trabalhar numa revista em fotografia. O trabalho em desenho geralmente faço a partir das pinturas, como no caso das saunas da exposição. Com a pintura, sou muito pouco acadêmica, pois não tive uma formação profissional. Não tinha a menor noção quando comecei a pintar, parecia criança. E, por não ter essa diretriz do que é certo, eu parti para o uso de vários materiais. Pinto óleo por cima de tudo e uso espuma de poliuretano, plástico, alumínio, etc. Pinto sobre vários materiais e nisso faço uma experimentação e chego a vários lugares. Ou não.

 

Unifor Notícias: O que inspira você a compor obras de temas tão diversos?

Adriana Varejão: Comecei, nos anos 80, a me envolver com o Barroco e depois parti para questões mais políticas em relação a ele, como a miscigenação e trocas culturais. Foi uma fase que comecei a ler vários autores. A literatura foi marcante me servindo de referência e então comecei a introduzir vários aspectos históricos na obra, propositalmente. Pensar e fabricar história, pois ela não é o que lemos nos livros. É somente uma versão dos fatos. A história funciona em versões e o grande mote do meu trabalho passou a ser fabricar versões e conexões históricas. Misturar linguagens e culturas. Esse tema histórico sempre foi muito marcante, pois representava momentos de intercâmbio cultural no mundo. Pela primeira vez, o mundo tinha uma conexão. Esse período me interessa muito, e então meu trabalho a partir disso vai sendo norteado, nessa ideia mais poética e abrangente da história.

 

Unifor Notícias: Você é uma das artistas contemporâneas mais prestigiadas do Brasil e está presente em várias instituições de arte pelo mundo. Como suas obras de arte saíram do Brasil e começaram a ganhar reconhecimento internacional?

Adriana Varejão: Faço parte de uma geração que acha que a “fronteira Brasil” está caindo um pouco, em que as instituições internacionais começaram a se abrir para a arte não-europeia e não-norteamericana. Em que as galerias no Brasil começaram a ganhar uma força maior e o mercado começou a se expandir. Eu, desde sempre, participo de exposições internacionais. A primeira foi em 1989, em Amsterdã, onde adquiriram uma obra, e lá comecei a trabalhar numa galeria. Foi tudo natural, nenhuma estratégia. E quanto mais local você é, mais universal você é. Acho importante falar de uma maneira original de questões locais, do lugar que você pertence, da sua cultura. Fazer arte internacional não existe. Pessoas têm particularidades e não existe nada melhor do que ser você mesmo.

 

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Unifor Notícias: Como foi concebida a exposição Pele do Tempo?

Adriana Varejão: A exposição foi uma concepção da Luisa Duarte, que é a curadora. Tivemos muitas conversas para fazer recortes na obra. Acho que ela tem vários aspectos e não dá pra mostrar todos. Acho que essa exposição tem um aspecto mais da cerâmica, da porcelana, dos azulejos, barrocos ou monocromáticos, ela fica um pouco dentro desse universo. A exposição tem também um aspecto muito legal, que é a sala de referências, onde temos alguns artistas que foram importantes nessa trajetória, como Ives Machado, que morreu recentemente, além de livros do meu acervo pessoal e filmes que fazem parte do meu universo.

 

Unifor Notícias: Como você avalia a iniciativa da Universidade de Fortaleza em abrir um espaço para a arte acessível a população – com direito à visita guiada e espaço educativo?

Adriana Varejão: Acho que a Universidade é o lugar ideal para se expor. Em uma conversa com o chanceler Airton Queiroz, ele falou que acredita em duas coisas que colaboram para a educação: a arte e o esporte. Acho que ele tem toda razão, pois a arte te leva para muitos lugares. Quando me envolvi com a arte, ela transformou a minha vida, pois a realidade virou outra coisa. Acho que arte e educação são coisas indissolúveis, ainda mais nessa exposição, que é montada junto com referências. É uma maneira de estudar história, onde ela entra através de todos os sentidos, de forma muito sintética e concisa, por meio de vários elementos da linguagem visual. Você aprende de maneira muito mais prazerosa, eficiente e interessante.

 

Unifor Notícias: Como você gostaria de ser lembrada enquanto artista?

Adriana Varejão: Acho que a arte não tem o que responder muito. Ela tem mais é que indagar e levar você a perguntas e a lugares. Ela não é uma resposta que se apresenta. Não existe isso de não gostar de arte. Não gostar às vezes é bom. Tem muitas coisas que não gostamos e isso faz bem. Acho que gosto de provocar. A arte deve ser provocativa, dar um soco no estômago, no bom sentido.

 

Serviço

Adriana Varejão – Pele do Tempo

Em cartaz até 29 de Novembro, no Espaço Cultural Airton Queiroz. Entrada gratuita.

 


 
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